Saudações, viajantes!

Lembremos que dezembro é o MÊS MISTBORN na TAVERNA! Portanto, ainda verão muito da franquia nos dias por vir!

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Resenha anterior:

https://tavernablog.com/2017/12/08/conto-mistborn-o-decimo-primeiro-metal-resenha/

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Preâmbulo.

Antes da resenha, os apontamentos padrões:

i) Sou “spoilerfóbico”. Por isso, esforço-me em produzir resenhas livres de spoilers. Penso que não há nada mais devastador do que a ruína da experiência de uma leitura. Em verdade, não só de leituras, mas da absorção de obras de ficção em geral — incluo, portanto, filmes, séries e afins.

ii) Costumo seguir uma estrutura. Consiste, em regra, na análise de voz narrativa (primeira, segunda ou terceira pessoa); enredo (plot); mundo (setting/milieu), seja ele fictício ou não; personagens e seus arcos; sistema de magia; linguagem; e quão sinérgicos são os elementos citados. A ordem e o modo como faço varia — cada livro é único; exigindo, assim, uma maneira de exposição também única.

iii) Ora ou outra, teço considerações que vão além da obra. Técnicas literárias, reflexões filosóficas, nuances acerca do autor e por aí vai.

iv) Ao final, dou notas aos elementos expostos em “ii” e tiro uma média entre elas, concebendo a nota final da obra.

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O Escritor Obstinado.

Sanderson parece nunca se cansar; sempre está produzindo. Não só isso, é claro: está sempre produzindo bom material. O resultado não poderia ser outro: ibope. Bateu, durante alguns dias, o primeiro lugar em vendas do gênero Fantasia e Sci-Fi na Amazon, quando no lançamento de sua recentíssima obra, “Oathbringer”; além de ser corriqueiro New York Times Best Seller.  Por isso e outras coisas, muito tem se falado dele. Com justiça.

“Atrás de todo ser humano, há uma história”, costumo dizer. Brandon não se tornou o autor que é da noite para o dia. Para vocês terem uma noção de quão perseverante, obstinado ele é, tomem nota de quantos livros escreveu antes de ser publicado: doze. DOZE! Eu, reiteradamente, pergunto a mim (e, agora, a vocês) quantas pessoas chegaram a um ponto tão drástico como esse e não desistiram. Quantas vezes tentamos algo uma, duas, quiçá três vezes e desistimos?

Não desejo, em hipótese alguma, tornar esta introdução um guia barato de autoajuda, mas vejo que lições como essa são deveras importantes a todos nós. Afinal, não lemos somente em busca de diversão. Bem, talvez esse seja o objetivo suprassumo, porém inevitável é que, queiramos ou não, acabamos por nos desenvolver enquanto pessoas quando lemos. Esse exercício de invadir a cabeça de um personagem — em última análise, um ser humano fictício — é um dos atos mais poderosos aos quais podemos recorrer para entendermos a nossa própria natureza e tornarmos melhores pessoas, pois aprimoramos nossa capacidade de pensar no outro como um indivíduo que tem dores, dúvidas, angústias, paixões e que, sobretudo, é tão sensível como nós próprios. Noutras palavras: desenvolvemos nossa capacidade de empatia; exercitamos alteridade.

Isso posto, gostaria de ressaltar que, goste ou não do trabalho de Sanderson, sua trajetória tem muito a nos ensinar. Em nada adianta uma habilidade inata ou um potencial absurdo se a eles não é dado um aperfeiçoamento, uma lapidada. São de circunstâncias como essas que surgem os grandes gênios.

Pense nisso.

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Generalidades.

Mistborn faz parte do vasto universo compartilhado do autor — o Cosmere — e é uma franquia de vários livros. Serão, ao final, três trilogias e uma tetralogia.

