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Ninguém entendia porque o Povo da Estrela tinha se tornado tão taciturno em poucos meses.

Os mercadores mais antigos lembraram que eles apareceram da mesma forma inesperada, quando uma guerra entre duas tribos por causa da rota para a Estrada da Seda agitava o deserto.

Uma caravana de homens com roupas rústicas, quase selvagens, que dormiam em tendas de folhas de palmeiras, todos com um ponto dourado na testa e desenhos de estrelas nos seus apetrechos. Entre eles, sacerdotes com cetros de metal encimados por uma pedra de quartzo negro fumado, que aparentavam abrigar nuvens indistintas. Eram homens com escarificações em forma de constelações nos ombros e no rosto, e vestidos de um manto escuro. Era como se eles tivessem aparecido junto com a estrela que começou a brilhar de um dia para o outro numa noite de verão no deserto, tão brilhante que foi inscrita pelos astrônomos chineses em suas tabuinhas.

Os seus rituais eram estranhos. Uma vez por ano, no dia do surgimento da estrela na constelação da Rede, uma das mulheres da tribo se pintava de preto para “dar à luz uma estrela”, o que sempre resultava numa grande explosão que reverberava pela planície vazia no meio da madrugada. Até os vilarejos mais longínquos conseguiam ouvir, e os mais próximos sentiam um cheiro como de enxofre. Pelos restos que eram encontrados depois dos rituais, a tinta da sacerdotisa era o próprio quartzo fumado triturado.

Também nunca foram de falar. O seu culto era secreto, e ninguém das tribos de mercadores jamais foi convidado.

Mas foram os maiores comerciantes do deserto durante décadas. Eu era um menino quando eles apareceram, hoje sou um velho, e nunca vi mercadorias de tão longe nessa região, artesanato que os mais audazes disseram ter encontrado em Samarcanda, ou conchas e mariscos andamaneses. Do norte gelado, traziam iaques e chifres de renas. Ourivesarias chinesas e estátuas indianas de estranhos deuses. E carne de animais caçados nas alturas do Himalaia. Eles diziam que a estrela da Rede era a sua guia, não só nas viagens, como em toda a vida e, algumas vezes, tentavam trocar nossas joias pelo quartzo fumado que diziam ser das cavernas de onde tinham vindo.

Foram eles que trouxeram paz, porque o seu comércio aproximou as tribos rivais e trouxe riquezas. Diferente de todas as outras caravanas, eles viajavam à noite, usando a luz que saía dos cetros dos sacerdotes como tochas. Ninguém entendia como aquele povo quase selvagem era capaz de fabricar aquelas tochas, e como conseguiam se orientar à noite, usando como mapa apenas as estrelas. Com os metais e joias que amealhavam graças ao comércio, faziam estranhas peças, agulhas negras que boiavam em pequenos recipientes de água, cordames cobertos de pó de quartzo, elmos e frascos para conter vapores, os quais usavam como fogo líquido para se protegerem de salteadores.

Por anos a fio, esses estranhos nômades fizeram partes das nossas feiras, visitaram nossas vilas, nos cumprimentavam nos caminhos, fizeram parte do nosso mundo. Mas, durante três ou quatro meses, todo o povo entrou em desespero, à medida que a estrela começou a perder o seu brilho dia após dia. Os rituais começaram a ser feitos todas as noites. Pareciam não confiar mais nos seus sacerdotes. Logo no começo, os cumularam de presentes, como se o enfraquecimento da luz fosse resultado da má vontade. Mas, conforme a situação ia piorando, desistiram de tentar conseguir o favor e passaram a agredir ou ridicularizar toda a casta. Nos últimos dias, em que de tão esmaecida estava quase invisível, é que foi a noite mais aterradora do deserto gelado.

Não era a mulher, estimada por todos eles e provavelmente detentora de grande autoridade, que estava vestida de preto, e sim trinta e oito sacerdotes, um para cada ano desde o surgimento da estrela. Como ninguém de fora desse povo jamais pôde assistir aos rituais a não ser do alto das dunas distantes, não se sabe o que aconteceu, ou melhor, só ouvimos os gritos de dor, o barulho dos golpes e a fogueira enorme que espalhou nos ventos o cheiro de carne queimada.

Com horror, todos nós procuramos evitá-los ao máximo. Mas não foi necessário: doze dias depois, eles não apareceram à tarde na nossa feira. Na semana seguinte, também não apareceram. Um comerciante que estava se sentido defraudado, porque esperava pelo pagamento de uma encomenda, mandou o seu filho mais velho montado num asno procurar pelo acampamento deles. O jovem não encontrou nada no lugar, só cinzas e alguns poucos restos de objetos queimados. Porém, encontrou uma trilha.

Era um caminho tortuoso, que levava até uma montanha. De longe, conseguiu distinguir o desenho da constelação da Rede num frontão de pedra. A escalada para lá não foi muito difícil. Apalpando a pedra com cuidado, ele descobriu uma fresta, que foi possível alargar até revelar uma passagem que não estava totalmente escura, porque contava com uma sequência de lâmpadas de cristal.

Ele atravessou todo o corredor, até que chegou a uma câmara onde não existia nenhuma fonte de luz. Então, tropeçou em algum tipo de estátua. Foi tateando até que percebeu relevos nas paredes de rocha. Conforme passava a mão pelos relevos, tentando descobrir o que representavam, eles começaram a brilhar- a penumbra revelou uma coluna de quartzo maior que o garoto.

Foi quando ele começou a ouvir passos. Dois homens magros e altos, com aparência abatida e olhar mais de medo do que de raiva, entraram fazendo faíscas ao brandir pedaços de cristal. O garoto correu da melhor maneira possível na obscuridade, até que usaram as faíscas para acender uma cerâmica de fogo líquido, que atingiu a entrada da caverna.

O que aconteceu depois, o garoto- hoje um homem feito — não contou por inteiro. Ele deu a entender que os nômades tinham voltado para o sistema de cavernas interligadas, do qual aquela entrada com a câmara era a porta para o mundo exterior.

Aquele povo acreditava que um Dragão estava eternamente tentando devorar as estrelas do céu e que, quando a nova estrela brilhou forte décadas atrás, era um prenúncio da sua derrota. Nas suas lendas, a nova estrela na verdade era uma estranha cerimônia nos céus, em que uma estrela vermelha engolia uma amarela e, enquanto ela estivesse a devorá-la, seria iluminada pelo brilho de mil sóis. Eles ganharam coragem para atravessar o mundo, usando o Cristal do Dragão com o qual iluminavam as cavernas. Com todos os seus rituais, procuravam impedir o apagar da estrela nova. O desaparecimento da estrela foi interpretado como um sinal do retorno do Dragão e, portanto, eles precisaram voltar à sua existência obscura.

Não tenho certeza, sou um velho, mas não muito sábio. Mas esse garoto continuou desaparecendo de quando em quando, e enriqueceu vendendo os mesmos cristais enfumaçados que os nômades vendiam outrora. Teria ele se tornado uma espécie de seu enviado para o mundo da superfície? Se fosse o caso, que outros mistérios ele teria desvendado nas entranhas do mundo? Conheceria o porquê do nascimento e da morte das estrelas?


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