“Histórias para contar na estrada” é uma coletânea de contos que é publicada regularmente aqui na Taverna. Esta história faz parte do mesmo universo que “O comércio de elixires na Planície dos Trovões”, conto do meu blog pessoal, “Sobre canções de ninar” e “A menina com o vagão”, lançadas aqui anteriormente, mas eles podem ser lidos separadamente sem problemas. 

 Esta é a primeira parte de duas deste conto. A próxima encontra-se aqui.

Conto por Letícia Werner.

Imagem: Cassandre Bolan

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 O primeiro dia do Grande Bazaar da Gruta foi um verdadeiro sucesso. Cada ano que passava, menos pessoas se arriscavam no rochedo à beira mar por uma mera lembrança ou curiosidade, e somente os clientes fiéis retornavam. Mas a recente mudança na lei tanto afastava os sensatos quanto atraía os curiosos, e embora nem todos os mercadores dos anos anteriores estivessem lá, os presentes não podiam reclamar da clientela.

 Na placa que marcava a entrada da caverna encontrava-se pregada a declaração Real, a proibição da posse de artigos mágicos. Nunca um cliente fez meia volta ao vê-la, afinal, quem ia ao Bazaar já tinha uma ideia do que queria encontrar.

 A caverna em cúpula abrigava um círculo de vagões e tendas iluminados por lanternas exóticas. Os produtos eram dispostos em tapetes, e bardos tocavam no pavilhão central.

 Amuletos da sorte e material para adivinhação confundiam-se com os objetos mais sinistros. Os moleques das vilas próximas perdiam-se entre nobres disfarçados e magos da costa. As músicas, os dançarinos, as lanternas e toda aquela gente transformavam o teto da caverna num céu estrelado por uma semana, o momento do ano onde aquele lugar era mais que uma galeria de ecos do mar.

 Agora o Bazaar estava fechado, e os mercadores reuniam-se ao redor de uma fogueira. Alguns contavam histórias de suas viagens, e um alaúde era dedilhado num canto.  O velho Unruh resmungava sobre o anúncio pregado em sua loja, igual ao da placa da Gruta.

 “Aqueles malditos acham que podem nos dizer como viver! Foi com muito esforço que não os mandei enfiar aquele aviso no lugar correto, quando o colocaram à força ali. Mas acabei precisando dele, afinal! Acreditam que uma senhora espalhou pros quatro cantos do mundo que eu a havia enganado, quando ela foi pega com uma bola de cristal?” Ele pontuou ‘senhora’ de forma insinuosa.

 “E o quê deu na cabeça do Rei para nos caçar agora?” Um dos alquimistas perguntou.

 “Não ouviram? Um bando de bruxas invadiu o Castelo de Mira, ameaçaram o Rei e Rainha e ainda foram embora com as coroas de ambos!” Disse Eleador, uma vidente muito experiente que adorava embelezar a verdade.

 “Mesmo? Ouvi falar que foi tudo culpa de um simples ladino! Inclusive, em Mira, cantam uma música mais ou menos assim: Nas Noites escuras/ A sombra mais clara/ Nas ruas iluminadas/ A face mais rara…

 Unruh jogou uma bota contra Otto, o bardo. “Nada de suas mentiras, rapaz! Elas me cansam os ouvidos.”

  O filho de Eleador sentava-se impaciente, mordiscando um arenque defumado. “Quero mais histórias!” Ele disse. “Quero ouvir uma da Jeanine!”

 O pedido causou um pequeno choque entre os companheiros. A feiticeira das essências, Jeanine, contentava-se em calcular os ganhos do dia e tirar os itens vendidos de seu anuário de estoque. Quando riscou ‘golem de couro, engaiolado’ da lista, ergueu os olhos para o menino numa expressão inquisitiva, mas que não escondia seu aborrecimento.

 “E porque uma história minha?” Ela respondeu.

“Eu nunca ouvi uma história sua! O quê você viu na estrada esse ano todo de viagem?”

 “Nada interessante. Fui até o limite das Terras Mortas, e voltei pela Planície dos Trovões, só encontrando vida nas vilas onde descansei.”

 “Isso é muito longe! Como pode ter acontecido nada?”

 Otto sorriu e se aproximou. “Claro que aconteceu, mas o que uma dama ganharia em contar seus amores quentes para um remelento, hein?”

 Ela se virou para o bardo. “Veja como fala de mim! Não sabe que sou uma mulher casada?” e mostrou a mão em que trazia um anel dourado, aquele que agora só cabia em seu mindinho.

 Risadas ecoaram pelo o acampamento. “Todo mundo sabe que esta aliança é falsa! Mas boa resposta para colocar Otto em seu lugar.” Disse Eleador. “Agora, prestem atenção nos vigias que se aproximam. Tenho um horrível pressentimento sobre as notícias que nos trazem.”

 E assim, dois dos guardas pessoais dos mercadores, colocados para vigiar a estrada que leva à Gruta, aproximaram-se do acampamento.

 “Soldados reais se aproximam.” O primeiro disse. “Artefatos mágicos foram completamente proibidos do Reino.”

 “E-e eles n-não estão vindo para negociar.” Disse o segundo. “A-armados até os dentes!”

