Esta é uma nova coletânea de contos que será publicada regularmente aqui na Taverna.   Esta história faz parte do mesmo universo que “O comércio de elixires na Planície dos Trovões”, conto do meu blog pessoal, mas eles podem ser lidos separadamente sem problemas. Esta é a quarta parte de cinco deste conto. A primeira se encontra aqui, a segunda aqui, a terceira aqui, e o final aqui.

Imagem e conto por Letícia Werner.


As paredes pareciam se aproximar enquanto eles desciam. Norma perdeu a contagem do tempo desde que eles entraram pela passagem escura. Só esperava estar certa, e o túnel terminar mesmo do lado da Montanha Estilhaçada que a vila não tinha visão.

 Por vezes, o lampião deles revelava reentrâncias nas paredes, lares de teias de aranha e rolos de pergaminho há muito esquecidos.

“Ama.”

“Sim?”

“Não falei toda a verdade para você, hoje mais cedo.”

“O quê quer dizer com isso?”

“O padre me trancou porque eu fiz uma coisa errada. Eu procurei o livro de canções de ninar outra vez.”

“Você fez… ?!”

“Porque precisava!” Ele parou de andar e olhou para o rosto dela. “Depois da canção da Cavalaria, havia duas páginas que estavam coladas juntas. Eu tinha que ver o que estava escrito ali, ver se podia nos ajudar de alguma forma. Eu consegui abrir e ler os versos, antes do padre me encontrar.”

 Ela se agachou, para ficar na linha de visão de Pieter. “Você não devia ter feito isso, mesmo. Este livro só nos trouxe problemas até agora, menino. Mas… Conseguiu descobrir alguma coisa?”

 “O que eu li parece importante, mas perigoso também. Não sei como poderia usar… A menos que tenha como ler os versos de um jeito diferente.”

 Os dois continuavam parados, mas agora passos ecoavam corredor adentro.

 Mover o lampião em direção a decida revelou o brilho de espadas em punho. Norma fez a menção de apagar a chama e recuar, mas parou ao sentir o metal cortante encostar nas suas costelas.

 “Vá com calma, minha cara, porque se você se mexer, a minha adaga pode escorregar, e não será muito agradável, não acha?” A voz de Ignacio soou atrás dela. “O monge foi nos avisar de sua visitinha, e logo percebi que você foi libertar o remelento, não é? Pois bem, não sei se é uma bruxa, ou ele tem algum ‘dom’, mas, por via das dúvidas, entregamos os dois às bestas?”

 A ama respirou fundo. “O quê Justino diz disso?”

 O pretendente ao trono riu. “Ele está bêbado demais para decidir qualquer coisa. Como gosta de vinho, huh?”

 “E como nos achou?”

 O outro riu. “Posso não ter nascido aqui, mas a família controla ambas as cidades por séculos, e uma história ou outra prevalece, não é? A Torre Leste foi famosa, um dia. E também era sabido que havia uma forma de chegar à ela por dentro do castelo. Ninguém viu vocês saírem da biblioteca, e eu tinha posto homens nas ruínas da torre para estas ocasiões, então…”

 Ignacio continuou. “Vamos seguir por este caminho, e levá-los àquele acampamento maldito sem ter que passar pelos portões principais. Não precisamos causar alarde.”

Pieter respirou fundo, e falou o quão alto ele podia:

O melhor guerreiro para me defender

O invocador, para ti revelo

Os meus inimigos irão responder

Julgados pelo seu martelo

Invocador, exército e vitória

Meu tributo será a glória!

Todos prenderam a respiração e ficaram completamente parados por alguns instantes. Nada parecia ter acontecido.

 “Que susto, garoto! Quase pensei em te dar um soco antes que terminasse, mas sabia que só podia ser besteira. O que esperar de um bruxinho que, no primeiro feitiço, já invocou um exército para matá-lo? Continuem andando, o caminho é longo.”


 As palavras ressoaram claras como um sino para mim. Vieram de dentro da rocha, um furo de flecha que passava pela montanha. Se corresse agora, alcançava o alvo antes dele deixar sua toca.

 Irmãos e irmãs moviam-se como um outra vez. Pena ter que me separar, mas a ordem é  clara, e enquanto eles aniquilam os homens que cheiram à grama, eu vou para a cabeça.

 Correndo ao dever, sinto a grama abaixo de minhas mãos tornar-se pedra, e a frieza da madeira que usam para tapar os furos nos muros se aproximando. Meus chifres a quebram, como muitas outras, em outros chamados.

 Sinto a flecha bater em meu couro e cair no chão, inútil. Um deles se põe em minha frente, agitando uma tocha. Quando percebe que não vou parar, pula para um lado e deixa o meu caminho livre.

 O som do vento batendo nas torres mostra que elas são tão altas quanto a pedreira atrás delas. Um pulo: surpreso ao perceber como as encheram de detalhes. Agora, para mim, são uma escada.

 Meus companheiros cumprimentaram-me ao chegar no topo. Eles faziam o caminho inverso, descendo as torres em sua própria missão.

 Um movimento sobre o vão entre a torre e o penhasco; o abismo abaixo é palpável. Aterrisso em rochas que deslizam, e me ajudam na rota sempre em frente. Árvores e animais assustados me acompanham na descida que parece interminável, e por vezes me acho perdido, incapaz de sentir o alvo.

