Saudações, viajantes!

Dando sequência às resenhas referentes a Mistborn, trago a vocês, hoje, a análise de um conto ambientado na Segunda Era de Scadrial. Portanto, já adianto que não é recomendável a leitura da resenha caso não tenha fechado a leitura da Primeira Era (e que, preferencialmente, tenha lido “Liga da Lei”, primeiro livro da Segunda Era).

Links para resenhas anteriores da saga:

Conto Mistborn – O Décimo Primeiro Metal [Resenha]

Mistborn – O Império Final [Resenha]

Mistborn – O Poço da Ascensão, de Brandon Sanderson [Resenha]

Mistborn – O Herói das Eras, de Brandon Sanderson [Resenha]

Mistborn – A Liga da Lei, de Brandon Sanderson [Resenha]

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Contexto.

(Antes de iniciar, uma curiosidade: de tudo que Sanderson escreveu até então no mundo de Mistborn, este é o primeiro texto cujo formato narrativo se dá em primeira pessoa. A razão disso vocês entenderão facilmente nas linhas por vir.)

Assim como “O Décimo Primeiro Metal” (“The Eleventh Metal”), “Alomântico Jak e as Fossas de Eltania” (“Allomancer Jak and the Pits of Eltania”) está presente no livro “Arcanum Unbounded”, que é uma coletânea de diversos textos ambientados no Cosmere, o universo criado por Brandon Sanderson. O livro em questão ainda não tem tradução. No entanto, é sabido que, felizmente, a LeYa publicará toda a saga Stormlight Archive; Warbreaker; e Arcanum Unbounded — embora não tenhamos, ainda, datas exatas.

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Como é perceptível, os livros da Segunda Era têm um formato bem diferente dos da Primeira Era. Enquanto nesta temos, no início de cada capítulo, anotações interessantíssimas que conversam com a trama; naquela, além da inexistência de tais anotações, páginas de jornal aparecem, vez ou outra, na transição de um capítulo para o outro. De início, eu achava divertido e lia tudo. Depois, porém, comecei a não dar tanta importância a elas (estou no início de “Braceletes da Perdição”, livro 3), de modo que até parei de lê-las. Conhecendo o Sanderson, tenho 101% de certeza que há inúmeros segredos escondidos naquelas entrelinhas, mas… ainda assim, os textos pararam de me puxar. Contudo, as páginas são muito bem feitas e, de fato, remetem a jornais no formato que conhecemos. Há trechos de notícias triviais; anúncios comerciais (de casas de Abrandamento, por exemplo); atualizações sobre política e economia; e, como qualquer bom jornal antigo, há um espaço reservado para a publicação de contos, o qual, pelo menos até onde li, é dedicado exclusivamente a um único autor.

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A resenha.

O contista em questão é Jak, um Olho de Estanho deveras excêntrico — para dizer o mínimo. Apesar de ele ser quem conta as histórias, quem as transcreve é seu mordomo terrissano. E, para ser honesto, o que torna este conto tão divertido é o fato de que ele é uma versão que o mordomo faz para si e não para mandar para o editorial do jornal. Nesse sentido, o terrissano faz umas anotações pessoais — em formato de notas de rodapé — que são engraçadíssimas, muitas delas explicando o porquê de aquilo que Jak disse ser impossível de ser feito.

O que ocorre é que Jak é daquele tipo indivíduo com ego nas alturas e que deseja se passar como um herói imbatível, implacável. Isso é nítido mesmo que, em algumas passagens, ele tente mascarar sua soberba dizendo coisas como “Ah, queridos leitores, como eu adoraria dizer que não senti medo algum naquele momento… Como eu queria! No entanto, a pura verdade é que me estremeci todo ao me deparar com o perigo. Digo isso, amados leitores, pois meu maior compromisso é com a realidade e tão somente com ela!”.

Você não me engana, Jak!

