“Histórias para contar na estrada” é uma coletânea de contos que é publicada regularmente aqui na Taverna. Esta história faz parte do mesmo universo que “O comércio de elixires na Planície dos Trovões”, conto do meu blog pessoal, e de “Sobre canções de ninar”, lançada aqui anteriormente, mas eles podem ser lidos separadamente sem problemas. 

Imagem e conto por Letícia Werner.

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 Havia uma estrada de terra que mal era possível de enxergar no meio da floresta. Aquele trechinho sinuoso descia a colina em direção às cidades da costa, e o seu chão fora assentado por pés de aventureiros, a maioria dos viajantes preferindo a estrada principal. Ainda assim, uma carruagem descia lentamente por aquelas curvas.

 Quem a controlava era uma pequena figura, sentada bem reta no banco do cocheiro, ainda tremendo por causa das emoções de pouco antes. Ela manejava os estribos dos dois cavalos, guiando-os pelo caminho estreito demais para eles e o veículo.

 A noite era escura. A menina de doze anos nunca havia passado tanto tempo sozinha. Foi uma corrida impressionante, ela com aquele vagão pesado e os seus perseguidores a pé por uma fuga impossível, e não fosse por suas aulas de direção com Laurent e a falta de conhecimento da região pelos outros, teria acabado em desastre.

 Ela não teria mais aulas de direção com Laurent.

 A menina mantinha o nariz erguido com orgulho. Havia mostrado para aquele bando de ignorantes que era mais rápida e esperta do que eles, e ficado com aquela bela lembrança do acampamento. Era isto o que pensava, enquanto passava as mãos nos adornos da carruagem. Ainda assim, seu sorriso tremia, e a palidez de sua face não era comum, muito menos o brilho lacrimoso dos olhos.

 Não estava feliz.

 Parou perto de um córrego para se lavar. Estava suja de poeira, mas ainda usava as joias e as roupas finas da cerimônia daquela manhã. Pedras estavam faltando em suas pulseiras. Os tecidos estavam rasgados em alguns pontos.

 Ela se considerava corajosa, e que pular no meio dos bárbaros para fugir com uma das carruagens fora um ato de bravura. Seria melhor assim, do que pensar que o medo que sentia em seu coração era a verdade.

 Jeanine se via como uma boa menina, ao ponto do que era possível ser boa, considerando sua vida. Ela se esquecia das tarefas com frequência, e preferia perder-se nos bosques, ajudando Dalia na coleta de essências, do que ficar no acampamento. Ainda assim, quando voltava, tratava de fazer o dobro do trabalho que lhe era cabido normalmente. E ela participou da cerimônia por causa deles.

 Na beira do riacho havia uma planta jovem iluminada pelo luar. A menina voltou ao vagão, pegou um frasco cristalino, e se aproximou do ramo, querendo capturar o orvalho daquela planta, como a velha senhora coletora a havia ensinado.

 Dizia-se que cada povo daquelas terras selvagens havia herdado um dom da natureza, e Dalia a ensinou o dom de perceber a essência de algo, capturá-la e manipulá-la. Esta era a arte que enchia o acampamento de vida.

 “Guarde com a sua alma este segredo, minha filha.” Ela dizia. “Pois as pessoas da cidade esqueceram o dom a que lhes foi cabido, e se agarrariam a qualquer outro, se lhes trouxer ouro ou poder. E neste frasco em suas mãos, há o poder mais puro.”

 Mas, naquela noite tentando capturar a essência do orvalho, suas mãos tremiam, o frasco escorregou, e Jeanine ficou olhando enquanto um de seus últimos coletores desaparecia nas águas escuras.

 Ela não faria mais coletas com Dalia.

 A menina se sentou entre os dois cavalos, e, mesmo sabendo que ficaria sem resposta, perguntou a eles em voz baixa: “Nunca mais voltaremos ao acampamento, não é?”

 E se pôs a chorar.

 As negociações tomaram boa parte do inverno, para que o evento acontecesse somente no equinócio da primavera. A família dela tinha muitas mulheres e poucos homens, e a outra tinha muitos homens e poucas mulheres. A união as fortaleceria.

 Foi decidido que o filho mais velho do patriarca deles se casaria com a filha mais velha do patriarca dela, para firmar a união. Estes seriam Pierre, de dezesseis anos, e a própria Jeanine, que faria doze no mesmo dia da cerimônia.

 Os noivos puderam se encontrar antes do evento, e ele não era de todo mau, apesar de ser estúpido como todos os rapazes adolescentes que conhecera até ali. Mas talvez, um dia, eles aturariam um ao outro, da mesma forma que velhos casais que conheciam passavam os dias.

 Naquela manhã, os vagões de ambas as famílias formaram um círculo dentro de uma grande clareira no meio da floresta. O dia raiou com música, a fumaça do fogo para os assados e lanternas de papel penduradas entre as casas móveis.

 Ela foi banhada pelas mulheres mais velhas da família, e decorada com esmero, com todas as suas melhores peças e algumas feitas para a ocasião.

