Saudações, viajantes!

Como sabem, mês passado, encerrei as resenhas da Primeira Era de Mistborn. Se tiver perdido algum dos textos, eis os links:

Conto Mistborn – O Décimo Primeiro Metal [Resenha]

Mistborn – O Império Final [Resenha]

Mistborn – O Poço da Ascensão, de Brandon Sanderson [Resenha]

Mistborn – O Herói das Eras, de Brandon Sanderson [Resenha]

Bom, pessoal, eu meio que havia dado por encerradas, por enquanto, as resenhas de Mistborn. No entanto, como seria de se esperar, iniciei as leituras da Segunda Era e adivinhem? Exato. Isso, mesmo. A empolgação bateu. Não resisti à tentação e acabei decidindo que começarei a escrever as resenhas da Segunda Era de imediato.

wax

gold

Preâmbulo.

Se você já conhece o formato de minhas resenhas, sinta-se livre para pular para o próximo tópico; se não, veja, a seguir, itens que, de certa forma, compõem a essência de meus textos:

i) Sou “spoilerfóbico”. Por isso, produzir textos livres de spoilers é um mandamento que imponho a mim com desmedida seriedade. Penso que não há nada mais devastador do que a ruína da experiência de uma leitura. Não só de leituras, mas da absorção de obras de ficção em geral, eu diria;

ii) Costumo seguir uma estrutura. Consiste, em regra, na análise de voz narrativa (primeira, segunda ou terceira pessoa); enredo (plot); mundo (setting/milieu), seja ele fictício ou não; personagens e seus arcos; sistema de magia; linguagem; e quão sinérgicos são os elementos citados. A ordem e o modo como faço varia. Cada livro é único. Natural é, portanto, que a maneira de exposição de cada um acabe também sendo única;

iii) Ora ou outra, teço considerações que vão além da obra. Técnicas literárias, reflexões filosóficas, nuances acerca do autor e afins;

iv) Ao final, há um tópico com as notas que dou aos elementos expostos em “ii”, além de uma média entre elas, que nada mais é que a nota final, em minha singela opinião, acerca da obra.

gold

Ímpeto.

É possível que, devido ao hype intenso, você tenha caído em Scadrial (mundo de Mistborn) de paraquedas e, para acompanhar o movimento da multidão, decidiu começar a se aventurar em “A Liga da Lei”, o livro 1 da Segunda Era, sem ter lido a Primeira Era.

Não faça isso.

A estória sob análise é uma entidade em si mesma. Colocando em termos simples, funciona sozinha; ela tem sentido, uma lógica, uma coerência interna. Apesar disso, penso que não serviria bem como standalone, pois, diferente de “O Império Final”, possui um desfecho mais aberto — um belo dum cliffhanger, capaz de deixar qualquer fã da série de cabelos arrepiados, diga-se de passagem.

Trocando em miúdos: se a pessoa quiser (não queira!), ela pode ler o livro. Será capaz de entender o enredo, o mundo e o sistema de magia. Bem… em verdade… estes dois últimos elementos não são, em minha visão, possíveis de serem compreendidos em plenitude se o leitor for completamente verde em relação ao universo. Contudo, cada um é cada um. Todos estão livres para agir como bem desejar. Enfim…

De qualquer modo, o aviso está dado.  Estou de consciência limpa.

Adiante.

gold

Contextualização.

O que, pelo Senhor Soberano, está acontecendo? Findada aquela tensão ominosa do fim do livro 3, o que raios ocorreu com o mundo?

Para começar a explanação, acho válido desconstruir essa interjeição que acabei de usar (“pelo Senhor Soberano”): apesar de, agora, 300 anos depois, tal personagem incrível  ter uma cidade em homenagem ao seu nome, ele não passa de uma sombra do passado. Sua religião foi esquecida, outras nasceram (Caminho e Centelhismo são os nomes introduzidos a nós neste livro) e algumas antigas perduram (Igreja do Sobrevivente).

Vemos, no decorrer das páginas, incontáveis referências aos nossos queridos e falecidos personagens. (Antes que alguém que não concluiu a Primeira Era venha me acusar de “spoileador”, lembre-se que se passaram 300 anos desde “Herói das Eras”! Logo, nada mais lógico de que o elenco esteja falecido.) Eu até arriscaria dizer que um dos maiores prazeres  que experimentei, ao ler “A Liga da Lei”, foi essa busca incessante por Easter Eggs. Alguns são descarados, evidentes demais; outros, nem tanto. Eu poderia até fazer uma listagem de tudo que percebi — inclusive, li o livro fazendo anotações —, porém creio que isso faria perder bastante a graça da leitura de vocês, viajantes. Não obstante, há algo que eu posso dizer a respeito disso: tenha certeza que todo esse contexto novo — porém com traços marcantes do passado, ao redor do qual estão imersos os novos personagens —, será mais que suficiente para matar a saudade dos bons e velhos tempos.

É exatamente por essa razão que julgo tão importante a leitura prévia da Primeira Era: por causa da nostalgia e das referências. Estas enriquecem bastante sua experiência, e servem como uma base fulcral para toda a construção de mundo (world building) por vir.

gold

A resenha.

Assim como na Primeira Era, perdura-se o ponto de vista (POV) em terceira pessoa limitado a um personagem por cena.

Fora isso, esqueça toda a dinâmica da Primeira Era.

Aumentaram: i) a velocidade da narrativa; e ii) o número de metais. Reduziram: i) a quantidade de personagens; e ii) a complexidade de enredo (plot). Assim como o é com a Feruquemia, quando se ganha algo, automaticamente se perde. Uma equação balanceada.