Em suma, não é o esteriótipo de personagem com o qual costumo me simpatizar, porém tal não foi um impeditivo para que eu apreciasse a leitura. Por quê? Dois motivos:

a) Como explicado, o mordomo  tornou tudo mais divertido, uma vez que ele, sempre que encontra uma deixa, zomba, com um certo requinte — seria de se esperar, ora, ele é um terrissano, não é mesmo? — de seu patrão. Ademais, suas ponderações deixam evidente que Jak é um narrador não confiável (unreliable narrator);

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Jak e seu bigodón. No segundo plano, sua namorada. Ao fundo, koloss. (Imagem extraída de “A Liga da Lei”.)

b) Embora Jak não seja o mais inteligente dos cidadãos, ele se mostra um verdadeiro sortudo. Graças a isso, consegue embarcar em aventuras que se mostram úteis para Sanderson fazer uma construção de mundo (world building) mais aprofundada. No caso do conto em voga, damos um passeio pelas Terras Brutas e, com isso, temos o contato, pela primeira vez nesta Era, com koloss. E isso é extremamente interessante, pois implica a seguinte questão: koloss são criaturas possíveis de ser criadas única e simplesmente com Hemalurgia, não sendo necessária a intervenção de Ruína. Ou seja, a diferença desta Era para a anterior é que, antes, Ruína controlava os koloss (e qualquer outro ser submetido à Hemalurgia), ao contrário dos dias atuais, em que Ruína e Preservação se tornaram uma única entidade, Harmonia. Desse modo, nos dias atuais — pelo menos ao que parece —, os koloss são livres. (Sei que, após ler os livros 3 e 4, posso me mostrar errado.)

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Questão intrigante (teorização).

(A PARTE A SEGUIR CONTÉM SPOILERS MASSIVOS DA PRIMEIRA ERA; DE “A LIGA DA LEI”; E DE “SOMBRAS DE SI MESMO”.)

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Saber da existência dos koloss me deixou muito intrigado desde o primeiro sinal que tive deles nos jornais do livro 1. Porque vejam bem: se todos que sabiam como criá-los morreram no Cataclismo, como eles ainda estão por aí? A única resposta que vem à minha cabeça é que seja o Marsh. Ora, ele se mostrou um bom conhecedor da Hemalurgia quando entregou aquele livro a Wax no fim de “A Liga da Lei”, além do óbvio fato de ele ser um Inquisidor do Aço, o que o torna automaticamente um conhecedor dessa Arte Metálica.

Aí fica a questão (formulada por um camarada que ainda não leu o livro 3, vale lembrar): se Marsh é, de fato, o responsável pela ressurreição dos koloss, por que ele faria isso? Isso é muito estranho, pois, como bem sabemos, criar um koloss implica matar um humano, tornando-o um ser imbecil, que cresce de maneira descontrolada e, por isso, tem sua pele estourada até o coração não aguentar mais bombear sangue para aquele corpo enorme. Poxa, isso é perverso demais! E, caramba, qual a razão de Marsh fazer algo assim se ele deixou de ser controlado por Ruína, quando Vin derrotou tal deus da destruição e Saze se tornou Harmonia?

Será que, devido ao período que permaneceu controlado por Ruína, ele enlouqueceu? Será que acabou aderindo, espontaneamente, os ideais de destruição desse deus?

Muito estranho.

E… pensando bem… (isto aqui brotou na minha cabeça agora; aforismo total) talvez pode haver o dedo de algum kandra, pois Paalm, em “Sombras de Si Mesmo”, ao executar um sem-número de atrocidades, revela-nos que é possível kandras se tornarem rebeldes. Mas… ah… duvido que o Sanderson usaria o mesmo tipo de conflito em dois livros diferentes. Portanto, descarto essa possibilidade.

Mas qual seria, então, o evento que originou os primeiros koloss após o Cataclismo? O que acham, amigos viajantes? (Por favor, se for comentar, avise sobre os spoilers que dará. Seja específico(a), por favor! A última coisa que quero com minhas resenhas é estragar a experiência de alguém que, por algum acaso, venha a ler a sessão de comentários.)

Que fique registrado que retornarei a esta resenha quando concluir a leitura do livro 3, haha.

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Bom, era isso que eu tinha para conversar com vocês por hoje, caríssimos viajantes.

Vejo-os na próxima! Até breve!

 

P.S.: “Sempre há outro segredo”,

Kelsier.