Drácula você com certeza já conhece, mas será que já leu a obra que deu origem ao mais famoso vampiro da literatura e do cinema? Hoje vamos falar de Drácula, livro de Bram Stoker, um clássico do terror.

Levando em consideração que esse é um romance de extrema importância na história da literatura, antes de analisarmos a obra, discutiremos brevemente o contexto que cerca sua publicação e também seu escritor. E não precisa se preocupar! Não haverá nenhuma revelação do enredo (spoilers).

O autor, seu contexto e seu legado

O irlandês Bram Stoker estabeleceu carreira como crítico teatral, gerente de uma grande companhia de teatro londrina e assistente de um dos maiores atores de seu tempo, Henry Irving. O trabalho o fez viajar o mundo, rendeu fama e acesso aos mais seletos círculos intelectuais, onde conheceu outras famosas personalidades da era vitoriana, como Sir Arthur Conan Doyle, autor de Sherlock Holmes e Theodore Roosevelt, presidente dos EUA.


Durante sua infância, que foi marcada por um longo período enfermo e restrito ao leito, Stoker desenvolveu gosto pela literatura, mas também pelo folclore europeu. Pouco tempo antes, o mito do vampiro havia chegado com força ao restante da Europa, previamente restrito às regiões eslavas, húngaras e russas. Os vampiros só tomaram força no imaginário popular europeu ocidental depois que relatos de tradições do leste europeu foram trazidos por oficiais austríacos, que lideravam a guerra contra o Império Otomano por aquelas terras. Stoker se interessou por essas histórias, mas só muito tempo depois poderia trabalhar com essas predileções.


Bram Stoker dedicou praticamente toda sua vida à tudo aquilo que cercava o palco. Escrevia sobretudo para jornais com críticas e resenhas dramáticas. Foi só depois de ter a carreira bem estabelecida que se aventurou pela literatura, com relativo êxito. Teve alguns livros bem quistos pela crítica e público, mas nunca conseguiu fazer fortuna com isso, inclusive morrendo na penúria. Publicou Drácula em 1897, após sete anos pesquisando e elaborando a história.

Drácula de Bram Stoker
A capa da primeira edição do livro publicada


Drácula fez apenas moderado sucesso quando lançado, longe de ser um best-seller, tratado apenas como um bom romance de aventura e terror, embora muito bem elogiado pela crítica da época. Até a sua morte, o livro não chegaria a ser considerado sequer sua principal obra. Logo, o romance seria esquecido.

Foi só em 1922, dez anos após a morte de Bram Stoker, que Drácula voltou a chamar atenção, por ocasião de uma batalha judicial devido a direitos autorais. O filme Nosferatu, hoje considerado um clássico do cinema mudo, lançado naquele mesmo ano, era uma adaptação não autorizada da obra do escritor irlandês. Sua viúva, Florence Stoker, processou o estúdio responsável buscando pagamento pelos direitos autorais, saindo vitoriosa em uma ação que levou a produtora alemã à falência.


Para impedir novas adaptações não-autorizadas, Florence decidiu estabelecer direitos autorais sobre uma versão de palco do romance, aprovando uma produção conduzida por um amigo da família. As peças teatrais que se seguiram, embora com muitas diferenças na trama, se tornaram sucesso, principalmente devido a interpretação de Bela Lugosi como o vampiro que dá título à obra. É dele a representação mais famosa do personagem, com capa e trejeitos aristocráticos. Mais tarde, Bela Lugosi estrelaria também um versão para cinema que atingiu fama mundial. À partir daí, o livro retornou às livrarias como um enorme best-seller.

Drácula de Bram Stoker
Bela Lugosi como Drácula em 1931


Embora não fosse o primeiro, Drácula se tornou o maior título na literatura de vampiros e criou o arquétipo dessa espécie de monstro. Mesmo que existam muitas variações, a maior parte das características de todos os vampiros que se seguiram foram estabelecidas nesse romance, algumas já presentes nos mitos antigos, outras criadas por Bram Stoker, como a falta de reflexo no espelho. Estima-se que Drácula seja o segundo personagem mais utilizado tanto no cinema quanto na literatura, perdendo apenas para Sherlock Holmes, considerando adaptações da sua obra original e histórias inéditas não relacionadas, algo que vem aumentando ainda mais desde que o personagem se tornou domínio público. Não é à toa que a criatura já faça parte da cultura popular mundial.


O legado de Drácula é realmente inquestionável. É considerado hoje um dos três grandes clássicos do terror, estabelecendo a trindade dos monstros com Frankenstein, de Mary Shelley, e O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. Bram Stoker se tornou reverenciado por diversos autores e foi homenageado emprestando seu nome à um dos mais importantes prêmios literários, o Bram Stoker Award, que todos os anos escolhe os melhores títulos de horror e fantasia gótica publicados.

