Saudações, viajantes!

Trago a vocês, desta vez, uma autora sobre a qual eu ainda não havia escrito nada sobre: Margaret Lindholm, mais conhecida pelo pseudônimo Robin Hobb.

A obra a ser analisada é Aprendiz  de Assassino (Assassin’s Apprentice), pertencente à The Farseer Trilogy (nomeada no Brasil de A Trilogia do Assassino), a primeira trilogia (de cinco) passada no Reino dos Antigos, mundo fantástico original da escritora (conclui-se, portanto, tratar-se de obra do gênero High Fantasy).

Peguem (se tiverem) seus bichinhos de estimação, coloquem-nos no colo e venham comigo para mais uma resenha! Não esqueçam de fazer de carinho neles enquanto leem, hein?

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Ilustração de capa pelo sempre incrível Marc Simonetti.

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Preâmbulo.

Caso conheça o formato de minhas resenhas, sinta-se livre para pular para o próximo tópico; se não, veja, a seguir, um esboço da estrutura de meus textos:

i) Sou “spoilerfóbico”. Por isso, redigir resenhas livres de spoilers é um mandamento que imponho a mim com desmedida seriedade. Penso que não há nada mais devastador do que a ruína da experiência de uma leitura. Não só de leituras, mas da absorção de obras de ficção em geral, eu diria;

ii) Costumo seguir uma estrutura. Consiste, em regra, na análise de voz narrativa (primeira, segunda ou terceira pessoa); enredo (plot); mundo (setting/milieu), seja ele fictício ou não; personagens e seus arcos; sistema de magia; linguagem; e quão sinérgicos são os elementos citados. A ordem e o modo como faço varia. Cada livro é único. Natural é, portanto, que a maneira de exposição de cada um também seja única;

iii) Ora ou outra, teço considerações que vão além da obra. Técnicas literárias, reflexões filosóficas, nuances sobre o autor e afins;

iv) Ao final, há um tópico com as notas que dou aos elementos expostos em “ii”, além de uma média entre elas, a nota final. Lembrando que se trata nada mais do que minha singela opinião acerca da obra. Assim sendo, são números concebidos a partir de minha subjetividade e, sem dúvidas, inteiramente passíveis de questionamentos e objeções de todas as sortes — inclusive, será um prazer debater sobre isso na seção de comentários.

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Emoção.

Caso você seja uma pessoa que tem acompanhado a Fantasia Contemporânea, é virtualmente impossível que não tenho ouvido, ao menos uma vez, o nome da Robin Hobb. E, sejamos honestos, a fama dela não é nada senão justa. Muita justa. A mulher sabe escrever ficção!

Mas o que estaria eu chamando de “saber escrever”? Bom, poderíamos abordar esse tema por várias perspectivas. Não obstante, irei me limitar ao que julgo ser o ponto central da boa literatura: emoção. É claro que escritores se destacarão em sua habilidade na prosa; construção de personagens multifacetados e críveis; elaboração de tramas complexas e bem estruturadas; criação (no caso da Fantasia e do Sci-Fi) de mundos, raças e sistemas de magia/tecnologias incríveis; entre outras competências. No entanto, creio (pessoal, essa é minha opinião; podem discordar!) que um autor apenas cumpre sua missão de verdade quando consegue evocar emoções nos leitores, sejam estas boas, ruins ou agridoces. É óbvio que os instrumentos utilizados para se atingir isso são aqueles elementos mencionados acima (prosa, personagens, trama…), mas acredito que esses elementos serem bons, por si só, não fazem um livro ser, automaticamente, emocionante. Para chegar à emoção é necessário um algo mais. E digo com convicção que Robin Hobb tem esse algo a mais! Ela sabe (ah, como sabe!) nos emocionar!

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A resenha.

A obra é escrita em primeira pessoa, cujo formato se dá pelo artifício narrativo conhecido como “estória dentro da estória”. Noutros termos: o protagonista, no tempo presente do livro, conta acontecimentos pretéritos de sua vida, e ele o faz por meio de anotações.

Ademais, no início de cada capítulo, temos acesso a anotações impessoais (semelhante às de Mistborn, mas maiores e não enigmáticas). Servem como um bom artifício para construção de mundo (world building).

E, já que toquei no assunto de mundo, creio que seja oportuno aprofundar um pouco no tema. Embora, nitidamente, mostre-se riquíssima a construção do mundo feita pela autora, este não é o tópico foco da narrativa do primeiro livro (não sei dizer dos demais, porque ainda não os li). O cenário se assemelha bastante ao medievo europeu, tanto no quesito cultura, política e alguns costumes, como na geografia física. É evidente o quanto o passado ainda influencia o presente da trama.

Temos a sensação de o mundo parecer real. Tudo que lemos parece ter vida. Há uma naturalidade, fluidez narrativa raríssima de se encontrar por aí. Afirmo, categoricamente, que Robin Hobb é uma tremenda ilusionista: consegue gerar, no leitor, a ilusão de que tudo que está sendo dito é real. O que, convenhamos, é incrível. Afinal, escrever é uma arte de ilusão.

O grau de imersão é profundo. Em geral, livros em primeira pessoa focam, primariamente, em navegar pelo íntimo do personagem em detrimento de longas e detalhadas descrições. Nesse livro, entretanto, há uma mescla poderosa entre ambos elementos. Há, o tempo inteiro, um forte desenvolvimento de personagem, sem que, porém, comprometa as descrições, as quais costumam ser longas e, quase sempre, abusam de sinestesia (os cinco sentidos). Nesse sentido, alerto que, talvez, esse não seja o livro ideal para pessoas que visam uma trama muito acelerada e cheia de ação. Isso se dá porque a autora é extremamente comprometida com o realismo. Ora, sejamos honestos: o nosso cotidiano não é marcado por eventos memoráveis e de enorme impacto, mas, sobretudo, de situações banais. É impressionante, contudo, como ela faz situações banais se tornarem interessantíssimas, além de inserir os eventos mais memoráveis e grandiosos de forma natural. Robin Hobb não é uma escritora que força acontecimentos somente, e tão somente, porque eles são necessários ao andamento do plot.