 A festividade daquele dia não foi muito diferente dos outros aniversários dela. A menina dançou e se divertiu até esquecer que aquele era o dia em que deixava de ser menina.

 Ela sorria e brincava, como fazia quando roubava frutas nas cidades que a caravana passava. Os castigos eram duros, mas aqueles pêssegos sempre seriam mais doces do que qualquer comprado, e a energia da ousadia a preenchia com um ardor de brasa.

 Mas aquela era a ocasião onde deixaria a infantilidade de lado, e ingressaria numa vida regrada, junto das outras mulheres da família. Teria que servir ao esposo, cuidar das moradias, e então das crianças, que viriam em seguida.

 Ela não queria qualquer uma dessas coisas, mas faria. Por eles.

 Ao pôr do sol, o patriarca da outra família fez a cerimônia final. Foi tudo muito rápido, e com um beijo desajeitado, os jovens estavam casados.

 Se a noite tivesse terminado ali, teria sido tão diferente.

 Pierre foi o primeiro a ver os homens que cercavam o acampamento. Havia algum tempo que as famílias davam de encontro com estranhos na estrada, provavelmente outro grupo de nômades. Nada sabiam dessas pessoas, apenas que havia algo de ameaçador em seus semblantes. Mudaram o acampamento de lugar três vezes antes de se sentirem seguros para realizar a cerimônia, e quase perderam a data sagrada.

 Mas eles os encontraram. Eram muitos, e cercaram o acampamento em todas as direções. Os estanhos se aproveitaram da comemoração para pegá-los vulneráveis, à noite. Passavam entre as carruagens, levando tudo o que tinham, sem espaço para revidar, em passo lento e quieto, como se para se deliciar com o horror dos assaltados.

 O pai de Jeanine, líder entre os nômades da floresta, aproximou-se dos homens montados para negociar, e Pierre foi acompanhá-lo. O esposo a mandou ficar parada e não fazer barulho, mas logo ela foi prender os cavalos ao vagão.

 A recém-esposa não conseguia ouvir o que os homens estavam falando, mas viu muito bem quando espadas foram desembainhadas. Os invasores começaram a empurrar todos em direção ao centro da clareira e para longe de seus cavalos, mas o veículo dela já estava pronto, e outra vez ela foi tomada pela desobediência e ousou.

 Muito tempo depois, Jeanine se perguntaria qual foi a ideia que teve, quando preparou a carruagem. Talvez ela fosse ajudar os outros a fazerem o mesmo depois, ou chamaria Pierre e os dois iriam embora juntos. Mas estas opções nunca pareceram muito de seu feitio, e ela só sabe que, na hora certa, o veículo estava pronto, e com um comando, ela quebrou o cerco e sumiu na floresta.

 O vagão era feito para a estrada, e não para a floresta pedregosa. As rodas reclamavam sempre que tocavam no chão, entre saltos, e o encontro com uma árvore causou danos na lateral da carruagem, quase a tombando. A menina se manteve na guia mais por persistência do que equilíbrio, e quando alguma flecha inimiga assustava os cavalos, tinha que se segurar para não ser atirada longe.

 Mas chegou o momento que, entre ficar e conseguir um lucro maior ou perseguir a fugitiva, os ladrões preferiram ficar, e assim desistiram quando a floresta ficou densa demais.

 Ziguezagueando entre os pinheiros, Jeanine achou aquela rota, depois de algumas horas perdida. Agora se encontrava no meio do caminho para a costa, deixando Laurent, Dalia, Pierre, seus pais e todos que conhecia para trás, no lugar de onde vinham os gritos enquanto ela fugia.

 Será que teria agido certo? Será que sua fuga deixou a situação pior? Ela só saberia se voltasse, e era a última coisa que queria fazer.

 Puxou a corrente que trazia por baixo das roupas, a que tinha uma pedra da lua como pingente. Ela precisava de alguém que a desse uma luz, um guia que mostrasse o que deveria fazer. O povo nômade tinha vários deuses, mas Jeanine sabia que o que eles a mandariam voltar aos seus deveres e para a sua família. Assim, a menina perdida pediu ajuda de uma santa local.

 “Ailith, sei que você esteve sozinha e sem rumo em seus dias de luta, então ouça a voz de alguém que passa por este mesmo desespero. Para onde devo ir?”

 A princípio, a prece parecia ter caído em ouvidos surdos. Mas então algumas nuvens se moveram, expondo a lua cheia por completo, e o caminho que descia até as baías se iluminou de tal forma, que Jeanine conseguia ver o farol de Mira à distância.

 Era covardia? Ela se convenceu de que era, sim.

 Era errado? Muito mais do que qualquer fruta roubada ou descaso com as tarefas.

 Ia contra tudo que haviam a ensinado? Tão contra, que ela nem sabia como imaginou fazer tal coisa.

 Ela deixaria todos que a amavam para trás para salvar a própria pele? Ela iria, e dizia a si mesma que era certo, porque nunca perguntaram sua opinião sobre qualquer decisão tomada em sua vida. Mas ela sabia que isto era errado, e que, no fundo, faria qualquer coisa para voltar para eles, para o seu lugar.

 E ela foi à Mira.