Olá, pessoal, tudo bem? Sou Rodolfo Salles, autor independente de ficção fantástica e colaborador da Taverna. Com essa nova série, “Criadores de Mundos”, pretendo compartilhar os elementos que me ajudam diariamente a criar minhas histórias. Não se trata de um tutorial do que é certo fazer em sua escrita. Minha única pretensão é apresentar o que tem funcionado para mim. Para outras dicas, confira também nosso “Guia do Escritor Iniciante”

O que compõe um bom personagem?

Essa é uma pergunta que me fiz durante muitos anos enquanto escrevia minhas obras. Sempre tive dificuldades em escrever protagonistas, e geralmente depois do primeiro rascunho, eu precisava voltar ao começo e reestruturar muitos detalhes desses valiosos personagens. Tive uma experiência terrível escrevendo uma história a qual todos que liam simplesmente detestavam meu protagonista. Ele era um cara enfadonho, relutante e que não deixava a trama andar. Eu tive que reescrevê-lo mais de uma vez para que a história funcionasse. Por sorte, aprendi muito nesse processo de reescrita, e vim compartilhar um pouquinho com vocês sobre essa experiência.

PS: muitas das dicas desse post estão nas palestras de Brandon Sanderson, disponíveis no Youtube. Caso entendam inglês, vale muito a pena.

 Características importantes para protagonistas:

Confiável: Seu personagem precisa despertar a confiança do seu leitor. Ele pode ser um anti-herói, mas, ainda assim, precisa de características que o torne alguém de confiança. Caso contrário, seus leitores não irão querer prosseguir em sua companhia.

Viver além das páginas: O personagem precisa parecer que vive mesmo quando o livro está fechado. O leitor precisa ter a impressão que sabe o que ele estaria fazendo em seus momentos de lazer.

Passado: Um personagem sem passado se torna bidimensional. Crie um passado para ele. Importe-se com tudo sobre seu personagem. Conheça-o como se ele fosse uma pessoa de verdade.

Motivação: personagem sem motivação desmotiva o leitor. Então, dê a ele motivações, aquilo que os move. Isso ajuda o personagem a se tornar proativo. O vilão é naturalmente proativo, e isso, às vezes, o torna melhor que o protagonista. Os leitores são atraídos por proativos, pois querem personagens fazendo coisas. Quanto mais dispostos de fazer coisas eles forem, mais nos atraem e que causam empatia, através da similaridade. A técnica de mostrar ao invés de contar se aplica também na hora de revelar seu personagem. Precisamos ver suas ações para acreditar nele.

Desenvolvimento: Ele precisa evoluir em seu caminho, abrir sua mente, quebrar paradigmas, ter atitudes surpreendentes, crescer, evoluir. Sem isso, começará e terminará no mesmo lugar, e você não quer isso. Seu arco é importante.

Admirável: Seu personagem deve ser admirável em algo que faz, pensa e sente. Se o leitor admirá-lo, irá querer dar a mão a ele e embarcar na jornada sem pestanejar. Uma coisa que pode deixar a história muito interessante é escolher o personagem “errado” para ser o protagonista. Esse personagem vai sentir que não pertence àquele lugar ou papel. Isso o torna mais interessante. Ele não acredita que é o herói, mas faz coisas heroicas da mesma forma.

Falhas, desvantagens e limitações físicas: Sim, não adianta criar um personagem cheio de qualidades, sem nenhum defeito. Nenhum ser humano é perfeito. O leitor precisa se ver nas falhas dele e amá-lo mesmo assim. É preciso pensar em personagens como pessoas, não papéis dentro da trama. Como seriam os personagens se não existisse o plot, se fossem só eles e suas paixões. O personagem ganha mais vida quando são adicionadas suas paixões, pequenos detalhes que fazem toda a diferença na trama. Falhas geralmente são culpa do personagem, e é isso que cria seu arco, sua curva de aprendizagem. Ele não pode mudar logo de início, e é isso que a trama quer contar, adicionando conflito e o tornando mais confiável.

As desvantagens não são culpa dele, mas questões internas com as quais ele tem de lidar.

Já as limitações físicas são externas. Ele deve lidar com elas, pois sempre estarão lá, tornando tudo sempre mais difícil.

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Tyrion Lannister é um bom exemplo de personagem com limitações físicas.

