Algumas vezes você deve ter se deparado com o verbete “Jornada do Herói”, ou “Monomito”, seja em críticas literárias, seja em artigos sobre a escrita. E mesmo se não viu, certamente conhece ao menos uma história que se encaixa nestes moldes.

 O Monomito, também conhecido como Jornada do Herói, é o conceito de que todos os mitos passam pelas mesmas fases de um ciclo predeterminado, uma estrutura básica na qual se baseiam todas as histórias emocionantes criadas pela humanidade. Este termo foi desenvolvido pelo antropólogo Joseph Campbell, e é proeminente no seu livro “O Herói de Mil Faces” (The Hero with a Thousand Faces, 1949).

 De acordo com Campbell, das religiões atuais até as mitologias mais diversas, usariam a mesma forma de apresentar o herói (protagonista) e a sucessão de desafios e personagens que ele encontraria durante a sua jornada.

 Mais recentemente, Christopher Vogler, roteirista e executivo de Hollywood, adaptou seu memorando para os estúdios Disney na forma do livro “A Jornada do Escritor: Estrutura Mítica para Roteiristas” (The Writer’s Journey: Mythic Structure For Writers, 1998). Ele criou um formato dinâmico da Jornada, ideal para roteiros de cinema, mas também adaptável para a literatura.

 Segundo Vogler, a Jornada do Herói segue a seguinte estrutura:

  • Mundo Comum – O mundo normal do herói antes da história começar;
  • O Chamado da Aventura – Um problema se apresenta ao herói: um desafio ou a aventura;
  • Reticência do Herói ou Recusa do Chamado – O herói recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura, geralmente porque tem medo;
  • Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural – O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura;
  • Cruzamento do Primeiro Portal – O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo diferente, especial ou mágico;
  • Provações, aliados e inimigos ou A Barriga da Baleia – O herói é desafiado em testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial (usando como referência a história de Pinóquioa, a Barriga da Baleia pode ser usada como exemplo desta etapa da estrutura);
  • Aproximação – O herói tem êxitos durante as provações;
  • Provação difícil ou traumática – A maior crise da aventura, de vida ou morte;
  • Recompensa – O herói enfrentou a morte, se sobrepôs ao seu medo e agora ganha uma recompensa (o “elixir”);
  • O Caminho de Volta – O herói deve voltar para o mundo comum;
  • Ressurreição do Herói – Outro teste no qual o herói enfrenta a morte, e deve usar tudo que foi aprendido;
  • Regresso com o Elixir – O herói volta para casa com o “elixir” (que pode ser material, como um objeto mágico para quebrar uma maldição, ou imaterial, como a experiência que a jornada trouxe ao herói), e o usa para ajudar todos no mundo comum.
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 Estrutura básica da jornada do herói. Note a separação entre conhecido e desconhecido, o clímax e as consequências.

 Agora pare para pensar quantas histórias você conhece que seguem esta estrutura.

 Era uma vez um lugar sereno, onde morava alguém pacato…

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 Que foi chamado por um mentor para participar de uma aventura…

 Ele estava reticente no começo, mas acaba aceitando e parte de casa…

 Encontra amigos e inimigos pelo caminho…

E apesar das provações e das perdas…

 Eles provam sua capacidade…

  E voltam ao seu lugar comum, com tudo que aprenderam.

 Então, que bom! Achamos uma fórmula mágica de criar histórias perfeitas!

 Não é bem assim. E por um simples motivo: Senhor dos Anéis não é Star Wars. E se você acha que todas as histórias de Fantasia e Sci-Fi são iguais, diga isso bem alto na Comic Con. Não vai dar problema algum.*

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*Eu não me responsabilizo por quem decidir fazer isso.

 Acontece que a visão da Jornada do Herói é tão genérica, que por ela todos os mitos e contos formulados durante toda a história da humanidade se resumem à “mesma jornada, roupas diferentes”.

 Cada trama tem suas próprias peculiaridades, inclusive partes que não seguem o estipulado no Monomito, e não é por isso que elas deixam de ser boas. Na verdade, aquilo que é único a elas é que cria a experiência que as tornam adoradas por tantos fãs.

 Ainda assim, dá para perceber as semelhanças entre Senhor dos Anéis, Star Wars, Harry Potter e tantos outros. Uma das razões disso é porque essas histórias seguem a forma dos três atos das peças gregas, uma estrutura comum no ocidente. O primeiro ato trata-se da apresentação dos personagens e do lugar comum; o segundo é o desenrolar da história até o clímax; e o terceiro é o desfecho. Percebe como os três atos também se encaixam no ciclo da Jornada do Herói, mostrado lá em cima?

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Diversos estudiosos criaram suas próprias interpretações do Monomito, e alguns incluem a estrutura em atos.

 Um conflito crescente — lançando desafios cada vez maiores à estes chamados heróis, em face dos quais eles têm espaço para falharem e se superarem — mostra suas facetas mais humanas e os tornam mais relacionáveis.

 Pense na Jornada do Herói como uma ferramenta, algo para usar como base quando for estudar a estrutura de histórias que você admira. No entanto, saiba que, dentro do Monomito, você só encontra o que elas têm em comum, e não o que as fez sair do lugar-comum.


 Até breve!

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