Esta é uma nova coletânea de contos que será publicada regularmente aqui na Taverna.   Esta história faz parte do mesmo universo que “O comércio de elixires na Planície dos Trovões”, conto do meu blog pessoal, mas eles podem ser lidos separadamente sem problemas. Esta é a terceira  parte de quatro deste conto. A primeira se encontra aqui e a segunda aqui.

Imagem e conto por Letícia Werner.

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 A semana que seguiu o surgimento das criaturas foi a pior da vida de Bert. Os animais da fazenda sumiam com uma frequência apenas menor do que as parcas provisões dos aldeões. Viver fora da muralha era sinônimo de vigilância constante, pois a qualquer momento, os visitantes vermelhos poderiam deixar de lado sua falsa instância pacífica e os atacar com garras e dentes malignos.

 Não que em algum momento tenham tentado isto. Pareciam se contentar com o que roubavam dos moradores, e o resto do dia passavam reunidos em pequenos grupos. Montaram tendas. Eles olhavam para o castelo, e esperavam por algo. Será que seria um aviso? Será que esperavam por um líder, alguém para comandá-los quando finalmente atacariam o castelo, destruindo tudo que o povo de Pico da Rocha levara séculos nutrindo?

 Os camponeses não sabiam. Mas Bert e sua esposa não saíam de casa havia dois dias, já que os arredores da cabana foram transformados num destes acampamentos malditos. Viviam das provisões para o inverno, que felizmente armazenavam no único cômodo de pedra de seu lar, seco e de difícil acesso para ladrões.

 Agora só os restava rezar para um inverno ameno, e também para nunca mais ver um pano vermelho vivo em suas vidas.


 No interior do castelo, a semana não passou de maneira todo agradável, também. Pieter tinha suas aulas rotineiras, almoçava, e então ia para uma sala reservada no monastério, onde Padre Justino aplicava seus rituais de purificação secretos.

 Porém, nos últimos três dias, o padre e tutor informou à Ama que o estado do menino piorara. Pieter não deveria mais sair da sala do ritual até apresentar melhoras, e as refeições eram levadas até ele.

 Livrada de seu ofício, Norma percebia cada segundo desconfortável daqueles dias que não passavam. Para não enlouquecer, ela se interessou pelos problemas da cidade, e como ela era legalmente uma governadora local, enquanto guardiã de Pieter, fazia o que podia para amenizar a situação.

 Hoje havia convencido alguns membros da guarda a procurarem um líder entre aqueles monstros, numa tentativa de negociar sua posição fora dos portões de maneira pacífica.

 Justino nunca concordaria em fazer negócios com o que ele julgava serem demônios, mas esta era uma das alegrias de tê-lo bastante ocupado.

 Para a surpresa geral, os guardas voltaram, e com a notícia de que o comandante das criaturas queria conversar diretamente com líder de Pico da Rocha. O Mestre das Armas Anor aconselhou ignorá-los, porque poderia ser uma armadilha, mas Norma juntou um grupo de guardas e seguiu em frente.

 Além dos portões e no meio de uma plantação devastada, encontrava-se a tenda circular exuberante, listrada em vermelho, roxo e dourado. Ao seu redor encontrava-se todo tipo de variação deles, máscaras sem vida com vãos negros e famintos como olhos.

 Dois dos menores afastaram a lona, e a ama entrou junto de Anor e seus guardas. Dentro não havia qualquer tipo de mobília, mas os visitantes acharam curioso encontrar um cavaleiro montado ali.

 Ele se aproximou lentamente, e Norma percebeu duas coisas sobre o dito comandante. Primeiro, foi que homem e besta tratavam-se de um ser só, o tronco dele erguendo-se da base do pescoço do cavalo. Ela se arrepiou ao perceber o quão familiar à ilustração da maldita rima ele era.

 A segunda é que ele caminhava lento, porque estava ferido. Uma estrutura tosca de barras de ferro soldadas e tiras de couro envolvia o posterior do cavalo, prevenindo uma das patas de tocar o chão, enquanto uma pequena roda exercia sua função.