Em um mundo fantástico ou ficcional, o que está dando errado é mais interessante do que o que está dando certo, assim como as ações que o personagem não pode tomar são mais interessantes do que as que pode fazer. Histórias são sobre falhas e limitações e como superá-las.

Empatia: A capacidade do leitor de enxergar o mundo pelos olhos de seu personagem gera empatia. Se o leitor se conectar com o protagonista (não precisa gostar dele, mas  entendê-lo e comprar suas ideias), sua história estará meio caminho andado. Zoeira, não estará, mas será de grande ajuda.

Ele precisa de paixões e motivações que vão além do plot principal. Ser interessado por algo, querer fazer as coisas, ter uma vida. A história, quando começa, apresenta uma interrupção na vida do personagem.

Antigamente, Superman, James Bond e Sherlock Holmes eram todos personagens perfeitos, excelentes no que faziam. Eles tinham limitações, mas não falhas. Ou tinham características positivas disfarçadas de falha, como por exemplo “ele se importa demais”.

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Superman, o perfeitão.

No passado, leitores eram atraídos por atributos que admiravam nos personagens. As atuais versões desses mesmos personagens são muito mais complexas e cheias de falhas. Personagens estilo Superman não são mais bem vindos como antes, enquanto o Batman é tão interessante por ser cheio de falhas, embora, ainda assim, seja um personagem incrível no que faz.

Com isso, podemos concluir que um bom personagem é o equilíbrio entre ser muito bom em fazer algo e ter falhas. Isso nos faz pensar no quão legal seria ser o herói.

Outro arquétipo de personagem cada vez mais populares nos dias de hoje são os underdogs, os excluídos. Sentimos grande atração por personagens injustiçados, como o Homem-aranha e o Harry Potter.

O problema dos personagens reativos

Quando uma história começa com os planos do protagonista sendo interrompidos por forças maiores, isso acaba tornando-o reativo ao invés de ativo.

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Frodo Baggins é considerado um personagem reativo.

Uma das formas de contornar esse problema é dar a ele hobbies e paixões, e, quando interrompido de suas atividades, ele continuar fazendo o que faz. O personagem está seguindo sua paixão, algo dá errado e ele continua proativo, continua fazendo o que faz e insistindo. Então, surge o problema contra o qual ele terá de reagir, mas ele já demonstrou sua proatividade antes, livrando-o do problema de apenas reagir. Isso o torna ativo. Tais hobbies e paixões também ajudam a constituir uma série de pequenos detalhes que seriam totalmente possíveis no mundo real. Não precisam ser coisas estranhas, mas, sim, diferentes, simples, interessantes.

Outra forma é o personagem tenta agir e falhar contra os problemas. Ele é proativo, vai de acordo com sua personalidade. Amamos o personagem não por ele ser capaz, mas por ele ter atitude e ser determinado. Eles agem ao invés de sentarem e ficarem preocupados. Exemplo: em Como treinar seu dragão, o protagonista Soluço é fraco se comparado aos outros vikings da aldeia, porém, quando os dragões atacam, ele não foge do problema, usando de suas habilidades com engenhocas para enfrentar os inimigos.

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Soluço, um exemplo de personagem que resolve problemas com habilidades.

Para facilitar na criação de meus personagens, sempre monto questionários para interroga-los – incluindo nome, descrição física, psicológica, quem mais amam e odeiam na vida, quais seus medos, sua comida preferida, entre muitos outros pontos.

Existem centenas de modelos de ficha de personagem pela web. Irei deixar aqui uma que costumo usar para os meus, com dicas de preenchimento, embora os títulos sejam autoexplicativos:

Ficha de características:

Aparência física: Descreva seu personagem fisicamente. Uma coisa que me ajuda muito é procurar desenhos e fotos em sites como DeviantartPinterest, e montar uma pasta própria com personagens que se assemelhem aos que quero criar. Por ser designer,  referência visual, para mim, é tudo.

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Imagem de Dropdeadcoheed.

Postura física: Qual a postura dele? Ágil, retraído, dançante, delicado?

Movimento/ritmo: Como ele se move? Semelhante ao acima.

Jeito de falar: Aqui você pode listar palavras que seu personagem costuma falar, e incluir a descrição de sua fala. É bem legal escutar pessoas falando. Já criei diversos personagens com falas de amigos.

