Saudações, viajantes!

Peguem seus frascos com metais, vistam suas capas franjadas, carreguem suas armas e coloquem-nas nos coldres, porque é hora de seguirmos adiante com as análises da Série de Wax & Wayne, conhecida, aqui no Brasil, como Segunda Era de Mistborn!

Perdeu alguma resenha relacionada à franquia? Deseja ler? Eis os links:

Conto Mistborn – O Décimo Primeiro Metal [Resenha]

Mistborn – O Império Final [Resenha]

Mistborn – O Poço da Ascensão, de Brandon Sanderson [Resenha]

Mistborn – O Herói das Eras, de Brandon Sanderson [Resenha]

Mistborn – A Liga da Lei, de Brandon Sanderson [Resenha]

Conto Mistborn – O Alomântico Jak e as Fossas de Eltania, de Brandon Sanderson [Resenha]

Mistborn – As Sombras de Si Mesmo, de Brandon Sanderson [Resenha]

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Preâmbulo.

Caso conheça o formato de minhas resenhas, sinta-se livre para pular para o próximo tópico; se não, veja, a seguir, um esboço da essência de meus textos:

i) Sou “spoilerfóbico”. Por isso, redigir resenhas livres de spoilers é um mandamento que imponho a mim com desmedida seriedade. Penso que não há nada mais devastador do que a ruína da experiência de uma leitura. Não só de leituras, mas da absorção de obras de ficção em geral, eu diria;

ii) Costumo seguir uma estrutura. Consiste, em regra, na análise de voz narrativa (primeira, segunda ou terceira pessoa); enredo (plot); mundo (setting/milieu), seja ele fictício ou não; personagens e seus arcos; sistema de magia; linguagem; e quão sinérgicos são os elementos citados. A ordem e o modo como faço varia. Cada livro é único. Natural é, portanto, que a maneira de exposição de cada um também seja única;

iii) Ora ou outra, teço considerações que vão além da obra. Técnicas literárias, reflexões filosóficas, nuances sobre o autor e afins;

iv) Ao final, há um tópico com as notas que dou aos elementos expostos em “ii”, além de uma média entre elas, a nota final. Lembrando que se trata nada mais do que minha singela opinião acerca da obra. Assim sendo, são números concebidos a partir de minha subjetividade e, sem dúvidas, inteiramente passíveis de questionamentos e objeções de todas as sortes — inclusive, será um prazer debater sobre isso na seção de comentários.pewter

Problemas?

Não tenho a menor dúvida que, caso fã da série, você concluiu o livro anterior ávido para saber mais. Mais respostas. Mais segredos. Dou toda a razão. O mundo expandiu bastante com as pontas soltas deixadas nos dois livros anteriores. Várias possibilidades.

Mas e aí? Como o Sanderson lidou com isso? Bom, eu tenho o dever moral de ser sempre honesto com vocês, amigos(as) viajantes. Portanto, não passarei pano para o Brandon só porque ele é meu escritor favorito. Na minha concepção, Os Braceletes da Perdição peca em vários detalhes e, assim, cai com a qualidade da série. Obviamente, não ao ponto de validar um possível abandono de leitura da saga. Longe disso. Até porque o Sanderson está com bastante crédito conosco e creio que devamos perdoá-lo por eventuais deslizes que ele venha a cometer. O camarada, embora uma máquina de escrever, é humano, afinal. Inclusive, algo me diz que toda essa produtividade absurda que ele (e, possivelmente, seus editores) impõe a si tenha sido a principal culpada pelos problemas do livro.

Quais seriam esses problemas?

a) Vários eventos essenciais à trama me pareceram ocorrer de maneira não fluida.

Ou seja: o Brandon tinha, em sua outline, metas a cumprir (as quais ele costuma chamar de “bullet points“) e, devido a vários que prazos que ele tinha de cumprir  (aliados à alta produtividade que ele exige de si), acabou não trabalhando bem na ligação desses pontos. Várias das motivações que levaram os personagens a fazer uma coisa ou outra me pareceram, de fato, forçadas. Desse modo, graças a essa amarração defasada de elementos da trama, creio que a evocação de emoções nas partes mais críticas acabam perdendo força. Por isso, propiciaram a mim uma experiência mais morna do que nos livros predecessores da série.

b) Linguagem desleixada. (Faço, aqui, uma advertência: não li a versão original. Portanto, pode ser que algumas de minhas críticas aqui não sejam culpa do Brandon, mas do tradutor e demais membros da equipe editorial de revisão da edição brasileira.)

Há quem discorde, mas, em meu sentir, a forma é um elemento importantíssimo nas artes. Nessa senda, embora a escrita tenha como principal objetivo entregar uma estória, a forma como essa entrega se dá também é importante. Pelo menos para mim — e tenho certeza que vários discordarão.

