O rolar tímido das águas e os estalos da queda da cachoeira cortavam o silêncio. Cheiro de musgo e lodo pairava no ar, denso. A umidade lambia sua pele, feito criaturas famintas; calafrios percorrendo-lhe a espinha.

Parou de remar quando vislumbrou, ao longe, traços fúnebres. A visão da decadência. O fim. A morte. Mas… o quê?, pensou, estupefato, incapaz de expressar a perplexidade em palavras. A queda d’água não era jovial — exuberante, cheia de vida —, como seria de se esperar. Não: possuía feição humana em mais plena nudez. Uma caveira colossal, cujas órbitas vazias vomitavam jatos d’água.

Ele me enganou! As pernas começaram a tremer. Preciso… A boca secou. Preciso sair daqui! Mais ligeiro que o ponteiro de segundos do relógio, virou-se. Meia-volta. Iniciou remadas descontroladas, um turbilhão de sensações desesperadoras a implodir e explodir dentro de si.

Notou roupas boiando, borradas pela névoa rodopiante que forrava a superfície das águas.  Às margens, restos de barcos; a madeira, abraçada pelos líquens, fundindo-se à natureza. Teria considerado uma bela imagem de contemplar se ausente o pânico.

Não acredito! A profecia, revelada pelo oráculo, era uma farsa: a chamada Cachoeira dos Milagres, concluiu, não passava de um embuste. Uma cova de ambiciosos. Cemitério aquoso de pecadores. Portal para a ruína. Limiar da existência mundana. Passagem ao etéreo.

Remar. Remar. Não podia parar. Concentrar-se, todavia, mostrava-se penoso desafio, vez que a imagem tenebrosa recém-vislumbrada assombrava os corredores caliginosos de sua consciência. Algo induzia sua paralisação. Por alguma razão desconhecida, deixava de ser senhor de seu corpo e mente. As fibras de sua carne latejavam. Visão turva, oscilante. Outrossim, os demais sentidos desvaneciam, tal qual brumas a um sol abrasador. Membros perdiam a consistência, como barro.

O remo escorregou de suas mãos. Dedos perdiam a forma; derretiam como metal líquido na forja dum ferreiro. Preciso… remar. Tentou, miseravelmente, fazê-lo com o que restava das mãos. A água o sugava. Mais. E mais. E mais. E…

Trevas.


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