Saudações, taverneiros!

Antes de iniciar a resenha, sigamos, como de costume, o rito dos apontamentos padrões:

i) Devido ao fato de eu ser um “spoilerfóbico”, irei me esforçar em entregar-lhes resenhas inteiramente livres de spoilers, pois não há nada mais devastador do que a ruína da experiência de uma leitura. Em verdade, não só de leituras, mas da absorção de obras de ficção em geral. E, na minha singela opinião, nada dotado de maior potencial destrutivo para tal do que a revelação de surpresas sobre o enredo ou arco de personagens. Fiquem tranquilos quanto a isso, portanto.

ii) Farei minhas resenhas dentro de uma estrutura, que consistirá na análise de voz narrativa (primeira, segunda ou terceira pessoa); enredo (plot); mundo (setting/milieu), seja ele fictício ou não; personagens e seus arcos; sistema de magia; linguagem; e quão sinérgicos são os elementos citados.

iii) Sempre que necessário, tecerei considerações além da obra em si. Técnicas literárias, reflexões, nuances acerca do autor e afins.

iv) Ao final, darei notas aos elementos expostos em “ii” e tirarei uma média entre elas.

Obs.: há uma nuance diferente nesta resenha em relação às anteriores: nas outras, não incluí o tópico “linguagem” na nota. Talvez eu volte e as edite. Este, no entanto, é assunto para outra hora.

Sigamos ao que interessa!

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Certa feita, adquiri o que eu considero um dos mais valiosos ensinamentos que um leitor pode ter, pois tal potencializa, em muitos níveis, qualquer leitura. Atente que estou dizendo “leitura”, e não “leitura de fantasia” ou “leitura de ficção”. Leitura.

Ei-lo (o ensinamento): sempre quando pegar algo para ler, situe-se. Entenda onde, quando, como, em que contexto o texto foi forjado. Se puder, inclusive, conheça o autor. Claro que buscar tudo isso nem sempre é uma tarefa viável (ou, mesmo, agradável), porém será um valioso artifício, garanto-lhe.

Pondo noutros termos, numa apertada síntese: não seja anacrônico.

Por que essa provocação? Respondo: a obra objeto desta análise, “O Feiticeiro de Terramar”, foi publicada por Ursula K. Le Guin no longínquo ano de 1968. Publicada. Então, quem dirá em que ano foi concebida… ou quando ela pôs a primeira palavra no papel — “papel” no sentido literal. Assim sendo, se você mergulhar nas páginas dessa obra com a mentalidade de um consumidor de ficção do ano de 2017, provavelmente largará o livro antes mesmo de encerrar o primeiro capítulo. Reiteradas vezes — se esse for o caso — pensará: “Que clichê!” “Quanta falta de criatividade!” “Já li isso um milhão de vezes!”

E, sim, tenho quase toda certeza que terá lido, de fato, um milhão de vezes. Todavia, é preciso refletir sobre onde leu tais mesmices. Quantos deles foram escritos antes da década de 60? Uns 20%? 10%? 5%? Nem isso? Pois é.

É importante conhecermos os pilares que dão sustento às robustas edificações. Não se aprende equações sem saber as quatro operações fundamentais da aritmética. Não se escreve palavras sem aprender como as vogais e consoantes funcionam juntas. Não se toca uma música sem saber os acordes.

Peguemos a sociedade contemporânea, por exemplo. Alguém que não conhece nada da História indubitavelmente terá um olhar rasteiro sobre os fenômenos humanos que nos cercam. Ora, somos seres racionais. Trabalhamos com a lógica. Somos ávidos pela busca de padrões, paradigmas, modelos. Ser original, heterodoxo é sempre um martírio. Tendemos ao conforto, ao lugar comum. Nesse sentido, nada melhor para enriquecermos nosso entendimento atual do que compreender os eventos que deram origem a eles — há anos, décadas, séculos atrás. Isso se aplica a qualquer área do conhecimento. Com a literatura não seria diferente. Nessa lógica, afirmo: clássicos são importantes!