Você líder aqui?” As palavras quebradas ecoaram de dentro da máscara inexpressiva, o som de algo inumano se esforçando para imitar as sílabas que ouvira os camponeses pronunciarem.

Norma tomou um passo à frente. “Sou. Suponho que seja o comandante desse exército?”

A figura respondeu com um som gutural, como do fundo da terra. Parecia ser uma risada. “Você não nobre. Servo. Quero líder, agora.”

“Imagino que saiba o que aconteceu à nossa líder anterior, quando a encontraram na estrada.”

“Norma…” Anor quis interromper, mas não sabia como intervir na situação. Ele a conhecia quando contrariada. Pensou se ela não acabaria por sentenciar todo mundo à morte nesta aproximação.

“Estrada? Sim, atacaram primeiro. Nós defendemos. Agora o tributo.”

 Um movimento no fundo da tenda. Alguma coisa enorme, monstruosa, balançou a cauda ao ouvir menção à estrada.

“Vocês a mataram, e ainda querem receber algo por isto?!” Os guardas estavam inquietos.

“Acordo feito, deve manter. Quero o que chamou a Cavalaria. O que me chamou o nome.”

Norma congelou no lugar. Quem eles queriam? Seria ela, ou seria Pieter? Não a atacavam, então provavelmente era o garoto.

“E se não o entregarmos?”

“Este lugar cai. Sobrar nada da história. Terei o tributo, bem ou mal.”

Eles não seriam capazes de repelir o ataque em massa. Mas não iria entregar Pieter aos monstros assim, como se fosse um presente.

“E se não pudermos entregá-lo agora, precisamos… Precisamos de tempo para prepará-lo, entende?”

“É piada?”

“Não.”

“Hm. Não espero longo. Três vezes o sol se ergue, espero. Quarto sol se ergue sem tributo, ataco.”

“Obrigada. Temos um acordo então.”

“Temos dois acordos. Agora vá, servo.”

 Saindo da tenda, eles ouviram a voz gutural do comandante, falando em uma língua que jamais ouviram, o som dos trovões e dos deslizamentos de rochas formava suas frases.

 A Cavalaria seguiu em direção ao seu líder, sem dar importância aos humanos que andavam entre eles. Estavam se reunindo para um pronunciamento.

 “Norma, e agora, o que fazemos?”

 “Tentar mandar alguma mensagem para Salões da Planície, mesmo que seja por pombos ou cavando um buraco por debaixo da terra –”

 Um cavaleiro humano se aproximou deles, vindo da muralha. “Acho que não precisamos chamá-los.” Disse.

 As criaturas fizeram um breve alarde ao redor da estrada principal, mas apenas abriram espaço para a campanha que trazia estandartes esmeralda. Os monstros zombavam do exército menor.

 Embora poucos, a visão dos guerreiros vizinhos se aproximando foi o alívio de todos. Os camponeses comemoravam baixinho, de dentro de suas casas, mas era o suficiente para o líder das tropas de Salões da Planície acenar e avançar com o cavalo até os portões da cidade.

 Como atual líder de Pico da Rocha, Norma o recebeu no castelo um pouco mais tarde, e descobriu que o líder tratava-se de Ignacio, filho de Conde Rudd e sobrinho da Duquesa Ethel.

 Fazia muito tempo que não o via, e agora percebia que ele era uma perfeita imagem de como seria Pieter mais velho. Isto é, se o menino chegasse aos seus dezenove anos.

 “Norma! Há quanto tempo! Deixaram você cuidando do lugar?”

 “Muito feliz em te ver, Ignacio. Então sabe o que aconteceu com a Duquesa?”

 “Mas claro que sei! Fiquei me perguntando o que poderia ter acontecido com uma comitiva tão bem preparada, mas parece que encontrei a resposta aqui, nos seus amiguinhos vermelhos.” Alguns dos nobres que o acompanhavam riram. “Agora, temo que eles estejam em número maior que nós. Não que minhas tropas teriam qualquer problema em dizimar algumas bestas, mas não gosto de arriscá-los por qualquer coisa.”

