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Em algum lugar do indefinido infinito em meio à ordem caótica do cosmos, havia uma estrada, feita de terra batida com cor de cascalho; estendia-se para além de onde qualquer capacidade de visão que algum organismo vivo pudesse vislumbrar, ou deveria dizer “iniciava-se”? Como afirmar, ao certo, tal detalhe?

Só poderia pressupor que a estrada terminaria por aquele lado apenas porque é o costume dos seres em proferir em que local e direção as coisas findam, e não o contrário, e porque também era para tal direção que eu estava incessantemente a manter em minha visão central, e mudar isto estava além de minhas capacidades. Eu não poderia virar a cabeça e sequer vislumbrar para qualquer outra direção, era como estar fadado a olhar para uma bela pintura hiper-realista, que, vez ou outra, era sujeitada a algumas pequenas alterações, pois, justificadamente pelo óbvio inalterável e imutável, árvores de pinturas não balançavam ao soprar dos ventos, nem as folhas que as mesmas continham produziriam sons audíveis conforme seus farfalhares, e a mais relevante distinção: pessoas (entre outros seres) não dão o ar de suas graças em pinturas, quer elas estivessem ou não percorrendo pela extensão da estrada.

E, ainda, só poderia pressupor que a estrada iniciava-se por aquele lado pelo fato de que, nas ocasiões raras em grandes intervalos temporais de diferença em que algum ser caminhava pela estrada, e, consequentemente, encaminhava-se perante minha presença, sempre, eu disse sempre, sempre o fizeram a partir de uma única direção: a que eu estava fadado a manter meus olhos fixados. E, acrescentando, pela minha visão periférica, fui capaz de constatar que localizava-me em um ponto no qual a estrada dividia-se em uma bifurcação, uma a minha direção esquerda, a outra, na minha direção direita; isto sem mencionar também que, a largura dos dois caminhos que ali se encontravam…bem…era preciso somar os dois para que coincidisse com a largura da estrada a qual estava eu, sempre a olhar, esperando algo a que eu pudesse orientar.

Então, era desta forma. Eu, uma espécie de guia ou orientador, que sequer sabia aonde exatamente encontrava-me, imerso em minha própria dúvida, que me atormentava, internamente, no abismo de minha essência astral: nesta pintura pseudodinâmica, harmonicamente entediante, que devido a um porquê que não sei afirmar, estava eu, neste local, sem poder retirar-me e condenado a olhar para uma única maldita direção, desde sempre que tenho capacidade cognitiva para me lembrar e para sempre…punição divina? Infernos? Experiências avançadas? Alguma forma de diversão perversa de seres superiores e transcendentais que estavam a brincar comigo…? Afinal de contas, ali era o inicio ou o final da jornada dos viajantes que ali vagavam?
Início ou fim, fim ou início?

…as bifurcações eram (poderiam ser) inícios e todos que até então chegaram perante meu ser, assim fizeram a partir do fim pois todos são brinquedinhos, de forma a servirem unicamente para o divertimento perverso de seres aquém da minha capacidade de raciocínio, como se fosse um Paradoxo de Fermi unilateral…quiçá instigante, tal pensamento…

Início ou fim, fim ou início?

…A estrada “principal” poderia ser o início e o final, uma sequência retilínea desta mesma estrada, que estaria e sempre esteve ali, às minhas costas, e que nunca pude contemplá-la simplesmente por não poder, e as bifurcações, apenas ramificações menores sem relevância, feitas especialmente para que eu, o guia, orientasse a todos de formas errôneas…e, ao Grande Final, quando a Entropia viesse a ocorrer, de forma a fazer tudo do Todo colapsar-se, o arauto de minha morte final viria, como um gatuno, um ladino, sorrateiramente pelas minhas costas, tomar minha existência para si…era uma possibilidade…

Início ou fim, fim ou início?
Início ou fim, fim ou início?
Início ou fim, fim ou início?

Ah! Amaldiçoadas sejam estas malditas suspeitas paranoicas que tomam conta de minha mente como tentáculos radioativos, me envolvendo cada vez mais, sem produzir nenhum resultado ou conclusão satisfatória, de forma a qual a única serventia tangível é apenas aumentar, como um câncer, as malditas suspeitas paranoicas. Se algum ser, porventura, estivesse ouvindo este relato, estaria propenso a pensar: “Por que não o meio? Apenas início e fim?” Bem, o que ocorre é que não existem “meios”, ou algo está contido na parte inicial ou na parte final de outro algo; por mais que um homem caminhe de um ponto para outro e exista um momento em que o mesmo se encontrará em um ponto de modo em que fique equidistante do seu lugar de partida e o que visa chegar, um segundo após ele dará o próximo passo e então estará mais perto do seu ponto final, que objetiva chegar, assim como um segundo antes, estava um passo atrás e mais perto do ponto de origem.

Seja como for, temo que está fora de cogitação que chegue aos meus conhecimentos se me localizo no início ou no fim. É uma possibilidade de que isto seja uma fração de minha maldição (considerando que seja eu um amaldiçoado).