Apesar de ter encarado a leitura com toda essa configuração mental que tanto defendi acima, admito que foi arrastada. Depois de o cinema e a TV tanto se desenvolverem, passando a usar e abusar de cenas de ação velocíssimas e técnicas de corte deveras dinâmicas, as pessoas acabaram por acostumar a todo esse imediatismo, ao furor. Há ainda o agravante de vivermos na era digital. Por isso minha dificuldade na leitura. No entanto, valeu a pena forçar, porque o ritmo melhora consideravelmente, com o andar da carruagem — não ao ponto de atingir a minha preferência, mas, mesmo assim, bom.

Um ponto interessante e que sinto no dever de mencionar é que me surpreendi com algumas passagens em “O Feiticeiro de Terramar”, sobretudo com a conclusão do clímax; há uma construção bem que consistente que leva a esse ponto — o prenúncio ou prefiguração (foreshadowing), como os teóricos chama. Portanto, digo que vale a pena a leitura, pois não obstante transitar por entre vários tropos (clichês), irá se surpreender ora ou outra.

Adiante.

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A resenha.

A narrativa é em terceira pessoa onisciente, o que quer dizer que, enquanto lemos, temos acesso a informações que somente alguns (ou nenhum) personagens têm e que entramos na cabeça de vários deles abrupta e simultaneamente (técnica chamada pelos teóricos de head-hopping).

Sobre esse aspecto, em meu sentir, a autora peca um pouco. Ela pouco aproveita desse artifício para conhecermos melhor os personagens coadjuvantes e secundários, mantendo o foco no protagonista, Ged. Além e apesar disso, sinto que ela pouco aproveita para explorar a intimidade dele, mesmo havendo esse foco. Esse fato se relaciona visceralmente com o estilo de escrita de Le Guin, que muito usa o artifício do contar (tell). Para os que desconhecem, existe um binômio importantíssimo quando o assunto é o modo de narrar estórias: mostrar (show) e contar (tell). Diz-se, aos montes, nos dias atuais, que você deve sempre mostrar ao máximo e contar de menos. Antigamente, entretanto, o paradigma era inverso: muito se contava e pouco se mostrava. Logo, a abordagem de Le Guin não é diferente de seus contemporâneos. Ela conta muito. Conta muito! E isso atrelado ao fato de o narrador ter ciência de tudo no mundo, acaba descambando para uma infinidade de despejo de informações (info dumping), completamente desnecessárias aos momentos que são expostas. Você verá, por exemplo, em uma única página, a citação do nome de dúzias de ilhas e meia dúzia de povoados que não influenciarão em nada na narrativa, e serão úteis somente em te entediar. Uma construção de mundo (world building) completamente desnecessária.

Ademais, por conta desse contar (tell) exacerbado, ela, reiteradas vezes, sumariza diálogos, isto é, passa um “resumão” daquilo que os personagens trataram em sua conversa. Isso, aliado à enxuta exploração da intimidade de Ged (e dos outros personagens, principalmente), acarreta personagens, no máximo, bidimensionais — e não tridimensionais, que seria o ideal. Afinal, os momentos mais poderosos de se construir um personagem são, justamente, nos diálogos e em monólogos internos (introspecções), os quais, ambos, são carentes no texto sob análise.

“O Feiticeiro de Terramar” conta a história de Ged, um garoto do campo, órfão de mãe, que descobriu poderes acima da média para uma criança da idade dele. Além disso, Gont — a ilha natal do jovem —, por se tratar de pequenino lugar, possuía pouquíssimos que sabiam magias, dando, assim, mais destaque ainda às habilidades do garoto, que salva (bem no início do livro), sozinho, seu povoado de um bando de guerreiros invasores.

Não muito depois disso, ele encontra um mestre, Ogion, que muito lhe ensina. (Vale abrir um parêntese aqui. Por causa dos “resumões” que apontei, dá a sensação — apesar de ser dito/contado que os dois constroem uma forte relação e que há um treinamento árduo sendo realizado — que os dois são distantes e que tudo, no que se refere à magia, é muito simples de se aprender. Inclusive, esse foi meu sentimento em praticamente todo o livro — como única exceção, em minha opinião, a amizade de Ged e Vetch.) E, depois de ser considerado, por seu mestre, muito forte, o jovem inicia sua jornada à ilha de Roke, um dos locais com a maior concentração de feiticeiros e magos de Terramar, onde há uma escola de magia. (Ah, havia pensado que J.K. Rowling havia sido a pioneira com o conceito de escola de magia? Errou!)