A obra

A nossa trama começa quando um jovem advogado inglês é enviado até o interior da Transilvânia para tratar de negócios com um lorde recluso em sua morada. Entretanto, sua jornada se torna cada vez mais estranha e seu anfitrião se revela um homem muito peculiar. Me furtarei a descrever mais o enredo, porque há muito do deleite na leitura dessa obra em descobrir passo a passo com os personagens o desenrolar dos mais curiosos eventos. Basta dizer que é uma trama com mistério sobrenatural, terror, aventura e um pouco de ação, que, principalmente em seu início, lhe fará devorar página por página. Para os padrões atuais, é bem linear, embora possua algumas reviravoltas, e é também bastante tradicional, sendo maniqueísta até certo ponto.


Drácula é um romance epistolar, ou seja, sua narrativa é toda feita através de cartas e diários escritos pelos personagens e, ocasionalmente, alguns recortes de jornais. Dessa forma, praticamente toda a obra é escrita em primeira pessoa, sob a ótica de mais de um personagem. Em determinado momento, vemos o desenrolar da trama segundo as palavras de um protagonista e depois sob o ponto de vista de outro, sempre em ordem cronológica. Esta técnica busca dar mais realidade à história, como estivéssemos lendo um compilado de informações encontrado sobre determinado tema, ao mesmo tempo que também incute certo grau de mistério, já que temos apenas a descrição do que cada um dos personagens vivenciou, sem sabermos o todo sobre cada fato descrito.


Nesta obra, a estratégia de diários intercalados com algumas cartas funciona bem e também faz sentindo com o enredo como um todo. Como em alguns outros livros que utilizam o estilo epistolar, Stoker nos mostra em determinado momento porque é que estamos com esses montes de páginas de diários em mãos e cria a ligeira sugestão de que a ficção talvez seja realidade.


Nem todos os personagens do livro possuem seus próprios relatos, ou seja, deixam diários e cartas, o que torna alguns deles mais protagonistas do que outros, já que temos acesso aos pensamentos de apenas parte deles. Essas decisões também condizem com suas personalidades, mas é uma pena, porque alguns são interessantíssimos e não temos a chance de conhecer mais a fundo suas intenções além do que declaram abertamente.


Isso nos leva a uma outra camada de complexidade do livro, que é a forma como cada personagem lida com os eventos que ocorrem na trama, primeiro publicamente (o que expressa através de diálogos) e depois privadamente (o que pensa e registra apenas em seu diário), bem como as implicações que decorrem dessas diferenças. As divergências sutis que notamos em trechos de diferentes pontos de vistas sobre os mesmos acontecimentos dão um sabor maior ao livro e o aproximam ainda mais do real do dia-a-dia.


Há, entretanto, um problema na escolha de Stoker pelo romance epistolar. Embora tente, em alguns desses relatos o autor não conseguiu diferenciar bem as vozes dos personagens, os seus estilos e nuances. Sobretudo entre dois deles, Jonathan Harker e Dr. Seward, que podem acabar se confundido, principalmente se interromper a leitura antes do término de um capítulo. Nos demais personagens, Stoker consegue torná-los suficientemente únicos através de seus escritos.


Além do estilo de narrativa, Stoker também tenta aproximar sua história do nosso mundo se apoiando em muitos detalhes históricos e geográficos. Os personagens mais cultos vez ou outra descrevem eventos e locais importantes, além de o próprio monstro, Drácula, ter sua origem ligada, ainda que de forma tímida, a figuras reais. O efeito final é satisfatório e mais uma vez reforça a sugestão de que tudo seria verdadeiro.


Drácula, a criatura, é misterioso e instigante, mas, diferente de interpretações mais modernas do personagem, é um monstro, uma entidade verdadeiramente maligna. Nos capítulos em que está diretamente presente, domina a cena e se torna atemorizante. Para nós, leitores contemporâneos, seus poderes, bem como suas fraquezas, são lugar-comum, mas é preciso imaginar como se sentiram aqueles que tiveram o livro em mãos no fim do século XIX e se depararam com o mais puro horror de forma quase inédita. A transposição que Stoker fez dos diversos mitos espalhados sobre vampiros criou um ser verdadeiramente terrível, que foi e ainda é capaz de aterrorizar gerações e mais gerações.


É preciso fazer uma ressalva sobre o personagem, contudo. Levando-se em conta toda a carga de adaptações feitas com Drácula até os dias atuais, é possível que o leitor se decepcione em suas expectativas. O Drácula original não possui as nuances morais que autores mais modernos construíram, nem o toque de paixão e sensualidade que hoje já fazem parte do personagem. É preciso se lembrar que Bram Stoker criou o infame vampiro e merece todo o crédito por isso. Cobrar dele as evoluções que outros produziram em seu mito é, no mínimo, injusto.

Vale a pena ler?

A resposta é óbvia: é claro que sim! Não só é um clássico literatura de terror, como é também o original de um dos personagens mais célebres de toda a cultura popular mundial, além de ser arquétipo para a maior parte dos vampiros do entretenimento atual. Conhecer o verdadeiro Drácula e compará-lo às suas diversas interpretações é outro deleite à parte. Ademais, não deixa de ser um bom romance com ótimas doses de terror, mas também de aventura e drama.


Prepare seu colar de flores de alhos e se prepare para o maior vampiro de todos!