Alterou-se: i) o gênero — antes, Heist e Fantasia Épica —, para um híbrido entre Steampunk, Policial/Investigativo e West; ii) o setting — antes, mundo Medieval —, para uma época pré-industrial — equivalente, se comparada à nossa História, à Era Vitoriana —, na qual carros e luz elétrica estão começando a se popularizar e armas de fogo são disparadas a todo vapor. Assim como o é com a Alomancia — quando o alomântico ingere o metal e adquire a capacidade de usar de poderes —, Scadrial ganhou muito. Adicionais poderosos. Arrojados. Perigosos.

Ao que parece, os Nascidos das Brumas (Mistborn) estão extintos. Em compensação, surgiram híbridos de brumosos e feruquêmicos, os Duplonatos (Twinborn). Assim como o é com a Hemalurgia, perdeu-se algo para outro surgir. Menos overpower, é verdade; contudo, a partir disso, surgem inúmeras combinações interessantíssimas.

Bem, creio que nem seja necessário mencionar que as armas de fogo acarretam implicações inúmeras a esse mundo dos metais. Caso não tenha parado para refletir, uma instigação: imagine um Lançamoedas empurrando a bala de um tiro? Pois é… Isso é só um pequeno detalhe. Leia e se impressione com a criatividade de Sanderson.

gold

Os personagens.

waxandwayne
Wax e Wayne

O que esperar desses protagonistas?

Respondo: uma dupla simplesmente sensacional! Posso dizer, sem medo de errar, que se trata de uma das melhores duplas (na minha opinião, a melhor!) escritas por Sanderson, no que se refere à sinergia entre ambos. Vale lembrar que temos duplas incríveis na obra do autor, como Kaladin e Syl (em Stormlight Archive); Vin e Kelsier, Vin e Elend, Ham e Brisa (na Primeira Era); Siri e Susebron, Vasher e Nightblood, Lightsong e Llarimar, Tonk Fah e Denth (em Warbreaker); e por aí vai. Acho bastante razoável dizer que esses outros personagens, individualmente, talvez possam ser melhores que Wax e Wayne, porém, enquanto dupla, julgo os dois imbatíveis. E sei que, quando afirmo isso, não estou sozinho, pois, originalmente, “A Liga da Lei” estava planejada para ser uma mera transição da Primeira Era (Medieval) para uma Segunda Era (Contemporânea), contudo, tanto Sanderson como seus fãs, apaixonaram-se pelos personagens, o que impulsionou o autor a fazer uma série inteira dedicada a esses camaradas tão carismáticos (destaque para Wayne, rs).

Por outro lado…

Receio dizer que, em termos de personagens coadjuvantes, esse foi o livro que li do Brandon que julguei mais fraco. Talvez seja porque ele não teve tempo o suficiente de construí-los, vez que focou mormente na dupla principal, mas… bem… não gostei. É isso. Infelizmente.

Excluo Ranette dessa minha crítica, no entanto. Ela é muito badass. E, devo admitir, tenho um fraco por essa espécie de personagem. Lamento por ela aparecer tão pouco.

ranette
Ranette

gold

As notas.

(Escala: 0 a 5.)

  • Enredo (plot): 3,5
  • Mundo (setting/milieu): 5
  • Personagens e seus Arcos: 4
  • Sistema de Magia: 5
  • Linguagem (prosa): 4
  • Nota Final (média): 4,3

Nunca escondi o fato de que, embora fã de carteirinha, sou um pouco reticente quanto à prosa do Sanderson. Todavia — e digo isso com muita felicidade —, está nítida, em “A Liga da Lei”, a evolução dele nesse aspecto, se comparado aos seus trabalhos anteriores. A escrita está muito melhor! Por isso, achei justo subir seu costumeiro 3,5 em Linguagem (prosa) para 4.

Talvez indaguem: “Você é maluco? Acabou de encher a bola de Wax e Wayne, e, ainda assim, dá 4 para Personagens e seus Arcos?” Sim. Dou. A dupla de protagonistas, apesar de incrível, não foi capaz de ofuscar os personagens coadjuvantes que não me cativaram.

Outro questionamento que também pode surgir: “E que nota de Enredo (plot) que é essa, seu lunático?” Desculpem-me os que discordam, mas considero a nota extremamente justa. Inclusive, eu, por pouco, não dei 3. Mudei de opinião na última hora da leitura, quando me deparei com o cliffhanger arrepiante do final. (Uma confissão: foi literalmente arrepiante. Quando li, arrepiei tal como quando ouvimos aquele trecho especial de uma música incrível.)

A trama é bem feijão com arroz. Escapole, portanto, um pouco dos “padrões Sanderson” de grandiosidade. Mas, porém, no entanto, contudo, entretanto, todavia… isso não faz com que a obra seja ruim. MUITO PELO CONTRÁRIO! “A Liga da Lei” é um livro divertidíssimo, e que, não tenho a menor dúvida, é apenas uma semente de uma árvore monumental que está para brotar e nos renderá vários e deliciosos frutos.

Indico com todas as minhas forças!

gold

Aos que leram até aqui, o meu muito obrigado! É um verdadeiro prazer poder contar com a presença de cada um de vocês, viajantes, aqui n’A Taverna.

Vejo-os na próxima! Até breve!

 

P.S.: “Sempre há outro segredo”,

Kelsier.

gold

Gostou? Sim? Então, que tal ler outra resenha sobre o universo Mistborn?

Conto Mistborn – Alomântico Jak e as Fossas de Eltania [Resenha]