 “Mas há outra coisa que eu sei, Norma.” Ele continuou. “Por linhagem, eu sou o único herdeiro com idade para governar Pico da Rocha.”

 “O quê houve com seu pai?”

“Ah, não está em condições de se preocupar com problemas políticos.” Ele deu uma piscadela para os outros integrantes de sua facção e houveram alguns risinhos contidos. “Então, existe alguma razão para estas aberrações estarem por aqui? Sabe de alguma coisa que pode fazer eles se mandarem?”

“A história de como eles chegaram até aqui é bastante complicada, e sequer tenho certeza se a sei completa. Mas eles querem alguém, e este alguém temo que seja o seu primo Pieter.”

“Então o entreguem.”

“O quê?!”

“Entreguem o menino. Ele não vai mais governar o ducado de seus pais, de qualquer forma.”

“Como pode sugerir uma coisa dessas?”

“Se o querem mesmo, é porque ele fez alguma coisa para chamá-los. Logo, quem tem que assumir as consequências é o menino.”

“Você não pode estar em pleno juízo, Ignacio. Você sequer se lembra de seu primo? Teria coragem de dizer isso olhando para ele?”

Os outros membros da companhia o observavam. Não pareciam ter aprovado isto, também.

“Muito bem, quero ver o garoto. Falar com ele.”

 Norma estava aflita de levá-lo até o monastério, onde Padre Justino mal deixava ela se aproximar, mas, não vendo outra escolha, foram em excursão ela, Ignacio e alguns nobres mais próximos.

Chegando em frente à sala de purificação, ela bateu na porta e chamou o padre. A resposta foi curta e grosseira.

“Sem visitas. O processo é delicado.”

“Ignacio está aqui, ele quer ver Pieter.”

“Quem?”

“O filho de Conde Rudd.”

“Oh!” Ao ouvir o nome nobre, ouviu-se o destrancar da porta. Logo Justino a abria. “Podem entrar, mas tenha em mente que o garoto está passando por um processo de purificação, para retirar dele a maldição da magia, e não está em suas melhores condições.”

 A ama se sentiu culpada ao ver a figura pálida deitada num colchão de palha.

O menino abatido não olhou para os visitantes, perdido em seus próprios pensamentos. Na sala havia uma mesa, duas camas e uma bíblia. Nada mais.

Ignacio se aproximou dele, o encarando de cima. “Não sei se percebeu, mas conseguiu uma boa quantidade de amiguinhos novos lá fora. O que vai fazer a respeito disso?”

 Pieter não deu resposta. O nobre continuou: “Se você chamou eles aqui, consegue mandá-los embora, não? Ou ao menos sabe o que faria eles irem embora?”

 Sem resposta.

 “Só te ensinaram meio feitiço, seu bruxo maldito?!” Ignacio disse num tom mais agressivo que antes.

 Vendo isto, Norma interferiu. “Ele é só uma criança! Se tem qualquer ligação com o que está acontecendo, ele não sabe o que fez!”

 O cavaleiro riu e se virou para a ama. “Sempre inocentes, não é mesmo? As piores maldades que o mundo já conheceu foram cometidas por pessoas que pareciam inocentes. Estive lendo, e, aparentemente, o próprio Nadrac havia em algum momento convencido a santa Ailith de que ele era uma boa pessoa. Não confie em aparências, Norma, à menos que deseje ser apunhalada pelas costas.”

 Justino impôs sua opinião. “Tenho que concordar com o senhor, jovem cavaleiro. Estive uma semana acompanhando este garoto, e encontrei nele um poço de escuridão e mentiras que me deixou enojado. Suponho que esteja aqui para nos fornecer ajuda nesta grave situação em que nos encontramos? Norma não foi deixada sozinha cuidando de toda a região, também sou responsável pelo rapaz e pelo trono de Pico da Rocha.”

 “Ah, então existe aqui alguém que me entende.” Disse Ignacio. Ele se voltou para o menino uma última vez. “Quero ter uma conversa de adultos com o seu salvador, aqui. É melhor aproveitar para pensar num jeito de acabar com as coisas grotescas lá de fora, porque parece que elas querem te levar embora.” Pieter reagiu a estas palavras, e ficou agitado. Com um sorriso largo, o nobre se despediu da ama e foi conversar com o padre no pátio do castelo.