 A mensagem foi o suficiente para a maioria dos vendedores. Levantaram-se, enrolaram os tapetes, e já estavam se aprontando para ir embora quando o velho Unruh interveio.

 “O que vocês pensam que estão fazendo, seu bando de covardes?!”

 “Os dias do Bazaar estão contados, senhor. Ainda podemos vender em Alvatarde, mais ao norte. Se nos apressarmos, chegaremos lá antes do inverno!” Disse um dos ferreiros.

 “E vocês agem como se o Bazaar nunca tivesse sido alvo de perseguição! Sabem o que devem fazer, mas ainda assim fogem feito ratos!”

 Eleador deixou o filho em sua tenda e voltou-se para o homem rabugento. “Compareço ao Bazaar há quase tanto tempo quanto você, e claro que sei o que devemos fazer! Mas é como te disse hoje de manhã: o nosso tempo no Reino está contado. Além do mais -” e ela se aproximou, autoritária, “Ainda não é hora.”

 Mas Unruh era teimoso feito um bode, e manteve a cara fechada e a postura mais ereta que a corcunda o permitia. “Uma vez ao ano”, ele começou a discursar, “somos uma família. Por uma semana, cumprimos nossa missão, e tornamos este trecho morto da costa em algo mais, para os curiosos, para os magos, para os estudiosos, até para os conspiradores. Droga, fazemos isso por nós mesmos também. Por quanto tempo do ano vocês vivem somente do que ganham com o Bazaar?”

 O resto do acampamento estava quieto, escutando o velho. “Não foi bom nos conhecermos? Saber que existem outros desgarrados por aí, com desejos e aspirações parecidos com os nossos, e ter a certeza os encontraremos novamente, passado outro inverno, primavera e verão?”

 Estava surtindo efeito. Uns pararam de guardar suas coisas, e outros pareciam envergonhados.  “Se nos organizarmos, seremos capazes de enfrentar o que for que o Rei mandar na nossa direção, seja um batalhão, sejam mil! Otto!”

 O rapaz parecia ter levado um susto ao ouvir o próprio nome. “Veja o que você e os outros jovens fortes podem fazer!” E assim o fez, correndo para os seus amigos e atirando ideias para todos os lados.

 “Jeanine, organize os magos e feiticeiras!”

 Ela estava mais que pronta para ir embora quando ouviu seu nome. “E por quê eu?!”

 “Porque você tem uma voz forte e essa vidente de araque me cansa a paciência!” Eleador revirou os olhos e se fechou dentro da barraca junto do filho.

 A feiticeira encarou Unruh de frente. “E se eu não ficar?”

 Foi um choque para todos no acampamento. O velho ergueu as sobrancelhas, surpreso. “Isso mesmo que vocês ouviram,” ela continuou, “por mais belo que o discurso de Unruh seja, nosso lar é a estrada. Se estão a nos expulsar de um lugar, continuamos por ela até onde sejamos aceitos. Vivo sozinha por tempo suficiente para saber que esta é a única forma de realmente viver. E se só aguentamos uns aos outros durante uma semana do ano, aqui está a prova do que acabei de dizer.”

 O acampamento ficou completamente dividido, e enquanto os argumentos reinavam, Jeanine pegou sua carruagem e desceu pelas passagens laterais.


 Ela foi até um vilarejo da costa, entrou numa taverna e ficou por lá, bebericando algo e esperando amanhecer.

 “Jeanine?” Uma voz masculina a chamou, quando a noite já estava alta. Ela o observou por um tempo antes de reconhecer nas roupas, no cabelo e na postura, que aquele era um rosto que ela não via havia quatorze anos.

 “Pierre!” por fim ela exclamou. Conversaram por um bom tempo, relembrando do tempo da infância e a ocasião do casamento forçado, e ela ouviu notícias de seu pai e de sua mentora, e ele descobriu como ela levou a vida depois que se separaram.

 Tudo dito, Pierre a olhou nos olhos e disse: “Agora estamos bem. Muita coisa mudou, e eu sou o encarregado por nossas famílias. Você poderia voltar a qualquer hora que quisesse. E pelos rumores que vem de Mira… Não é bom ficar sozinha por mais tempo. O que me diz?”

 “Ah Pierre, eu agradeço, mas esta é uma escolha que fiz há muito tempo.” Ela respondeu tranquilamente, sem olhar o rosto do marido perdido.

 “Então… Quero que você ao menos fique com isto.” Ele disse, tirando um anel da algibeira. Estava de cabeça baixa, e havia decepção em sua voz. “Das alianças de um casamento muito curto, talvez você tire uma essência bela. Venda, faça o que quiser com ela. Acho que os nossos caminhos não vão se cruzar mais.”

 Tomando o último gole de sua cerveja, Pierre partiu, e assim o anel de Jeanine perdeu o valor de aliança.

 Ela ficou um tempo naquele salão escuro e quase vazio, perguntando-se sobre todos os “e se” que das bifurcações da vida. A maioria das pessoas, quando descobrem-se imaginando os “e se” passados, tem esperança de encontrar uma versão melhor de sua vida e de si mesmos, e só o fazem porque se arrependem de ter deixado as oportunidades passarem. Jeanine arrependia-se por nunca ter perdido uma.

   Guardou o anel, pagou pela cerveja, voltou para a carruagem e fez o caminho de volta à Gruta.

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