Apesar disso tudo, é válido ressaltar que a trama não chega a ser morosa: tudo acontece dentro de uma cadência moderada, ideal para quem gosta de imersão, mas que também não tem paciência para divagações sem nexo e infindáveis. Um meio termo. Um equilíbrio ideal.

Considero de suma importância pontuar que não é uma Fantasia Épica. Ao menos não neste livro — aliás, há bastante potencial para sê-lo. Trata-se de obra com o personagem como centro de tudo. “Character Driven”, como dizem os técnicos. Talvez isso seja decorrência da natureza Jardineira da escritora (entenda melhor sobre Outliners/Arquitetos e Discovery Writers/Jardineiros aqui), haja vista que Jardineiros costumam ter como ponto forte seus personagens; ao passo que Arquitetos, sua trama (estes concebendo, assim, estórias “Plot Driven”).

Ainda nessa lógica de análise do trinômio personagem-enredo-mundo, podemos afirmar que se trata de uma estória Man vs Man e Man vs Self. Mas o que cargas d’água isso significa? A teoria literária costuma dividir a natureza dos conflitos de enredos em três categorias: a) Man vs Man; b) Man vs Self; e c) Man vs Nature.

Podemos dizer que (a) é o padrão, em que se aplica a lógica de protagonista vs antagonista, isto é, a maior barreira, o maior obstáculo para que as coisas deem certo para o protagonista é um outro indivíduo (antagonista). É importante que entendamos isso da maneira mais ampla possível. “Man” pode ser qualquer ser racional. Logo, um enredo de humanos vs aliens — embora aliens não sejam homens — ainda é considerado Man vs Man.

Por outro lado, em (b), o maior vilão do protagonista é ele próprio. Não adentrarei minúcias para não dar spoilers, mas posso dizer que, graças às rápidas passagens que temos do presente (momento no qual Fitz, o protagonista, está escrevendo sua história), dá para notar claramente a decadência do personagem. Por isso julgo que, aliado ao Man vs Man, também seja uma estória de Man vs Self.

Em (c), temos os enredos de personagens que se perdem em algum lugar inóspito (vide o filme Náufrago e a série Lost, por exemplo) ou enredos em que o mundo está entrando/ já entrou em colapso (várias obras distópicas se enquadram aqui). Esta espécie de trama nada tem a ver com a de Aprendiz de Assassino — até porque, como assinalei acima, não se trata de Fantasia Épica, gênero fantástico, juntamente com distópico, mais comum de se encontrar plots Man vs Nature.

Não é uma obra abarrotada de plot twists. Deve haver (não me recordo com precisão) uns dois, três, no máximo — em que pese o plot twist do clímax seja absurdamente incrível. Emocionante! Deveras!

Até onde nos é apresentado na presente obra, existem apenas dois sistemas de magia. O Talento e a Manha.

O Talento — bastante enaltecido pela sociedade dos Seis Ducados — é uma forma de telepatia. O usuário tem capacidade de adentrar mentes alheias, podendo alterar lembranças, ler pensamentos, deturpar raciocínios e, até mesmo, influenciar o indivíduo a crer piamente em algo. A depender da habilidade do Talentoso, a pessoa invadida nem sequer cogita que foi violada. Quando duas ou mais pessoas são Talentosas e treinadas, elas podem se comunicar mutuamente, não importa a distância.

A Manha — reprimida socialmente, pois considerada como forma de perversão — possui certas semelhanças com o Talento, embora diferente. Ao invés de ocorrer entre pessoas, ele se dá entre pessoa e animal. Ocorre, no entanto, que a Manha é um pouco mais intensa que o Talento, podendo o usuário praticamente se tornar o animal, adquirindo seus sentidos aguçados e tendo acesso às suas emoções. Dizem que quem se entrega à Manha acaba, em determinado ponto, tornando-se um animal, pois perde sua essência humana, transformando-se em um ser não racional, mas de instintos (por isso reprimido socialmente). A Manha me lembrou muito de um dos sistemas de magias do Ciclo de Terramar, por Ursula K. Le Guin (RIP), porém mais bem desenvolvido.

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Pontos que mais me chamaram a atenção.

a) É inquestionável que um dos maiores desafios de se escrever em primeira pessoa é construir os personagens sem ponto de vista (POV). Deixo claro, nada obstante, que Robin Hobb vence esse obstáculo com maestria. É impressionante como ela caracteriza muitíssimo bem todos os personagens. Esse, de fato, é um dom para poucos. Dentre vários outros motivos, admiro demais a escritora por isso.

b) A autora tem uma sensibilidade ímpar acerca dos animais.  E se você — como eu — ama os animais, preciso te dar um aviso: você irá se derreter com este livro. E digo mais: se você não é um amante dos animais, você estará fortemente sujeito a se tornar um. A escrita dessa mulher é poderosa demais!

Digna de aplausos!

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As notas.

(Escala: 0 a 5.)

  • Enredo (plot): 3
  • Mundo (setting/milieu): 4
  • Personagens e seus Arcos: 5
  • Sistema de Magia: 4
  • Linguagem: 5
  • Diversão: 4
  • Nota Final (média): 4,16

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Aos que leram até aqui, o meu muito obrigado!

Vejo-os na próxima! Até breve!


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