“Império Final” é começo de tudo, o livro 1 da primeira trilogia (chamada de “Trilogia Original” ou “Primeira Era”). Apesar disso, possui a vantagem de ser um livro que fecha em si mesmo — como é qualquer livro de introdução de saga do Brandon. Por óbvio, ao encerrá-lo, perceberá uma ou outra ponta solta. Caso não tenha mais curiosidade, estas são perfeitamente dispensáveis para a compreensão do livro em si. Contudo, recomendo, com todas as minhas forças, que dê uma chance aos livros 2 e 3, porque esses pontos que julgamos pequenos no livro 1 são expandidos e explorados magistralmente.

(Como diz Kelsier, “sempre há outro segredo”.)

“Herói das Eras”, o livro 3, fecha tudo de uma maneira que, arrisco dizer, nunca vi antes em termos de coesão. Tudo faz sentido quando o quebra-cabeça é concluído.  Estonteante!

A narrativa é em terceira pessoa, limitada a um POV (ponto de vista) por cena  — formato cada vez mais comum de se ver nos dias atuais —, composto de três personagens.

Avante.

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A resenha.

Scadrial é um mundo assolado pela desgraça. Chovem cinzas e o sol é cor de sangue. As plantas não são verdes, mas marrons, e não existem flores. Ao cair da noite, brumas densas agasalham a imensidão, ofuscando a visão daquele que se aventure noite adentro.

Tudo isso tem origem em uma interessante quebra de clichê (tropo): há 1000 anos, o grande herói da profecia foi derrotado. Desde então, um tirano supremo (conhecido como Senhor Soberano) governa o mundo com o auxílio de seus poderes assombrosos e seus lacaios tenebrosos.

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Um Inquisidor do Aço, a principal (e mais assustadora) classe de subordinados do Senhor Soberano.

Mas o Senhor Soberano não lidera o mundo somente através desse controle ostensivo. Há todo um maquinário político e econômico que o favorece: os nobres sempre estão a abastecer seus cofres e, mais importante, ele detém um estoque gigantesco do metal mais precioso de todos, o Atium.

A sociedade é dividida em dois estamentos: nobreza e skaa. Os skaa, podemos dizer, são equivalentes a escravos — numa visão bem otimista, trabalhadores explorados — ou mendigos miseráveis.

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Os personagens.

Há dois protagonistas:

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a) Vin é uma skaa recém-adolescente e participa de uma organização de ladrões. Não tem amigos. Não tem ninguém. Nunca conheceu o pai, e sua mãe tornou-se insana e suicidou, deixando Vin e Reen (seu único irmão) solitários no mundo. Este sempre cuidou de Vin e fez o máximo que pôde para protegê-la dos ladrões com os quais conviviam. Todavia, certa feita, assim como todas as outras pessoas com quem conviveu, Reen traiu Vin — uma ironia, porque ele sempre dizia a ela para nunca confiar em ninguém. Deixou-a sozinha, desamparada. A única razão que a manteve viva e participante da organização foi sua habilidade, que ela costuma chamar de sorte (não explicarei o que é, rs). Assim, Camon (líder do bando) sempre leva Vin aos golpes e estes costumam dar certo por causa dessa dita sorte.

Ela tem uma personalidade muito fechada e sempre desconfia de todos — os motivos são óbvios. Seu arco é impressionante e se desenvolve de uma maneira bem fluida e crível. Para aqueles que procuram uma “protagonista feminina forte”, Vin se encaixa como uma luva.

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b) Kelsier também é skaa. E é um Mistborn (Nascido das Brumas), indivíduo capaz de queimar metais. Como assim? Nesse mundo, existem três sistemas de magia: Alomancia, Feruquemia e Hemalurgia. Todos os três se relacionam aos metais. Kelsier, por ser Nascido das Brumas, tem a capacidade de utilizar a Alomancia. Um alomântico, quando ingere metais, tem a habilidade de usá-lo — enquanto está em seu estômago — como insumo para os mais variados poderes. Cada metal  concede ao Nascido das Brumas um poder diferente. Não ficarei aqui discorrendo sobre cada poder, porque ficaria muito chato e, creio, tiraria um pouco da graça de você ir descobrindo ao passo que segue com a leitura. Entretanto, aviso: é um sistema de magia simplesmente sensacional! Enseja um sem-número de possibilidades interessantíssimas — que Sanderson, como sempre, explora com maestria — e é super original!