E, pessoal, vocês não sabem como senti falta da enxurrada de “Fulano franziu o cenho” de Império Final. Aquilo não era nada comparado aos problemas de escrita de Os Braceletes da Perdição.

b.1) Problema 1 (e que mais me incomodou): chuva de advérbios encerrados em “mente”.

Não tenho a menor dúvida que a principal dica de escrita que ouvimos por aí é que deve-se cortar, ao máximo, tais palavras. Penso que cada obra tem suas necessidades próprias (o famoso “cada caso é um caso”). Assim sendo, é plausível e aceitável que determinados escritores escolham, conscientemente, usar mais advérbios. Por outra via, nada em exagero faz bem, creio.

A título de ilustração, vejam o trecho a seguir:

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Não bastou a chuva de advérbios: três deles deveriam ser idênticos (“novamente”) e colocados muitíssimos próximos uns dos outros. Trecho presente na página 114 da primeira edição.

b.2) Problema 2: voz passiva.

Agora, em retrospecto, não sei se posso afirmar se o corte de advérbios é a dica mais recorrente, porque o mandamento “corte a voz passiva!” também é bem recorrente. De qualquer modo, é inquestionável que se trata de uma forma de escrita que é mais longa e que, como o próprio Brandon diz, “tende a gerar um afastamento do leitor e é mais confusa do que a as orações em voz ativa”.

Se fosse para eu fazer uma estimativa, eu diria que há ao menos uma oração em voz passiva no livro a cada 2~3 páginas, em média.

b.3) Problema 3: vícios linguísticos típicos da oralidade usados em exagero.

Mais uma vez, invoco o próprio Brandon contra ele próprio. Ele sempre costuma defender que a literatura deve retratar um meio termo entre a realidade (na qual usamos bastante vários maneirismos durante as conversas e, principalmente, costumamos repetir ideias; isto é: por vezes, falamos em círculos) e a escrita estritamente formal (aquela que encontramos em vários clássicos dos séculos passados).

Ilustração:

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Detalhe que esses dois trechos estão em páginas subsequentes (69 e 70), o que agrava o problema.

Alguém talvez possa vir a alegar que essa minha crítica é desonesta, pois esse “ahn” é um trejeito peculiar de um determinado personagem, tal como a mania de Wayne de chamar tudo de “ferrado” e de Sazed construir suas frases afirmativas de forma não incisiva e polida no formato “blábláblábláblá, creio”.

É fácil desmontar esse argumento: basta ler o livro com atenção que verá vários personagens usando esses “ahn”s, seja Wax, seja Wayne, Steris, Marasi e personagens secundários. Todo mundo.

b.4) Não são problemas, mas detalhes que Sanderson, publicamente, sempre costuma apontar como traços amadores de uma prosa: uso de “?!” (p. 199) e emprego de sinônimos de “disse” (exemplos: explicou; acrescentou; comentou; apontou; mencionou; e afins).

c) O uso (ou não) de Deus ex machina em uma determinada cena. (Não falarei qual é a cena; podem ficar tranquilos. Comigo é SEMPRE spoiler zero.)

Este é o momento mais polêmico da resenha, suponho. Por isso, darei o meu máximo para ser honesto neste ponto da crítica. Trata-se de uma situação delicada e complexa, pois pode ser vista sob a ótica de dois prismas: i) pela perspectiva de um leitor casual (que consome apenas obras Mistborn e nada mais do Sanderson); ou ii) pelo ponto de vista de um leitor mais “hardcore” (que consome obras do Cosmere como um todo — que é o meu caso).

Ótica i): trabalhando com elementos presentes apenas nos livros da Primeira e da Segunda Era, a cena em questão pode ser, sem sombra de dúvida, vista como um Deus ex machina, uma vez que — usando uma terminologia que o próprio Sanderson ama usar — há um “foreshadowing insuficiente”. Trocando em miúdos: há uma resolução de conflito/problema recorrendo a um artifício não mostrado/explicado a nós antes de ele ser usado. Uma espécie de trapaça, digamos.

Ótica ii): lado outro, se você levar em consideração elementos apresentados na série Stormlight Archive e no livro Arcanum Unbounded (sobretudo, a novela Mistborn: Secret History), o artifício utilizado pelo autor para resolver o conflito se mostra sólido e crível, consoante as leis do Cosmere.

Eu, ainda que leitor das obras do Cosmere (logo, tenho à disposição um arcabouço de informação que me permite enxergar dentro da ótica ii), ainda fiquei um pouco incomodado com essa ausência de foreshadowing. Nesse contexto, alguém poderia perguntar: “Mas, Ian, você não disse que existe essa novelaMistborn: Secret History, na qual essa questão é explicada?” Sim. É verdade. No entanto, devemos levar um fato importantíssimo em consideração:

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Extraído de Arcanum Unbounded.

