“Histórias para contar na estrada” é uma coletânea de contos que é publicada regularmente aqui na Taverna. Esta história faz parte do mesmo universo que “O comércio de elixires na Planície dos Trovões”, conto do meu blog pessoal, “Sobre canções de ninar” e “A menina com o vagão”, lançadas aqui anteriormente, mas eles podem ser lidos separadamente sem problemas. 

 Esta é a segunda parte de duas deste conto. A primeira encontra-se aqui

Conto por Letícia Werner.

Imagem: Shanmugavel.v

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 Ela encontrou o caos na sua volta. Mesmo desertados por alguns, aqueles que continuaram no acampamento haviam planejado alguma coisa. Os jovens estavam armados como podiam, e os guardas dos mercadores estavam prontos para batalha, porém ninguém colocava ordem nos aptos à magia.

 Eles reuniam-se em pequenos grupos, de acordo com suas especialidades, e todos acreditavam que era a sua vocação que resolveria o problema. Qualquer outro talento seria inútil, de acordo com as suas crenças. Mas Jeanine era a única coletora de essências.

 “Deixo-os sozinhos por alguns minutos, e já estão voando na garganta uns dos outros?” Ela anunciou.

 Muitos pareciam surpresos ao vê-la, mas logo vieram com discussões para ela conciliar. Ficou aliviada por ver que ainda não era tarde demais, e pôs-se a trabalhar.

  Entre eles haviam alquimistas, especialistas em encantamentos, magos de batalha hábeis com feitiço e espada, trapaceiros que conheciam um truque ou outro, e caçadores de monstros. Todos bons para causar dor e caos, nem tantos para a enganação.

 Mas a que chamou a atenção de Jeanine era uma moça muito pequena e muito jovem, quase uma menina, que rolava um espelhinho de prata entre seus dedos compridos.

 “E o qual a sua vocação?” A feiticeira perguntou.

Dando um passo à frente, a moça-menina a encarou e sorriu de forma maligna.


 O batalhão real constituía de uns cem soldados, vestidos em armaduras que à luz do dia eram douradas, mas que agora apenas refletiam a fria luz do luar.

  Deixaram suas montarias na costa e seguiram pelo rochedo a pé. O mar revolto atirava ondas contra eles, proibindo-os, mas ainda assim seguiram.

 Ao entrarem na Gruta, depararam-se com a escuridão envolvente. Uma tocha foi acesa ao fundo, revelando um velho que parecia estar em pé sobre uma barricada. A luz da chama, refletida nas paredes, insinuava o contorno de outros amontoados como aquele, bloqueando todas as saídas do grande salão de pedra.

 O comandante deu um passo à frente.  “Sou Sir Ryence, general em nome do grande Rei Urien e representante de sua vontade. À partir de hoje, é proibida a posse, a venda e a criação de quaisquer artefatos considerados mágicos, encantados, ou de potenciais sobrenaturais. Rendam seus estoques, jurem lealdade ao Rei, e serão livres para ganhar seu sustento de qualquer forma que não esta arte vil.”

 O velho endireitou-se na sua posição precária entre tábuas de madeira e mastros quebrados, estufou o peito para parecer tão maior quanto sua pequena figura permitia, e proclamou: “E eu sou Unruh, filho de Unr, escolhido representante entre os mercadores da Gruta, e não me curvarei aos pés de um Rei que ignora nossa presença até o dia em que decide que não gosta de magia!”

 Das sombras, veio um clamor concordando com Unruh, milhares de vozes preenchendo a escuridão. Surpresos, muitos dos soldados acenderam suas próprias tochas, e revelaram rostos mais próximos do que esperavam. Homens e mulheres do Reino e de todas as outras terras, próximas e distantes, além de seres de proporções menos conhecidas aos olhos dos cavaleiros, ali reunidos. Os habitantes da Gruta subiam pelas barricadas, e continuavam no chão em frente até cercarem por completo os intrusos.

 Alguns dos soldados assustaram-se com a visão e tiveram o reflexo de fugir, mas foram empurrados para dentro por um grupo novo que entrava: Os mais jovens e hábeis, liderados pelo bardo Otto.

 “Então, meus cavalheiros,” o bardo começou, “Temo que estejam cercados. Mas ainda há como vocês se salvarem: Rendam suas armas e ouro, desculpem-se aos mercadores da Gruta, e serão livres para ganhar seu sustento de qualquer forma que não esta lealdade vil.”

 Os mandados do Rei ficaram quietos, e alguns pareciam inclusive tremer dentro de suas armaduras. Mas uma gargalhada quebrou o silêncio.


 Contra a parede da gruta e atrás da multidão, uma mulher segurava sua saia vermelha em uma das mãos e um frasco de cristal na outra. Ela foi até o lugar combinado, mas no último momento, ficou em dúvida se desperdiçaria uma essência assim. Acabou se convencendo que tinha centenas iguais àquela, e a Planície dos Trovões nunca deixaria de fornecê-las. Ela colocou o frasco bem fundo na areia, segurou a corda conectada à rolha, e se afastou alguns metros.


 A risada vinha de nada mais, nada menos do que o próprio Sir Ryele.

