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“Sim, esse é mesmo o meu trabalho.”, garantiu Ól, sem qualquer vestígio de constrangimento – de fato, havia um quê de orgulho em sua voz. A moça piscava insistentemente, como se tentasse escapar de um sonho. Permaneceu calada.

“Eu limpo o estrume de cavalo das Estradas do Supremo Imperador.”, ele repetiu pela terceira vez, “Alguém tinha que fazer. Ou você achou que os dejetos desapareciam no ar?”

“Na verdade, nunca pensei no assunto.”, a moça respondeu, girando a cabeça de um lado para o outro, esquadrinhando a taverna à procura de conhecidos. Pelo jeito, ela desistira de despertar de um pesadelo e agora se empenhava em uma forma mais mundana de desaparecer.

“Não somente de cavalos, é claro.”, Ól especificou, entusiasmado, “Às vezes, encontro fezes de animais selvagens. Eu as varro para fora também, mas só depois de coletar uma amostra para provar ao chefe o serviço extra. Vale um bônus na remuneração, sabe? Apesar de que essa burocracia toda por umas moedinhas a mais quase não compensa o esforço…”

Ele deu um longo gole em sua caneca de água com cerveja (o que seu dinheirinho suado permitia comprar) e mal conseguiu disfarçar um arroto, fingindo um repentino acesso de tosse. Ao tapar a boca com a mão, sentiu uma espécie de pó no queixo. Averiguou a sujeira amarronzada nos dedos.

“É terra.”, assegurou Ól, mas, vendo que a careta de nojo da moça persistia, cheirou os dedos para conferir, “É terra mesmo!” Ela assentiu – não muito convencida – e bebeu todo o vinho de sua taça em uma única golada.

“Há outras tarefas, naturalmente.”, Ól disse com pretensa casualidade, preparando-se para contar a história que considerava seu trunfo para conquistar mulheres, “Por exemplo, ano passado eu impedi um arruaceiro de urinar no trecho da Estrada que vai de Luzvil até Trevataun. Ele não aceitou bem a reprimenda, então veio para cima de mim. Acontece que eu sou autodidata na arte de brigar com vassouras, sabe? Ele não esperava por isso, não, senhora!”

Ól estufou o peito mirrado e empinou o nariz adunco. Mirava o teto da taverna como se enxergasse a si mesmo ali, executando golpes elaborados com a vassoura. Sem perceber, caíra no limbo dos devaneios de grandeza que o acometiam sempre que narrava seus feitos mais notáveis.

“Botei o infeliz para correr, as calças nos tornozelos e tudo. Eu chorei de tanto rir naquele dia!”, prosseguiu, “Mais tarde, o covarde voltou com um grupo de seis ou sete comparsas grandalhões. Ou cinco. Todos temos defeitos, e o meu é que não sou muito bom com contas de mais. Se não fosse pela adição, eu poderia ter sido um ótimo algebrático. Enfim, talvez fossem quatro. A questão é que eles me desceram a porrada. Acho que fraturei diversos ossos… Mas nem doeu, exceto em uma região específica. Bem aqui.”

Hora do show! Ól apontou teatralmente para a bochecha esquerda e abriu um sorrisinho maroto, ainda encarando o teto. “Ah, como dói essa minha bochecha!”, choramingou com descarada falsidade, “Nada que um beij…”

Ele baixou os olhos em direção à moça, que não estava mais lá. “Ué, não funcionou?”, Ól franziu a testa, depois deu de ombros, “Uma a cada cem.”

Examinou o fundo da caneca em busca de um restinho de água com cerveja, mas não sobrara sequer uma gota. Ele sacudiu a caneca de ponta-cabeça, incrédulo. “Já?!” Ól vasculhou os bolsos, puxando os forros para fora. Vazios. “Essa é a minha deixa.”, avisou para ninguém em especial, “Amanhã, parto desse vilarejo para minha querida Dimfild, em mais uma jornada de limpeza.”

Antes de sair da taverna, recolheu a companheira de aventuras largada próximo à porta: sua vassoura favorita. Ól coçou a nuca, intrigado, enquanto caminhava com destino ao bosque Sûd, situado ao norte do vilarejo. Por que nunca levavam a vassoura quando ele a abandonava sem supervisão em um canto? Não que quisesse que a roubassem, contudo achava estranho que ninguém se interessasse por uma obra-prima da higienização, produzida pelas habilíssimas mãos dos monges-gnomos de Hoocit. Pelo menos, foi isso que aquele honestíssimo comerciante desdentado me prometeu.

Ao chegar ao trecho do bosque no qual vinha dormindo nos últimos dias – em seu período de repouso entre viagens de trabalho –, foi logo se aninhando em seu leito improvisado. Ele recheara um espaço entre raízes expostas na superfície com feno que surrupiara de uma fazenda, construindo uma cama razoavelmente confortável.