Ora, partindo do pressuposto que  spoilers de Os Braceletes da Perdição em Secret History, infere-se que a ordem correta de leitura é aquela é em que Secret History é lida depois. Logo, vislumbramos um problema estrutural no foreshadowing do Sanderson. Porque, convenhamos, é muito fácil se criar uma situação absurda e resolvê-la com o sistema de magia e explicar depois.

Julgo que, apesar da justificativa plausível, ele recorreu ao chamado Deus ex machina, pois, além do argumento acima, devo acrescentar que não considero honesto com os leitores casuais obrigá-los a ler outras obras que não os livros das Eras 1 e 2 para entender exatamente o que ocorreu na cena sob análise.

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Estrutura.

Não há muito o que dizer neste tópico. O livro segue um padrão bem semelhante aos demais da Segunda Era: um prólogo no passado (flashback) que, eventualmente, conversará com a trama central do livro; um pacing (velocidade de acontecimentos de eventos) absurdamente veloz; gênero Steampunk misturado com Policial/Investigativo e com a dinâmica de Thriller; e narrativa em terceira pessoa limitada, com três POVs majoritários.

Acredito ser um momento oportuno para chamar atenção a um erro relativamente sério de diagramação na primeira edição brasileira da LeYa (de Novembro de 2017): no décimo segundo parágrafo da página 43, não há o típico espaço de quebra com a troca de POV de Wax para Marasi, o que me levou à confusão. Admito que só fui entender o que aconteceu cerca de uma página depois e, então, acabei tendo de voltar e ler de novo para compreender.

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E aí? Gostei ou não?

Talvez, depois das críticas acima, vocês pensem que odiei o livro.

Não é bem assim.

Os Braceletes da Perdição está longe de entrar entre os meus preferidos do autor, é verdade. No entanto, a experiência valeu demais, principalmente por causa do final — que tem capacidade de ensejar milhões de teorias malucas tanto sobre o Cosmere, como sobre a saga Mistborn; além de, claro, despertar calafrios em qualquer fã da série. Nenhuma novidade, convenhamos. Se há algo em que o Sanderson jamais peca é em seus finais.

Os personagens, embora eu nutra um elevadíssimo apreço por eles — todos que leram minhas resenhas de A Liga da Lei e As Sombras de Si Mesmo estão carecas de saber disso —, pareceram-me não desenvolver. Salvo por certas questões românticas, fiquei com a sensação de que o arco deles foi bem modesto. Ademais, não me senti cativado por nenhum dos novos personagens apresentados. Por fim, acrescento que bons personagens apresentados nos livros anteriores foram pouco, ou nada, aproveitados. Destaque para Ranette. Estou cobrando um desenvolvimento dela desde A Liga da Lei e, até agora, nada mudou. Para ser honesto, estou até perdendo a esperança de haver um POV dela (snif).

Como apontei em algum momento acima, não me afeiçoei à trama do livro. E entenda “livro” em sentido estrito, porque a faceta da trama que vai além da saga Mistborn e conversa com a “Grande Estória” do Cosmere me empolgou muito! Deu um gás enorme para continuar lendo! Além de, é claro, o cliffhanger maravilhoso do final. Eu, fã apaixonado que sou, fiquei emocionadíssimo!

Falando nisso, aproveito a oportunidade para fazer uma promessa: em um futuro não tão distante (até o fim do ano, mais ou menos), pretendo criar um post sobre o Cosmere em geral. A ideia, por ora, é de fazer umas observações gerais; orientá-los sobre qual seria a melhor ordem de leitura das obras; e elaborar um top de meus livros favoritos do Brandon que se passam em tal universo.

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As notas.

(Escala: 0 a 5.)

  • Enredo (plot): 3
  • Mundo (setting/milieu): 5
  • Personagens e seus Arcos: 4
  • Sistema de Magia: 5
  • Linguagem (prosa): 2,5
  • Diversão: 3
  • Nota Final (média): 3,75

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Considerações  derradeiras.

Puxa vida, a resenha de hoje foi ferrada mais densa que o usual; várias questões a levar em consideração. Admito que cansei ao escrevê-la. Por outro lado, espero não ter cansado vocês (risos).

Bem, fiquemos no aguardo de O Metal Perdido. Para nos contentarmos enquanto o livro 4 não sai, trarei a vocês, daqui duas semanas, a resenha da novela que mencionei bastante no decorrer da análise: Secret History.

Aos que leram até aqui: um muito obrigado do tamanho do Cosmere!

Um grande abraço. Vejo-os na próxima!

P.S.: “Sempre há outro segredo”,

Kelsier.

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Gostou? Sim? Então, que tal ler outra resenha sobre o universo Mistborn?

Novela Mistborn — História Secreta, de Brandon Sanderson [Resenha]


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