Falando de magia… O sistema de magia é interessantíssimo em alguns aspectos, mormente no tocante à sua originalidade (lembre-se do ano, 1968). Se você, caro(a) taverneiro(a), achou que nosso querido Patrick Rothfuss inventou o conceito de magias sobre os nomes das coisas; bem, você se enganou. Le Guin o fizera décadas antes. E a abordagem que ela faz com toda essa questão de nomeação é interessantíssima. Não falarei o porquê. Eu = spoilerfóbico. Lembra-se?

Quanto aos pontos negativos, eu citaria dois: a) a vastidão absurda do rol de magias, que acaba banalizando tudo um pouco; e b) a quase ausência de desvantagens (drawback) àquele que realiza magias, reduzindo em larga escala a tensão e o senso de perigo em nós, leitores. A única desvantagem (drawback) que realmente achei sensacional é aquela relacionada à transformação em animais: além de cansar ao extremo, o usuário, se transformado por muito tempo, passa a se tornar — mentalmente falando — o animal transformado. (Aposto que você também acreditava que nossa queridíssima Robin Hobb havia sido originalíssima com o drawback da Manha, não é? Errou!)

Para encerrar, falarei de personagens.

Se você ler o livro até, mais ou menos, a metade, definitivamente pensará que a construção de personagens nesse livro é medonha, horripilante, terrível. Motivações mais bestas, diálogos sumarizados, falta de profundidade, dentre outros fatores contribuem muito com isso. Todavia, com o decorrer das páginas, Le Guin se redime nesse aspecto. Não fica lá mil maravilhas, mas melhora.

Por derradeiro, acho relevante citar que pode até ser que Le Guin não tenha sido a primeira a criar este tipo de personagem, mas tenho quase certeza que foi uma das responsáveis por levantar holofotes (na Fantasia) a ele: o personagem enfadonho, Jaspe. Não… Ambrose e Draco Malfoy não foram os primeiros rivais malas numa escola de magia. Acontece que, diferentemente de “O Nome do Vento” e “Harry Potter”, o protagonista de “O Feiticeiro de Terramar” consegue ser mais mala que seu antagonista! (Eu estou careca de saber que há muitos haters do Kvothe, mas não há como negar que o Ambrose é muito, mas muito pior que ele!) Portanto, odeio admitir, mas é a verdade, eu adorei ler o Ged sofrendo bullying. Justiça seja feita, não posso omitir que Ged melhora sua personalidade no decorrer das páginas. Entretanto, no começo da estória… Insuportável.

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As notas.

(Escala: 0 a 5.)

  • Enredo (plot): 2,5
  • Mundo (setting/milieu): 3
  • Personagens e seus Arcos: 2,5
  • Sistema de Magia: 4
  • Linguagem: 3
  • Nota Final (média): 3

Suponho que discordâncias surgirão a respeito desta nota. Bem, quero ressaltar, mais uma vez, o quão importante sei que esse livro e essa autora são para a Fantasia. No entanto, dou as notas nos conformes de meu gosto pessoal. Ou seja: trata-se de algo inteiramente subjetivo.

Último adendo: se o livro tivesse sido escrito nos dias atuais, eu daria 2,5 ou 3 ao Sistema de Magia. Contudo, dada sua inovação à época, julguei 4 justo.

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Esta está sendo minha maior resenha até então. Adorei fazê-la!

E, mesmo a nota tendo sido 3, eu encorajo, de verdade, que leiam o livro. Por se tratar de curta obra (167 p.), creio que valha a pena. É um clássico, afinal.

Mas lembre-se: tempos diferentes; estilos diferentes; visões diferentes. Não sejam anacrônicos!

Vejo-os na próxima! Até breve!