Mas então vem o cheiro de grama, e o som da voz dele, aquele que fala acima dos outros, o líder dos homens das planícies.

Te achei.


 Justino acordou assustado. O cálice ainda estava em suas mãos, e sua visão continuava turva. Ele foi acordado por um trovão, ainda distante, que anunciava a manhã chuvosa que se aproximava.

 Ficou surpreso ao perceber que estava sozinho na sala de jantar. Para se acalmar, deve ter passado da conta. Esperava que isto não influenciasse nas negociações com Salões da Planície.

 O que tinham resolvido, mesmo? Ah, sim, Pico da Rocha ficaria sobre a guarda do monastério, mas responderia diretamente à Ignacio, que seria nomeado duque no dia seguinte. O nobre prometeu resolver a situação dos monstros o quanto antes, mas teriam que pagar taxas extra devido à ‘demonstração de valor’. Não foi o melhor acordo, mas sem dúvida foi o melhor para a vila.

 O padre se levantou e, lentamente, traçou o curso até seus aposentos. Fazia tempo que não se deitava na própria cama. Os corredores do castelo estavam escuros, e nenhum serviçal à vista.

 Não podia ser tão tarde que todos dormiam.  Mas ainda assim, era como se andasse por um castelo abandonado.

 Uma das portas à sua frente abriu-se, deixando a luz noturna adentrar o ambiente. Ele se aproximou com toda a confiança que podia, mas seus joelhos estavam bambos em cada passo que dava.

 Foi um alívio perceber que a sala em questão estava vazia. Não tão gratificante foi encontrar a janela aberta. Alguma coisa caiu do teto e atrás dele, com um som abafado. Instintivamente, ele entrou na sala, à procura de uma saída, mas sem frutos. Aquele era o quarto vazio que Pieter gostava de observar o mundo, e nele havia apenas a porta de entrada.

 As coisas, iguais à que os camponeses trouxeram para a sala do trono na noite em que tudo ruiu, reuniam-se à porta. Dez, vinte delas, preparadas para dar o bote.

 Num movimento rápido estavam todas sobre ele, e Justino achou que era seu fim. As máscaras se deslocaram para cima, revelando mandíbulas com dentes afiadíssimos prontos para saborear a carne.

 Mas não foi isso que fizeram. Eles se prenderam nas vestes do padre, e as criaturas o arrastaram corredor adentro. Sem dar importância às reclamações do homem quando este foi puxado escada abaixo, as sentinelas obedientes o levaram todo o caminho até a sala do trono.

 Agora as portas estavam abertas, e uma pequena comitiva adentrava. Entre eles, o guerreiro equino com a pata ferida.

 Lá fora, a guarda havia sido dominada. Não foram aniquilados, apenas retidos para a passagem livre do mestre da Cavalaria Escarlate.

 Por mais que Justino batalhasse, os pequenos guerreiros não o deixavam se levantar. Logo, o homem e besta da lança de ferro estava ali, o observando de cima.

 “Por que chamou sem guerra? Para lutar com os seus? Quer destruir todos, menos você e seu bando, para dominar este lugar? Não entendo a invocação.”

 “Foi um acidente. Desculpe-me, não achei que apenas recitar as palavras iria…”

 “Acidente ou não, acordo feito. Foi um erro grave, com os seus e a Cavalaria Escarlate.”

 “Perdão novamente, não sabe como estou arrependido. Mas não disse para atacarem Duquesa Ethel! Por que fizeram isso?”

 “Diferente de você, a Cavalaria protege seus iguais. Deixou o livro no quarto em que os meus te acharam para culpar outro, não? Muito grave.”

 Depois de uma pausa, o ser decidiu responder à pergunta. “Atacaram primeiro, tiveram o que queriam. Agradeça Ethel, porque se não fosse isto -” Apontou para a perna ferida. “Não terian te esperado sair da toca.”

 O padre riu. “Está insinuando que é mais elevado moralmente do que eu? Saiba que o seu tipo sempre estará abaixo de um homem do clero… Mas se é uma batalha do que você precisa, poderiam dominar Salões da Planície! O jovem que a comanda é inexperiente, e vai acabar levando o lugar à ruína. Eles estão aqui e em menor número, podem vencê-los facilmente.”

“O que você quer ou acha não importa, não mais. Recebi um novo chamado, o último. Fecharam seu acordo, foram respeitosos disso. Agora venha, que nossos números sempre podem aumentar em um.”

 “O que quer dizer com isso?!”

 O salão do trono era provido de uma grande lareira em cada lateral. Os cascos bateram em direção à que ficava a esquerda da cadeira elevada, e o toque da lança bastou para que um fogo puramente vermelho irrompesse nela. As chamas então se formaram num círculo, e o interior da chaminé que foi emoldurada por ele pareceu se distorcer num corredor infinito.

 O líder virou-se para os pequenos sentinelas e falou com eles naquela língua enfadonha, que, para o desespero de Justino, agora ele entendia também.

 “Levem-no, apresentem-no para os nossos que caíram durante este chamado, instrua-os a o deixarem pronto. Não se sabe quando todos nós seremos necessários outra vez.”

  Aquele que um dia foi padre, agora era arrastado ao berros pelo corredor do círculo de fogo. Quando sua forma não podia ser mais vista, e seus gritos não podiam ser ouvidos, as chamas se apagaram e a ponte entre o real e o imaginário desapareceu.

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