Ól contemplou a lua cheia e suspirou. Brilhava com ainda mais força que nas noites anteriores. Esse era o principal inconveniente de se acomodar em uma hospedagem a céu aberto. De positivo, reinava absoluto o fato de que não desperdiçaria em uma diária na estalagem toda a grana obtida com muito suor em meio a montes de bostas.

“Boa noite, vassoura.”, desejou entre bocejos para o instrumento deitado ao seu lado. Ele não botara um apelido em sua companheira de peregrinação, pois julgava que seria ridículo humanizar um objeto inanimado. Como fazem aqueles bufões que chamam as espadas por nomes de mulher, pensou, rancoroso. Dois minutos depois, decidiu batizá-la de Vassandra.

Mal iniciara a excursão ao mundo dos sonhos, um gritinho feminino o puxou de volta para o plano dos despertos. Rolou, em um impulso de reflexo, por cima de uma das raízes que limitavam sua cama e caiu no chão terroso coberto de folhas. Ól se levantou amaldiçoando a desgraçada que o acordara. Bateu um pouco da imundície que revestia seu corpo e suas roupas, lamentando o dinheiro que acabara de gastar para tomar seu banho bimestral.

Após aguçar a audição, escutou o som de passos estalando sobre folhas e gravetos. Ele seguiu a origem dos ruídos, tomando cuidado para não fazer barulho também. Não tardou a rastrear os responsáveis por seu mau-humor.

Um rapaz bonito, com o bigode da moda e ombros largos (e um nariz perfeito!, Ól praguejou), comprido, esguio e reto como uma lança, conduzia apressadamente por entre as árvores uma jovem de aparência recatada e inocente mas que, de maneira contrastante, exalava um encanto impudico com suas risadinhas travessas. A moça que rejeitara Ól – aliás, fugira dele – na taverna. “Cria de alpaca cagona!”, ele murmurou, “Que sem-vergonha.”

Considerando-se derrotado e um tanto humilhado, Ól regressou cabisbaixo ao seu local de descanso. Ele desabou na pilha de feno e abraçou Vassandra. O que eu esperava? Sou um fracassado mesmo… A minha única vocação é varrer.

O sono não veio de modo algum. Além do óbvio abatimento, sentia-se oprimido de tal forma como se uma espécie de clima perverso houvesse se apoderado da atmosfera que o rodeava.  Ele tentou abstrair. Ouvira, certa vez, sobre uma técnica envolvendo a contagem de cabras pulando cercas e invadindo propriedades alheias que supostamente o ajudaria a relaxar, se distrair e, por consequência, dormir. No entanto, Ól não era nenhum algebrático. Chegando à sexta ou sétima cabra, se perdia. Ou à quinta… Ou à quarta.

Preso em reflexões depressivas, ele escutou um segundo grito. Esse, ao contrário do gritinho divertido da moça, não carregava nenhuma vivacidade em seu sopro. Um berro masculino de terror; apesar da ausência de palavras, era um clamor por socorro.

Ól pôs-se de pé. Tenso, agarrou Vassandra com as duas mãos e se preparou para desferir uma vassourada em qualquer um que surgisse em seu campo de visão. Manteve-se alerta, aguardando em expectativa um novo chamado por ajuda. Silêncio.

Resolveu vasculhar a região por onde a moça da taverna e seu acompanhante, o bonitão por quem Ól fora preterido, haviam se embrenhado. Talvez os dois estivessem em perigo. Podiam ter se deparado com algum animal selvagem… Ou até mesmo algo mais monstruoso. Embora fosse pouco provável, já que, segundo se dizia no vilarejo, o bosque Sûd não abrigava naturalmente nenhum predador que ameaçasse humanos, existia a chance de que uma fera houvesse migrado para lá recentemente.

Com extremo cuidado, pé ante pé, movendo-se contra seus instintos de sobrevivência, Ól seguiu os rastros deixados pelo casal cheio de tesão – a dupla, no calor do momento, não fizera nenhuma questão de discrição, descuido o qual resultou em uma abundância de vestígios pelo terreno que até um morcego caolho seria capaz de encontrar.

A trilha desembocou em uma clareira. Muito sensato da parte deles escolher uma clareira para transar, Ól ponderou, antes de seus sentidos captarem a cena mais grotesca de sua vida.

O sujeito jazia despido no chão, suas roupas espalhadas ao seu redor. Inconcebivelmente cadavérico, sua pele amarelada colada no esqueleto, ele lembrava um casulo abandonado, seco e quebradiço. Murcho. Vazio por dentro. Os músculos dele se contraíam e seu corpo se arqueava em espasmos involuntários. Tentava suplicar, mas parecia que não lhe restava mais energias para formular uma sílaba sequer.