Assim sendo, estaticamente me mantenho, lançando suspiros e leves lamentações para o nada, sempre a procurar alguma diferença, por mais diminuta que fosse, no lugar que eu obrigatoriamente vigiava. Desde as folhas que caíam ou as que eram arrancadas com o sopro do vento; algum ser que pelas redondezas estivesse a vagar, ora para alimentar-se, ora para dispor de pequenos repousos; até mesmo o quão iluminado ou falta de iluminação o local inteiro pudesse estar, em comparação a algum momento anterior. Aqui não havia necessariamente ‘dia e noite’, o que bagunçou totalmente minha noção temporal, um segundo era uma eternidade entediante e um século um piscar de olhos, e sequer havia um Sol ou uma Lua no céu, entretanto, eu sabia que a luz que banhava este lugar era uma salada-mista cósmica provinda de três sóis e sete luas, de forma que o resultado era um resultado de uma mistura heterogênea de fótons em cores carmim e argêntea.

O lugar em sua área física também era singular, era um ecótene incomum, na parte onde estava minha visão central, em uma faixa de dez metros da margem da estrada, haviam árvores de médio porte, com cerca de cinco a oito metros de altura, de espécies variadas, desde as de poucas folhas até as de muitas folhas grandes e pequenas, troncos bastante espessos e outros nem tanto, todas muito vívidas e de folhas sempre bem verdes. Enquanto na parte da bifurcação, em meu lado esquerdo, iniciava-se uma espécie de savana, poucas árvores, apenas uma aqui outra ali, plantas rasteiras e um mato seco de um metro de altura e nada difícil de pegar fogo, na verdade ocorriam muitas combustões naturais neste lado. E por fim, no caminho que se estendia ao meu lado direito, havia um pântano fechado e escuro, a luz pouco iluminava ali com lama mais escura ainda e densa, juncos exuberantes cresciam por todos os lados, um caminho bem árduo de percorrer só por ter que andar no mesmo.

Pela minha aparência, eu sou humano, ou já fui e mantiveram a casca em mim, pois ainda possuo uma cabeça, dois braços com mãos e duas pernas com pés, sem falar nas vértebras. Porém faz muito tempo que estou nesta condição, tempo demais para me lembrar o que fazia anteriormente. Também já não lembrava de como era, meu rosto era uma incógnita, quando erguia os braços de forma a colocar minhas mãos dentro do meu campo de visão, a luminosidade do local se comportava de maneira anômala, e então eu não conseguia vê-las, só via a luz forte emanando das mesmas sem forma definida, e quanto ao resto do corpo, bem, sequer baixar a cabeça eu podia.

Já deveria ter se passado cerca de dois séculos e três décadas humanas desde que o último ser percorreu esta estrada. Cheguei a acreditar que o Universo havia de ter colapsado e me localizava em uma fagulha isolada dos restos mortais do mesmo. Se assim houver ocorrido, ótimo, restos mortais adentram estágio de putrefação e depois viram nada, seria questão de tempo até que o que quer que eu fosse no presente momento, apodreceria e virasse nada.

Foi quando algo totalmente novo, inusitado e improvável de ocorrer aconteceu.
Não era um ser caminhando pela estrada, mas dois! Dois. Dois, ao mesmo tempo, caminhando juntos, lado a lado. Seriam dois estranhos que se conheceram durante a jornada pela estrada? Ou velhos companheiros de longa data que haviam iniciado juntos tal cruzada?

Interessante foi para mim o que aconteceu logo em seguida, conforme esses dois aproximavam-se mais e mais e mais e mais, e, assim, pude fita-los melhor e com mais atenção, observei que os dois possuíam o mesmo biótipo e estatura que eu, ao menos do que consigo me lembrar, vagamente, de como eu era, sobre suas vestes, não me recordo se utilizavam alguma.

Eram estes dois, um humano normal, comum, sem deformações físicas, exceto que não possuía boca, no lugar havia um vazio constituído por sua pele lisa e branco-pálida; a única coisa a qual eu conseguia ver em seu rosto eram seus olhos castanhos, serenos como as ondas do mar calmo quebrando na praia; o restante, nariz, cabelos, etc, era tudo indefinido, quando focava em olhar tais coisas, enxergava apenas um emaranhado de coisas embaçadas e distorcidas, como se a imagem que deveria chegar à minha mente fosse espremida por mãos invisíveis e maliciosas. O outro, era uma aberração, era humanoide por ter cabeça, tronco e membros, entretanto, sua pele era um verde muito claro e desbotado, quase branco; não possuía nariz; sua boca sem lábios estava aberta e nunca fechava, era de um tamanho anormal, duas vezes maior que uma boca humana aberta, não tinha dentes nem língua, e conforme se aproximava, pude ver que nessa cavidade oca que era sua boca haviam moscas vivas zunindo e voando, sem sair dali de dentro; não possuía nariz e seus olhos transmitiam um calor gelado em quem se deixasse envolver pelo seu olhar, era penetrante como se pudesse machucar de fato, eram também inteiramente brancos e sem pupilas, além do mais, em um deles havia uma ferida aberta da qual estava saindo um líquido viscoso que era similar a pus, porém, preto; sua mão direita tinha oito dedos e ela inteira, juntamente do antebraço, estavam em estado avançado de necrose gangrenosa e nessa região a cor era um preto com toques de amarelado doentio; e os dois indivíduos estavam de mãos dadas. A mão esquerda do humano entrelaçada à direita da aberração.

