E depois de uma longa viagem que parecia não acabar, eu finalmente coloco meus pés de novo nesse lugar tão querido. E vocês podem olhar por um instante para a ainda não tão conhecida integrante do grupo, um tanto atordoados, como se se perguntassem “afinal, quem era você mesmo?”

E, bom, é exatamente sobre isso que eu gostaria de falar hoje. Não sobre quem eu sou, mas sobre como não sabemos quem são tantos personagens que passam tão despercebidos das diversas histórias que lemos ou mesmo vivemos. Porque, afinal, hoje eu vou falar do Peão Passante!

Já ouviram falar desse livro? Não? Então escutem bem, cheguem mais perto… Esse livro… bem, ele é de tirar o fôlego. A autora é brasileira e chama-se Elisa Hulshof. Ela já tem o espaço dela no meu coração há tempos, e – diga-se de passagem – tem uma importante parte de culpa pelo meu amor à fantasia.

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E Elisa conta a história de dois irmãos gêmeos, príncipes, os primeiros filhos do Rei, numa terra onde primogênitos gêmeos era sinal de mau agouro, de modo que o povo já esperava que se matasse um deles, como manda a lei. Afinal, quando acontecia de nascerem gêmeos primogênitos, aquele reino era sempre marcado por guerras e terríveis lutas pelo trono. Mas Steinitz Lahur, que havia acabado de perder sua tão amada esposa Tallulah, não quis também abrir mão de seus dois únicos filhos. Ele precisava encontrar um jeito quando não havia nenhum.

Foi quando então, um homem vestido de morte apareceu ao rei com uma proposta em forma de jogo, e apresentou-o ao xadrez. E é naquele jogo que Steinitz enxerga uma saída para seus filhos:

“Meus filhos, Viswanathan Lahur e Anand Lahur…” – o rei ousara nomeá-los – “… serão separados e criados sem saber da existência um do outro, bem longe do palácio. Quando chegarem finalmente à idade adulta, enfrentarão um ao outro em uma batalha de xadrez. Não uma batalha com peças, o tabuleiro será o chão onde pisamos, e meus filhos serão os reis. Cada um terá direito a nada além do estrito número de peças que existe no próprio jogo. Não poderão possuir, cada um, mais do que oito soldados, dois arqueiros e dois cavalheiros para atacarem e se defenderem. Trouxeram-me a teoria, e disseram que era a solução; pois assim, eu, Steinitz Lahur, hei de descobrir a verdade, colocando essa teoria na prática. Que meus filhos não sofram com a injustiça de uma morte escolhida pela sorte, mas que sofram o destino de todos nós: a luta pela vida, quando só o que temos é a certeza da morte.”

É assim que começa. É por conta dessa história que conhecemos tantas outras, as histórias de cada uma das peças e de outros que cruzam o caminho. É no meio dessa batalha que conhecemos o cigano Servo; Kovu, o Cavalheiro Negro; Perpétua, irmã de Gentil; Bartek, o leal amigo e primeiro ministro do rei; Velvet Green, o bardo; Papoula – ah, Papoula! -; Caíssa e Ribka, as rainhas; Diagonal, albino e incrivelmente violento; Ositha; Natzalo; Nayve; Sofia Toccata; Caran D’Ache; Valentim e Crispim; Andrew; Anne Green; Tristan; Florentino; os próprios Anand e Viswanathan…

São tantos, tantos… e de algum modo, Elisa fez com que eu amasse todos. Fez com que eu me sentasse em volta de uma fogueira, e escutasse todas aquelas histórias, sussurradas ou cantadas, todas elas belas. E não consigo agora apagar a fogueira, e já não quero vê-los ir embora. São todos especiais, e é isso que ela parece sempre querer dizer de alguma forma: que mesmo um único sujeito – o insignificante e pequeno um – vale muito; que mesmo o peão, o menos importante, tem um valor imensurável.

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Servo e sua teorba

A escrita de Elisa é sempre muito fluida e rica – alimenta, por assim dizer. Ela pula da trama principal para as histórias particulares, corre para o futuro e volta ao passado com uma naturalidade que só torna a leitura mais e mais divertida. São 580 páginas de texto corrido, no sentido mais original da palavra, como um rio e sua correnteza seguindo seu curso. Eu simplesmente amo isso!

A batalha, o jogo prometido por Steinitz, é tremenda, e tem várias relações com o xadrez que mesmo para mim, que nunca tive o hábito de jogar, são muito interessantes. Além, claro, das lições, aquilo que ao longo da trama, que em cada jogada e em cada morte, se tira de verdadeiro. É épico, uma verdadeira fantasia! Leiam, leiam!

O Peão Passante foi indicado ao 58º prêmio Jabuti, na categoria romance, e você pode adquiri-lo aqui.

Além disso, se quiserem ouvir a própria Elisa falando sobre essa maravilhosa história, existem alguns vídeos no youtube, como esse em que ela fala sobre o peão . Dá uma olhadinha! c:

Bom é isso, pessoal! Boas leituras e logo mais nos vemos outra vez!


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