Curvada sobre o moribundo, a moça. Ela se ergueu ao constatar a presença de Ól, encarando-o com olhos escarlates repletos de uma malícia indecifrável. Estava nua, exibindo, sem sombra de pudor, os seios firmes e volumosos com mamilos rígidos, as ancas cheias e toda sua silhueta vertiginosa. Uma invocação tão sedutora que Ól quase não reparou nos chifres que vertiam do crânio dela e nas asas escamosas dobradas às suas costas. Ah, a moça tinha um rabo pontudo também!

Ele recuou um passo. Tremia como nunca e apertava Vassandra com tanta força que seus dedos estalaram. Talvez isso seja um pesadelo. Quem sabe, aquela água tivesse mais cerveja do que eu pensava, e agora eu esteja embriagado sem perceber. Ól afastou essas possibilidades com a relutância de quem abdicava da derradeira esperança. A situação era real, e a adrenalina que lhe fluía pelas veias atestava a incontestabilidade de sua sobriedade.

“Por que foges, pequeno homem? Não me desejavas mais cedo?”, a criatura provocou. Então, com um arranque repentino, ela estendeu as asas cinzentas e levitou. Estacou cerca de três metros acima de onde Ól se encontrava.

Ele tropeçou, tombando com o cóccix direto em uma pedra pontiaguda. Enquanto gemia de dor, a sombra da criatura eclipsou a lua, obstruindo sua luminosidade. A figura pairou sobre Ól por alguns instantes, um vulto hostil que pressagiava tragédia. Ele sentiu o vigor se esvaindo através de sua pele e começou a fraquejar.

Ela se inclinou e, com uma única porém potente batida de asas, disparou em direção a Ól. Os cabelos da criatura esvoaçavam selvagemente, concedendo-lhe um ar de ferocidade que ressaltava seus já admiráveis atributos, elevando sua beleza a um patamar ao qual pouquíssimas damas, nobres ou não, poderiam se gabar de pertencer.

Uma lufada gélida atingiu a face de Ól, e suas feições se contorceram. Aturdido, ele segurou Vassandra à frente do rosto de modo análogo ao que clérigos e sacerdotes ostentavam ícones religiosos para expulsar o Mal. Todavia, ao invés de orar, praguejou:
“Volte para o Submundo, sua filha de uma égua com diarreia!”

A centímetros dele, a criatura se chocou contra o vazio e despencou, estatelando-se no chão. Era como se uma parede invisível houvesse se materializado no caminho dela.
Existe um poder espantoso inerente ao desespero; entretanto, não foi o caso. O que se passou envolveu apenas uma boa dose de coincidência.

“A-há, te acertei bem na testa!”, Ól se vangloriou, “Eu te avisei que estava treinando com a Vassandra. Sou um autodidata!”

“Não acertou nada, seu idiota incompetente!”, ela gritou, ainda caída, “A vassoura nem encostou em…”

A criatura emudeceu no meio da frase. Estava com a atenção vidrada no instrumento de limpeza. Parecia ter acabado de compreender algo.

“Você a chamou de Vassandra?”, ela soltou uma gargalhada descontrolada, “Você é mesmo o maior pateta com que eu já me defrontei em todos esses séculos.”

“Séculos? Até que você está bem conservada, monstrenga…”, Ól retrucou com sarcasmo, tentando esconder o orgulho ferido.

“Você ainda não entendeu o que fez, não é?”, a criatura riu novamente, “Essa não é uma vassoura comum. Há uma aura especial nela…”

“Sim”, Ól a interrompeu, querendo mostrar conhecimento, “Porque ela foi elaborada pelos incomparáveis monges-gnomos de Hoocit.”

“Exato.”, ela confirmou, “Então, foi uma decisão consciente?”

“Do que você está falando?”, ele perguntou, irritado por acreditar que a criatura estava o enrolando.

“Casar-se com a vassoura.”, ela esclareceu, assumindo uma expressão travessa, “Você não sabe que se casou com sua Vassandra?”

“O-o quê?”, Ól se desconcertou.

“Ao nomeá-la, vocês sacramentam um matrimônio. Um feitiço bastante sacana dos seus queridos monges-gnomos.”, a criatura sorriu, “Quase uma maldição, na verdade.”

O queixo dele arriou. Boquiaberto, Ól não se mexeu por um minuto inteiro. Vai ver eu realmente sou o maior pateta do mundo e do Submundo.

“E qual o significado disso?”, enfim ele conseguiu se manifestar.

“Bom, é uma troca.”, a criatura disse, “A vassoura te oferece poder, magia proveniente dos monges-gnomos.”

Opa, legal!