 Norma aproveitou o momento para confortar Pieter. Sentou-se ao seu lado na cama de palha e o abraçou. “Justino nunca me contou o que vocês fazem aqui. É muito ruim?”

 “Não… A gente não se fala a maior parte do tempo, e se eu tento dizer alguma coisa, ele começa um dos sermões dele no último volume. Tem vezes que ele me proíbe de comer até eu recitar um verso completo da bíblia de cabeça.” A voz do menino estava rouca devido ao pouco uso.

 “Por que ele disse que você piorou?”

 “Não sei, acho que ele decidiu que piorei para passar mais tempo fechado aqui.”

  Norma refletiu sobre a situação.

 “Na noite em que você estava lendo o livro no quarto vazio, como você o conseguiu?”

 “Eu fui no quarto para olhar pela janela, e o livro já estava lá.”

  Isto foi o suficiente para a ama perceber que havia algo errado.

 Logo eles tiveram que se despedir, e a porta tornou a ser trancada. Porém, naquela noite, ficou marcado um jantar para receber os visitantes de Salões da Planície, assim como para decidir o futuro da região. Norma disse que, infelizmente, estava indisposta, e seria melhor jantar em seu quarto.  Justino certamente a representaria bem nesta etapa tão importante da história das Planícies da Tempestade.

 Quando recebeu os alimentos, os ajeitou numa trouxa junto com algumas mudas de roupa suas e de Pieter, os brinquedos favoritos dele, um punhado de moedas e um lampião. Só pensava em como sair sem ser percebida, depois iria se preocupar para onde ir.

  Evitando todos os corredores principais e os que se conectavam com o salão onde o jantar era servido, ela chegou ao monastério sem problemas.

 Subindo as escadas e atravessando a biblioteca escura, somente pensava em se encontrar com o menino que era sua responsabilidade, e com o qual ela sentiu ter faltado tanto nesses últimos tempos.

 “Norma! Achei que estaria no jantar.”

 Ela se virou lentamente para encontrar com Nicholas, o copista autor do maldito livro que começara tudo isso.

 “Boa noite Nicholas! Queria ver se Pieter estava bem alimentado. Também trouxe algumas mudas de roupa para ele. Espero não ter te assustado.”

“De forma alguma, senhora! Acabei de levar a janta para ele, mas entendo que esteja preocupada. O Padre tem sido duro demais com Pieter. É bem óbvio que a aparência dos monstros não passam de uma coincidência, quando comparados com os do livro. Eu os desenhei com base em um volume muito mais antigo que estava em péssimo estado, e nunca tivemos problemas com ele. Você vai ver, no momento que estas coisas forem embora, tudo voltará ao normal.”

 Ele apontou para a porta. “Quer que eu a abra para você? Posso fazer, e vou deixar a chave, porque tenho um tomo antigo para estudar ainda hoje. Só lembre-se de trancar novamente, ou Padre Justino me esfola vivo!”

 Ele destrancou a porta e deixou os dois sozinhos. “Pieter, temos que ir embora daqui. É só por uns dias, e quando as coisas se acalmarem, nós voltamos, está bem?”

 Ele acenou com a cabeça, concordando. A ama o vestiu com uma capa de inverno, e ambos seguiram biblioteca à dentro.

 “Para onde vamos, Ama?”

 “Minha família trabalha há gerações neste castelo, e bons serviçais devem conhecer com profundidade seu ambiente de trabalho. Com o tempo, ele foi reformado e corredores antigos foram desativados e esquecidos. Antigamente, esta biblioteca era um arsenal, e se conectava a uma torre na base leste da montanha por um longo túnel.”

 Virando à esquerda, se depararam com uma estante que trazia a estátua de pássaro em meio aos livros, o pescoço da ave dobrado de forma pouco natural.

Norma colocou a cabeça do animal no lugar, e com um *clic* suave, a prateleira se abriu como uma porta, revelando o túnel escuro que não parecia ter fim.

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