Nível educacional: Ele estudou? Até que ano? É letrado? O que isso influencia em sua vida?

Antecedentes familiares: Conte sobre a família do personagem e sua relação com os familiares mais próximos.

Ambiente social: Onde vive? Como é sua relação com o ambiente e pessoas à sua volta?

História pessoal: Aqui é hora de contar a história de seu personagem até o início da trama, os detalhes de seu passado, seus segredos e assim por diante.

Preferência amorosa: Seu personagem é hétero, homossexual, bissexual, ou qualquer outra nomenclatura?

Preconceitos: Todos temos preconceitos em nossas vidas, sejam pequenos ou grandiosos. Dê preconceitos a seus personagens e os torne mais humanos.

Manias: Quais as manias do seu personagem? Pode ser algo pequeno como colecionar mapas, ou até mesmo patológico, como T.O.C.

Qualidades: Todos temos qualidades. Isso se aplica a seus personagens. Dê a eles qualidades humanas.

Defeitos: O mesmo se aplica a defeitos. E não faça como nas entrevistas de emprego, falando que é perfeccionista, rsrs. Dê defeitos reais a ele. Quanto mais palpáveis, maior a identificação sentida pelo leitor.

Necessidades: Quais as necessidades de seu personagem? Como ele sobrevive? Ambicioso, precisa de muito dinheiro? Ou é um aventureiro pedindo carona e vivendo com o que dá?

Desejos: O que seu personagem deseja? O que precisa para cumprir tais desejos? São plausíveis ou impossíveis?

Objetivos: Os objetivos de seu personagem irão determinar suas atitudes durante toda a história. Portanto, atente-se bem na hora de responder essa parte.

Falhas: As falhas irão humanizar seu personagem. Capriche.

Arrependimentos: Do que seu personagem se arrepende? Ele brigou com seus pais? Fez uma escolha financeira que o levou à falência? Perdeu o amor de sua vida por uma escolha errada? Todos nós nos arrependemos. Atente-se a esta parte.

Rancores: Quem não tem rancores que atire a primeira pedra. O que magoou seu personagem a ponto de ele ainda guardar rancor?

Características que podem arruiná-lo: Essa não é regra (nenhuma é, na verdade), mas acho interessante. Semelhante à falha, aqui temos uma característica que, em Game of Thrones, é chamada de Falha trágica. A característica do personagem que pode arruiná-lo, ligada a seu destino. Uma pessoa muito justa num mundo só de injustiças? Um inocente cercado de jogadores? Use a criatividade.

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E então: qual é a falha trágica de Ned Stark?

Características que podem salvá-lo: O oposto da falha trágica, se seu personagem for, por exemplo, um hacker em um mundo movido por tecnologia, ele sai na frente.

Problemas internos: Seu personagem tem algo internalizado com o qual não sabe lidar? Traumas, pendências… qualquer coisa que ajude a criar mais camadas e complexidade a ele, desde que influencie no seu desenvolvimento.

Problemas externos: Seu personagem tem alguma deficiência física? Manca? É corcunda? Alguma cicatriz ou deformação?

Motivação: Por que seu personagem acorda todos os dias? O que o move?

Do que sente falta: Todos temos saudades de alguma coisa. Seu personagem também pode, seja de uma pessoa, de uma época, de um sentimento…

O que o incomoda: Ele vive em uma sociedade distópica? É contra o rei totalitário? Vive sob um teto que não lhe pertence? Dê a seu personagem motivos para se incomodar.

O que quer mudar em sua vida: Como humanos que somos, nunca estamos satisfeitos com tudo. O mesmo se aplica a nossas criações.

Desvia seu comportamento usual? Qual situação tira seu personagem do sério? O que o faz deixar o status quo e agir?

Reação mediante adversidades: Como seu personagem age em situações de risco? Foge? Enfrenta? E em situações comuns, como um baile, uma festa? Dança ou assiste a diversão alheia? E em um jantar com os pais da namorada nova? É do tipo falador, ou daqueles que treme com cada nova pergunta?

 

Bem, acredito que respondendo a essas perguntas, vocês terão uma boa estrutura para trabalhar seus personagens. Espero que ajude a todos que chegaram até aqui!

Até a próxima!


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