Kelsier é incrivelmente carismático. Está sempre sorrindo, apesar de sua desolação interna profunda. Seu objetivo é comandar uma revolução skaa que dê fim ao reinado tirânico do Senhor Soberano e que destrua a nobreza. Apesar de ser um sujeito gentil e afetuoso com seus amigos (os quais estão sempre trabalhando em conjunto para que o plano possa dar certo), é implacável com qualquer nobre ou lacaio do Senhor Soberano. Mata sem dó.

(Uma curiosidade: Kelsier é meu personagem favorito de todos os tempos até então.)

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c) Quanto aos personagens de apoio, só tenho a dizer — para não ficar estendendo demais — que todos são extremamente bem caracterizados. Ao contrário de vários livros que vemos por aí, Brandon trabalha com esmero na construção de seus personagens coadjuvantes — você verá isso com uma clareza solar nos dois livros subsequentes.

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Um debate corriqueiro.

Tenho me deparado bastante com a discussão se “Império Final” é ou não YA. Alguns dizem que sim; outros, que não.

(Mas o que diabos é YA? Trata-se da abreviação de “Young Adult” — Jovem Adulto —, traduzido como infanto-juvenil. Seria o meio termo entre o Middle Grade — Infantil — e Adult — Adulto.)

Na minha visão, nenhum dos dois lados da discussão está completamente errado. Penso que “Império Final” seria um híbrido entre infanto-juvenil e adulto.

Por quê?

a) De fato, muitas vezes, o POV de Vin nos brinda com questões existenciais típicas de adolescentes (o que ela é, ora!), como  dilemas amorosos ou preocupações exacerbadas sobre qual roupa vestir. Além disso, há quem defenda que, para ser adulto, a linguagem do livro deva, necessariamente, ser recheada de expressões de baixo calão e que as cenas de sexo não podem ser omitidas — ambos elementos inexistentes em todas as obras de Sanderson. Eu penso nessa obrigatoriedade como uma completa bobagem. Em meu sentir, trata-se somente de estilística.

b) Do outro lado da moeda, é necessário ressaltar que Vin lida com entraves pesados, passíveis de assolar qualquer indivíduo e em qualquer fase da vida, tais como confiança, abandono, solidão, dor, morte, pobreza, abuso etc. Ademais, quando entramos no POV de Kelsier — o que ocorre o tempo inteiro —, todo o fator YA, por evidente, some.

c) Afinal, convenhamos, o elemento decisivo para essa classificação costuma ser, quase sempre, a idade do protagonista. E como temos um protagonista adulto e uma protagonista adolescente, é possível vislumbrar-se, por si só, essa mescla YA-Adult.

“Mas, Ian, quer dizer, então, que Mistborn tem essa pegada híbrida durante a saga inteira?”

Respondo sem embaraço: não.

Somente em “Império Final”, em minha opinião, ocorre esse hibridismo. Digo, sem medo, que os dois livros subsequentes são destinados a um público mais maduro — não necessariamente adultos; até porque vemos, com certa frequência, adolescentes mais maduros e responsáveis que muitos adultos por aí.

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As notas.

(Escala: 0 a 5.)

  • Enredo (plot): 4,5
  • Mundo (setting/milieu): 5
  • Personagens e seus Arcos: 5
  • Sistema de Magia: 5
  • Linguagem: 3,5
  • Nota Final (média): 4,6

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Haveria, ainda, inúmeros outros tópicos para abordar — como sobre as raças, por exemplo. No entanto, para evitar que o texto fique muito extenso, deixarei para abordá-los nas próximas resenhas. (“Sempre há outro segredo”, lembram-se?)

Espero, de coração, que busquem a leitura. Das séries que li até então, é minha preferida. Inclusive, o Brandon é o meu autor favorito.

Vejo-os na próxima! Até breve!

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Gostou? Sim? Então, que tal ler a sequência?

Mistborn – O Poço da Ascensão [Resenha]