 “Acham mesmo que Rei Urien mandaria um desavisado acabar com o maior conciliábulo de malfeitores da região?” disse, “jamais! Cacei e lancei às chamas centenas de bruxas em Mira, e sei exatamente o que está ocorrendo aqui! A sua revolta não passa de um embuste! Com algumas ilusões, um velho e um bando de ladinos, vocês tentam se passar por um exército? Pois saibam que perderam a nossa misericórdia, e nenhum da sua escória sairá com vida daqui!”

As maçãs do rosto de Unruh ficaram vermelhas por cima da barba branca. “Já chega! Jeanine, mostre que nós não estamos brincando!”

 Um frasco foi aberto. Uma tempestade de raios inundou a caverna com luz azul, e, recebendo o sinal, os habitantes avançaram, furiosos e bastante reais.

 No caos de trovões e guerreiros furiosos, ninguém percebeu o velho, a feiticeira, o bardo e os jovens que saíram pela entrada principal.

 Por mais que fossem numerosos, os habitantes da Gruta não eram grandes espadachins. Os cavaleiros conseguiam desvencilhar seus golpes com facilidade, mas suas tentativas de golpeá-los também eram frustradas, como se estivessem cortando o vento.

 Ao que os raios diminuíam, os guerreiros ficaram menos definidos, até sumirem da vista de seus inimigos, restando apenas as armas e escudos que empunhavam. E então, estes saíram voando pela entrada da caverna, e uma porta de madeira maciça fechou o caminho.

 Os soldados bateram contra o bloqueio, mas era óbvio que alguém mantinha as portas fechadas do lado de fora. Gritavam ordens e ameaças, até que Sir Ryele conseguiu acalmar seus homens e os convenceu a procurar outra saída. Mas, do fundo da caverna, veio um som.

 Era o gorgorejo profundo da garganta dos afogados, tornando-se mais alto a cada momento. Os cavaleiros voltaram à sua posição, prontos para mais uma investida do exército fantasma.

 Porém, o que os encontrou foi a água, o jorro de cada um dos corredores sombrios que as barricadas ocultavam, jatos tão fortes que atiraram os homens contra as rochas.  Quando a água já enchia metade da gruta, provou que tinha a mesma força para puxar do que para empurrar, e os arrastou pelos seus túneis desconhecidos, deixando partes de armadura pelo caminho. Nada mais se ouviria falar de Sir Ryele e seus orgulhosos caçadores de bruxas, não depois deles desaparecerem nas Cavernas da Boa Morte.

 A força da água quase atirou os rapazes que seguravam o portão para longe, e esse foi o sinal de que o conflito havia terminado.

 Otto e os jovens então entraram na Gruta e começaram a garimpar o que os soldados deixaram para trás. Jeanine e Unruh voltaram a subir pelas passagens laterais do rochedo e encontraram o acampamento noturno em seu devido lugar, no planalto acima da Gruta.

 Perto da fogueira, a pequena ilusionista e seus ajudantes ainda estavam exaustos, depois de manter as imagens ilusórias por tanto tempo.

 Os ferreiros contavam suas armas autoatacantes, de cara fechada. Se uma só tivesse ido embora com a cheia da Gruta, alguém teria que pagar.

 Os alquimistas haviam cuidado do equilíbrio entre as magias, e agora discutiam calorosamente o porque de armas autoatacantes reagirem à essência de raios.

 E num canto, um grupo ainda tirava as farpas dos dedos, depois de terem usado todos os naufrágios próximos para construir as barricadas.

 Fizeram uma pequena comemoração. Agradeceram e aclamaram a ilusionista Selena e Unruh, e continuaram as canções e conversas que haviam sido interrompidas de forma tão rude, mais cedo. Alguém se lembrou de que foi Jeanine que arquitetou o plano, mas a vendo ocupada com os cavalos, acabou dizendo nada.

O bardo e outros jovens voltaram da Gruta com sacolas cheias de armaduras, mantos e espadas. Otto ria enquanto se aproximava do acampamento. “E porque mesmo vocês queriam fugir?”

 Jeanine, após cuidar de seus animais, disse: “Não sou de apostar todas as minhas fichas num evento que ocorre só uma vez por noite. A hora da maré é útil, não infalível.”

O jovem deu de ombros e foi falar com os outros, sempre exibindo a espada encravada de joias que pertencera à Ryele.

 Eles estavam se preparando para ir dormir quando os vigias voltaram ao acampamento, seguidos de muitas pessoas. Eram os frequentadores do Bazaar, e várias pessoas de posses da região.

 A notícia da proibição chegou às vilas, e quem podia fez questão de comprar seu próprio arsenal mágico, já que dificilmente haveria um Bazaar nos anos seguintes, e os rumores da capital davam sinais de conflitos próximos. Ninguém tinha certeza de quanto tempo duraria o reino.

 Assim, todas as vendas do Bazaar daquele ano foram feitas em um dia e uma noite.

 Jeanine adentrou a cabine de sua carruagem, e preparou-se para dormir o resto do dia antes de partir. Só então deixou-se lembrar do anel em seu mindinho e o outro em sua algibeira.

 Ela colocou-os numa fina tira de couro, e pôde ver o belo brilho da essência que emanava deles: tristeza, desespero, inocência, uma flor de um amor muito jovem. Ela poderia retirar essa essência, e seria a melhor que ela teria colhido na vida.

 Colocou-os no pescoço, e guardou-os sobre o coração.

FIM

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