Com cinco anos no ar, a revista Trasgo chega em sua edição de número 17. Nesta, saiu um conto de minha autoria, chamado Último dia, que já tinha ganhado em primeiro lugar o prêmio de SciFi BR e o Wattys, maior prêmio anual da plataforma. Aproveito essa oportunidade para apresentar uma entrevista com seu idealizador, Rodrigo van Kampen.

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Rodrigo mora em Campinas com sua esposa e filha pequena, é redator publicitário freelancer e seu ganha pão é escrever para empresas, principalmente para sites e blogs corporativos. Já atuou com assessoria de imprensa, jornalismo e redação publicitária em agências, mas gosta muito da liberdade de poder montar seus próprios horários.

Confiram a entrevista:

De onde surgiu a ideia para criar uma revista de fantasia e ficção científica por aqui?

A Trasgo surgiu porque eu sempre gostei muito de contos, principalmente de FC e fantasia, e queria resgatar as revistas de contos que tiveram vida breve no país, mas que sempre foram parte importante do cenário da literatura de gênero lá fora. Com o baixo custo e popularização das publicações online, achei que era o momento.

Como você vê o cenário desses dois gêneros no Brasil? Está melhorando? Ainda é uma bolha? O que você acha que poderia ser feito para o crescimento ainda maior desses nichos?

Todas as coisas estão corretas. Ainda é uma bolha, mas está melhorando. Tivemos a publicação do livro do Felipe Castilho recentemente, que se manteve firme na lista de mais vendidos por semanas, o que prova o potencial do gênero, escrito por brasileiros, aqui no país. O que poderia ser feito está sendo feito, que é investimento gradual, cada vez mais presentes, em autoras e autores nacionais que escrevem FC e Fantasia. Isso já é uma realidade muito presente em YA, por exemplo, que também tem muita coisa dentro de FFC (fantasia e FC).

A Trasgo trata a diversidade de suas autoras e contos com muito respeito e dedicação, sempre apresentando histórias com personagens femininas e LGBT. Fale um pouco sobre essa importância para você.

Há dois aspectos para se considerar: primeiro, que é preciso estimular espaços de publicação para autoras que não encontravam espaço no mercado tradicional brasileiro, clube majoritário de homens, brancos, héteros (embora sempre existiu boas exceções) . Então, primeiro é preciso que haja mais espaço para publicação que abra as portas para a diversidade.

Segundo, e mais importante, é que, se você quer publicar uma revista que se preze, você precisa estar prestando atenção onde estão as publicações e temas mais avançadas do gênero. A FFC sempre foi de explorar novas possibilidades (de cultura, gênero, ciências, tecnologias, enfim). Não basta ser história de navinha com ideias arcaicas, é preciso explorar o novo. E é justamente nesses espaços, onde a cultura é mais tolerante, que se tem publicado as coisas mais incríveis e avançadas, escritas por uma diversidade linda de autoras.

O que você acha sobre a nova onda de escritores independentes que vem surgindo no Brasil? E sobre o Wattpad, ideal para quem quer começar a entender seu público?

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O Brasil sempre teve ondas de escritores e escritoras independentes. “Vem surgindo” não é o termo correto, talvez “vem ganhando espaço”. O que está diferente é que há um diálogo muito mais rico e presente nesta nova geração, que o pesquisador Bruno Matangrano chama de “Movimento Fantasista brasileiro”.

Sobre o Wattpad, não uso, então não posso me aprofundar. A impressão é que tem muita coisa lá, e como todo canal aberto, há muita coisa ruim, e alguma coisa muito boa.

Aqui na Taverna damos oportunidades para novos autores mandarem seus contos. A Trasgo também presta muito bem esse serviço. Quais são os pré-requisitos para que um autor seja publicado com vocês?

Primeiro, é preciso ter um cuidado com o texto, entregar algo sem erros básicos de gramática, coesão, enfim. Segundo, temos pouco espaço para publicação (seis contos em cada edição), e recebemos entre 50 e 200 contos por edição para escolher. Só a quantidade já é um grande fator limitante.

Quais os principais problemas de contos não aprovados pela Trasgo? Algum conselho a quem pensa em mandar para avaliação?

O maior problema que vemos nos contos não aprovados hoje é falta de maturidade do trabalho. Muita gente manda assim que colocou o ponto final, não mostrou o texto a alguém, não tentou trabalhar novamente depois de um período de gaveta. Mas, se é para dar um conselho, é “escreva uma obra fantástica que dialogue com a sua realidade”. Muita gente acaba tentando escrever como se fosse estrangeiro, e isso cria obras meio vazias, na maioria das vezes.

A Trasgo paga suas autoras, e isso é incrível. Conte como foi tomar essa decisão e como administrar isso. E aproveite para falar sobre a importância do Padrim.

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A questão de pagar vem da proposta de ser uma revista profissional, desde o início. Se queremos os melhores contos do Brasil, temos que pagar para isso. A questão do modelo de negócio não foi bem uma decisão, nós fomos explorando as possibilidades (anúncios, edições pagas), até chegarmos ao modelo do Padrim, que deu certo. Nossos padrinhos e madrinhas contribuem com uma pequena quantia por mês (a maioria fica entre 5 e 12 reais), e com esse dinheiro conseguimos pagar todo mundo e manter a revista no ar.
Ainda não conseguimos pagar um salário de verdade para todo mundo que trabalha na revista (ou para mim), embora esse seja o nosso sonho. O importante é que, sem o pessoal que colabora pelo Padrim, provavelmente a revista já teria acabado

Quais são suas inspirações (autoras e mídias em geral como filmes, séries, etc)

Muita coisa. Recentemente tenho recomendado “A long way to a Small Angry Planet”, da Becky Chambers. Falando em nacional, tem Eric Novello, Felipe Castilho, Roberta Spindler, Érica Bombardi, Ana Cristina Rodrigues, Jim Anotsu, enfim.
Mas leio muita coisa de revistas estrangeiras, principalmente Tor.com e Lighspeed Magazine.

Livro\autor preferido?

“Belas Maldições”, de Neil Gaiman e Terry Pratchett.

Quais os planos para o futuro da Trasgo e para sua escrita?

Com a Trasgo queremos dominar o mundo e 18 continentes à nossa escolha. Falando sério, o objetivo da Trasgo continua o mesmo desde o começo: publicar uma revista incrível, tentar arrecadar mais para poder pagar mais para cada artista da revista, e, quem sabe, viver disso em algum ponto futuro. Quanto à minha escrita, venho brigando com um romance há dois anos, e me contento com o objetivo de terminá-lo, quem dera ainda este ano.

Fale sobre seus outros projetos, e deixe os links para quem quiser encontrar você.

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Sou autor de uma novela cyberpunk chamada Trabalho Honesto, que traz sacis, cucas e lobisomens em uma Campinas futurista. Não é uma novela muito séria, mas o pessoal tem gostado bastante. Deve ser por causa do robô-cafeteira.

http://rodrigovankampen.com.br/blog/2016/trabalho-honesto/

Também escrevo no Viver da Escrita, um blog sobre escrita, literária ou não. O Viver da Escrita tem uma loja de cursos de redação, ministrados por mim e por um monte de gente bacana, e também uma newsletter de recomendações de artigos, principalmente sobre escrita e cultura. Os links são:
http://viverdaescrita.com.br/
http://loja.viverdaescrita.com.br/

Além disso, tem meu site pessoal, onde explico um pouco mais sobre o meu lado escritor e também tem as informações sobre meu trabalho com redação publicitária.
Também trabalho como leitor crítico ou editor freelancer.
http://rodrigovankampen.com.br

Obrigado e um abraço!