“Por outro lado”, ela continuou, “Você se transformará em um solitário, um ermitão. Não será capaz de se ligar a mais ninguém. Espiritualmente…”

“Vale a pena.”, sentenciou Ól.

“E fisicamente.”

“Epa, calma aí!”, ele avaliou Vassandra com desconfiança, “Como eu faço para anular essa catástrofe? Casar sem consentimento não conta nas regras do feitiço, conta?”

“Trata-se de um contrato para a eternidade.”, a criatura informou, rejubilando-se com a aflição que dominara Ól.

Quando ele já estava à beira das lágrimas, ela acrescentou: “Há uma forma de resolver essa situação.”

“Como?!”, Ól praticamente cuspiu a palavra, “Já estava convencido de que seria celibatário para sempre…”

“Eu sou um súcubo”, a criatura revelou, “Posso quebrar o feitiço, remover a maldição. Além disso, você se divertiria bastante.”

O primeiro pensamento a cruzar a mente de Ól foi: um súcubo me rejeitou? Não é possível! Isso vai fazer maravilhas pela minha autoestima! Após essa reflexão inicial, raciocinando com mais clareza, ponderou sobre a proposta.

Quando puxava da memória os conhecimentos que possuía a respeito de súcubos, ele ouviu da criatura: “Ah, que rude da minha parte, não cheguei a me apresentar! Prazer, Fryjlava.”

Ao tornar a olhá-la, não havia mais chifres ou asas. Nem o rabo. Ali, onde estivera o monstro, divisou a mulher de seus sonhos em uma pose sedutora. E peladona.

“Ól Uisge.”, ele respondeu, involuntariamente, “O prazer é todo meu.”

Fryjlava ficou de joelhos, esticou as costas e se espreguiçou. Ól teve uma perspectiva perfeita de toda sua formosura. Depois, ela se curvou para frente e começou a engatinhar até ele. Os quadris dela gingavam de um lado para o outro, causando uma leve vibração nas nádegas e coxas; seus seios desciam e subiam em um movimento harmonioso, quase hipnótico.

No fundo, Ól assimilara que aquilo era um truque. Uma espécie de encantamento. Mesmo assim, não conseguia se mexer, não conseguia evitar o magnetismo que o tragava bem para o centro daquela farsa. A atração era intensa demais para que ele resistisse. Estava fascinado, paralisado. Corrompido.

Fryjlava se apoderara dele. Estava dentro de sua cabeça, acariciando, sussurrando. Quando eu terei outra oportunidade como essa? Convocava-o para uma existência de prazeres supremos, nunca experimentados por ele. De bônus, se libertaria das amarras que o prendiam à Vassandra. A uma vassoura!

Ól se entregou. Abriu mão da sanidade. Da própria alma.

“Co-corra.”, advertiu o homem que o súcubo descartara, a carapaça esvaziada, aquele que Ól chegara a invejar. A voz dele era apenas um eco. Com esse último esforço, sua última gota de vitalidade escorreu, e finalmente ele morreu.

O chamado trouxe Ól de volta da perdição. Fryjlava estava de pé a um passo de distância, em sua imagem de súcubo. Enfurecida pelo fracasso de seu plano, a criatura urrou com o fervor de uma harpia: um grito agudo, prolongado e lamurioso para extravasar sua cólera. Garras surgiram no lugar das unhas dela.

Fryjlava atacou Ól, mas ele agira com um centésimo de segundo de antecedência. O cabo de Vassandra atravessou o tórax do súcubo, partindo sua espinha e saindo pelas costas. O sangue da criatura espirrou no rosto dele. O líquido era gelado e logo evaporou em nuvens fétidas.

Ól encarou Fryjlava. O pescoço dela tremia, sua boca titubeava. Ela buscou fôlego para suplicar; antes que emitisse qualquer som, porém, a vassoura pulsou, e o súcubo implodiu, lançando fluidos e matéria para todos os lados. Não demoraram a desaparecer também.

Só restaram as marcas fumegantes no queixo de Ól, três cicatrizes que as garras de Fryjlava o condenaram a carregar até o seu fim. Um traço de um destino hediondo do qual escapara. Naquele local, sua barba não nasceria mais, e sua pele não se regeneraria.
Um preço barato a se pagar, concluiu.

Ele se agachou perto do rapaz que o salvara e cerrou as pálpebras dele – para garantir o descanso de seu espírito. “Obrigado, amigo!”, Ól agradeceu, “Por tudo.”

Levantou-se um novo homem. Não haveria mais visitas a tavernas com intuitos libidinosos. Ao menos, não até se separar de sua vassoura. De Vassandra, sua esposa.

Nesse intervalo, percorreria as Estradas do Supremo Imperador, trabalhando e, por que não?, desfrutando de seus poderes recém-adquiridos.


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