Eles chegaram a mais ou menos meio metro de distância de mim e ali ficaram aguardando, ninguém disse uma palavra sequer, seus olhos já transmitiam todas as perguntas que precisavam proferir; e concomitantemente eu já tinha ciência do que fazer, da orientação certa para cada um desses dois, então, assenti em silêncio comigo mesmo enquanto os olhava demonstrando compreensão.

A orgia de fótons que constituía as luzes carmim e argênteo que iluminavam todo aquele lugar ficaram mais escuros, quase como se fosse uma noite no sentido completo e um vento calmo e frio começou a soprar quando apontei para o humano e indiquei:

-Tu, ser de olhos gentis que pareces sorrir mesmo sem boca, deves ir pelo caminho à minha esquerda, deverás percorrer esta savana selvagem, muito cuidado, pois haverão animais carnívoros ou simplesmente hostis que desejarão tirar tua existência; também não saias nunca da pequena e estreita trilha quase invisível que irás encontrar depois de alguns passos, pois neste amontoado de mato há armadilhas, verdadeiras engenhocas exóticas pelas quais provavelmente não escaparás, caso sejas pego de jeito.

Dito isso, fiz um gesto para a aberração e comecei a falar:

-E tu, ser de olhos sinceros que tem o olhar que os humanos tem mas que estão sempre a maquiar, deves ir pelo caminho à minha direita, deverás percorrer este pântano árduo, muita atenção, pois a lama torna a caminhada quase impossível e com um vacilo ela e o que há em suas profundidades mais baixas tomarão tua existência, mas basta guiar-te pelos juncos, depois de alguns passos compreenderás na íntegra o que estou a dizer, e também, cuidado para que não sejas seduzido pelas maravilhas ilusórias que irás te deparar.

Os dois assentiram e pela primeira vez desde que os vi a chegar, desprenderam suas mãos um do outro, e seguiram meus dizeres iniciaram cada qual seu caminho, sem emitirem qualquer som ou dizer qualquer palavra ou trocarem qualquer gesto, reverência ou sinal.

Havia uma coisa nobre e que sob minha perspectiva, considerava algo bom, que era poder orientar quem quer que ali aparecesse, ah, sim!Era um sentimento altruísta, semelhante ao de auxiliar um ente querido com dificuldades; semelhante ao sentimento de um soldado leal à pátria que acredita ferrenhamente que está lutando por uma causa maior; semelhante a de um mestre passar seus ensinamentos mais profundos a seu aprendiz. Era a parte boa disso tudo, estes momentos que eram as brisas raras em meio a uma tempestade infinita. Era, enfim, o que me fazia me sentir vivo e me impedia de ser envolvido completamente pela loucura. Era mágico, belo, bonito e satisfatório. Se era!

Sim! Orientei-os certo! Eu sabia que se o humano fosse pelo pântano sequer atravessaria a lama e se a aberração fosse pela savana seria pego por uma das armadilhas engenhosas que sabe-se lá quem as montou. E também os alertei, sim! Sim! Os deixei a par dos seus perigos! O humano perderia sua sanidade no pântano enquanto a aberração enxergaria como maravilhas prazerosas o que seria um mar de insanidade para o humano; e se a aberração fosse pela savana, seria perseguido incessantemente pelos abutres que nunca dormem devido ao seu corpo podre, enquanto o humano lidaria facilmente com eles. Sim! Essas e mais outras coisas! Fiz tudo certo!

Mas, após um certo tempo, talvez semanas, em um momento de epifania meu, como se minha consciência tivesse se fundido por um segundo com aquele lugar esquecido do Universo, eu soube…

…aqueles dois nunca conseguiram chegar aonde quer que deveriam ter chegado.

Fui atingido por uma tontura extrema e um choque de realidade como se mil raios me atingissem concomitantemente.

Eu já não comia, dormia nem bebia nada desde que iniciei essa seja lá o que for neste lugar como guia. Eu queria abaixar a cabeça para chorar de raiva e frustração por mim mesmo,abaixar a cabeça para chorar em compaixão a todos que eu orientei desde que estou aqui, céus! O que aconteceu com os outros!? Abaixar a cabeça para chorar implorando misericórdia para o que quer que fosse que estivesse me mantendo ali, mas não podia olhar para nenhuma outra direção e também não tinha lágrimas para derramar. Mas ainda tinha unhas.

Mas que inferno! Não podia nem chorar mais?? Então, em um ato desesperado, como se eu quisesse provar para mim mesmo que ainda era um humano funcional com cada um de meus dedos indicadores em cada um dos cantos dos olhos, comecei a passar a unha, como se sentisse coceira, e “cocei” sem parar até que as camadas de pele de tal região foram arrancadas de vez até ficar em carne viva. Sim, eu queria “chorar” sangue.

Em vez disso, chorei fragmentos de minha alma.


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