Este post faz parte de uma série cujo objetivo é servir de guia e oferecer dicas para escritores iniciantes. Caso você queira conferir os artigos anteriores, clique em “Guia do Escritor Iniciante”. Boa leitura!


 Este deve ser um dos temas mais batidos entre as dicas de escrita: O professor de redação comenta; as resenhas criticam histórias fracas neste quesito; qualquer site, blog ou vlog que fala sobre a escrita tem este tópico. É o velho “mostre, não fale” (também conhecido na sua expressão em inglês, “show, don’t tell”).

 E por isso mesmo que não poderia faltar no Manual do Escritor.

O “mostre, não fale” é uma forma simples de tornar o texto mais imersivo, e se utiliza de duas partes: O uso da voz ativa, e a experiência que ela retrata.

 A voz ativa já apareceu aqui no Manual antes, mas é sempre bom recapitular o seu uso.

 Vamos para um exemplo prático, primeiro na voz passiva, e então na ativa (e olhe, nem envolve dragões dessa vez!)

“A Pedra Filosofal foi criada pelo alquimista.”

“O alquimista criou a Pedra Filosofal.”

 Na voz passiva, o sujeito sofre a ação, enquanto na ativa, faz a ação. É simples e aproxima o leitor do acontecimento.

 Mas vamos olhar novamente para a frase ativa.

“O alquimista criou a Pedra Filosofal.”

 Deixei o exemplo sem imagem de propósito. Você consegue imaginar esta cena tranquilamente? Como aconteceu?

 Já que vocês, que acompanham A Taverna, são exímios leitores, tenho certeza que a imaginação de vocês está em dia, e claro que visualizaram a cena.

 Mas se eu pudesse perguntar para cada um de vocês sobre o seu entendimento da cena, eu acabaria com um alquimista e uma Pedra diferente para cada pessoa que me respondesse. E uma poderia me responder com três palavras, e outra, com sete livros.

 Claro que de certa forma, isto é bom. O trabalho do escritor só é completo quando outro o lê, interpreta e assimila na sua forma de ver. Por isso que pessoas diferentes podem amar ou odiar o mesmo livro.

Porém este nível de diferença na interpretação mostra que a ação foi bem genérica, e até impessoal. Mas a criação da Pedra Filosofal parece algo extremamente importante para a história, talvez vital para o entendimento da trama, só que o exemplo tem o mesmo impacto do que se o alquimista tivesse preparado um sanduíche.

 A razão disso é porque a ação foi dita, mas não mostrada.

 Vamos ver como seria o mesmo exemplo, só que mostrado? (que é apenas a minha interpretação do acontecido):

“Depois de tantos anos tentando, agindo feito um rato cego diante da revelação, ele conseguiu. A técnica era mais simples do que imaginara. Em seu laboratório escuro e claustrofóbico, com o pequeno pátio confinado entre os muros da cidade e o casarão de pedra, só precisou de quatro tentativas antes de chegar à medida certa.

 Ossos de dragão e penas de fênix são carbonizados até chegarem à cor do céu noturno, então ele hidrata e destila a substância, resultando em um líquido branco perolado. O alquimista o mistura com mercúrio e deixa ao sol, por vários dias, recolhendo todas as noites, até ocorrer a combustão final. Quando a substância explode em chamas douradas, só resta aguardar o fogo se extinguir e recolher a pedra vermelho-sangue do recipiente.

 Sentia muito orgulho, mesmo depois que os outros passaram a evitá-lo (e ele sabia que era por inveja,  já que era o primeiro de sua geração a criar a Pedra Filosofal). Porém… só agora percebia que gastou quase toda a vida para realizar tal feito, e suas mãos estavam calejadas, e seu rosto enrugado e o seu espírito, cansado. A Pedra poderia alongar sua vida, mas não devolveria a juventude. E agora, o que faria?”

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Eu… Não sou de responder com três palavras.

 Sabe o que é curioso? Tenho certeza que as respostas da pergunta anterior seriam muito mais próximas de um exemplo mostrado, imersivo, do que um exemplo falado, impessoal. Isto ocorre porque é natural: Quando você se coloca no lugar do personagem que causa a ação, quando imagina ela acontecendo, vê o cenário, os objetos, os personagens, sente a emoção da cena, você consegue mostrá-la. Se simplesmente falar o que aconteceu, o impacto nunca será o mesmo.

Mas é sempre necessário mostrar? Bem, não. Inclusive, se a intenção é criar mistério a respeito de alguma coisa, é melhor não mostrar. Mas isto fica para outro Manual do Escritor. “Mostre, não fale” é uma técnica para tornar a história mais imersiva, mas nem é recomendável que tudo seja imersivo e detalhado. Se não afeta a trama, ninguém precisa saber o que um personagem secundário comeu de almoço.

 E vê que usei frases passivas em alguns trechos do exemplo? É uma forma de chamar atenção para o objeto da ação, e para como eu acabei enfiando dragões no exemplo, de qualquer jeito. Nenhuma dessas dicas é uma regra, e estão aqui para te dar mais opções, não para colocar mais empecilhos na sua jornada de escritor.

wallup.net
Você não precisa contar todas as escamas do dragão.

 E lembre-se: escrever é como ler ao contrário. Quando lê, você assimila palavras e cria uma imagem mental de cenários, personagens e ações, e sente emoções de acordo com o quê você imagina. Quando escreve, você sente emoções, que te levam a imaginar uma premissa de cenários, personagens e ações, e então você tenta transmitir tudo isso com palavras. Parece complicado, e é.


Até breve!

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