Esta é uma série em três partes sobre a história da ficção científica. As outras partes você encontra aqui e aqui.

 Na sua conturbada jornada de ascensão, queda e volta por cima, o sci-fi ajudou a moldar o pensamento do séc. XX, e os sonhos do passado hoje transformam nossa realidade.

 Mas vocês já pararam para pensar exatamente o que é ficção científica? Esta pergunta é tão difícil de responder que até os mestres do gênero divergem.

 Na sua interpretação, Isaac Asimov entendia que a ficção científica “Lida com a reação dos seres humanos às mudanças na ciência e tecnologia”(Natural History, 1975). Ray Bradbury dizia que era o único “Campo que alcançou e abraçou todos os setores da imaginação humana, todo empreendimento, toda ideia, todo desenvolvimento tecnológico e todo sonho.”(Science Fact/Fiction, 1974). John W. Campbell, por sua vez, definia a seguinte diferenciação entre sci-fi e fantasia: “Para ser ficção científica, e não fantasia, um esforço honesto de extrapolação profética do conhecido deve ser feito.”(Of Worlds Beyond, 1947). Ao mesmo tempo, tem que ser lembrado que era Campbell quem dizia “Ficção científica é o que eu digo que é.”, e, para a sua época, provavelmente estava certo.

 O que eu posso dizer é que nas centenas de visões e interpretações propostas por leitores e escritores do gênero, posso afirmar que eles concordam com a presença de tecnologia avançada e o conflito do humano versus a tecnologia.

 Vago, mas para englobar tudo que é considerado sci-fi, tem que ser mesmo. Como chegou à tal ponto? Bom, para entender isso, só analisando a história da ficção científica.

Assim, para abrir nossa Jornada da Ficção Científica, estão todos convidados para dar uma volta com o nosso DeLorean e rever as fases históricas desse gênero tão importante!

OS PRECURSORES

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 Alguns críticos discutem que a ficção científica é tão antiga quanto a humanidade, e usam como evidência a existência de histórias de viagens para o espaço e outros planetas, assim como viagens no tempo e histórias que contam com a presença de máquinas pensantes (chamados autômatos) que datam da Antiguidade e da Idade Média.

 O exemplo mais comum entre os precursores seria As 1001 Noites. As histórias de Xerazade provém do folclore árabe, persa e indiano, mas certos contos, como História Mágica do Cavalo de Ébano e História da Cidade de Bronze são marcadas pela presença de máquinas que se assemelham a humanos e animais. O Cavalo de Ébano seria um equino artesanal que, com o virar de uma chave em seu corpo, seria capaz de levar uma carruagem ao espaço.

 Poemas indianos como o Ramayana incluem naves voadoras capazes de viajar pelo espaço e pelo fundo do oceano, e contos japoneses ditam a história de uma princesa vinda da lua, criada por camponeses humanos e sua volta ao reino de origem.

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Representação da Cidade de Bronze, por Simon Pape

 Mas essas histórias consideravam tais artefatos provenientes não da ciência e pesquisa, e sim da magia. Eram elementos fantásticos, como dragões e fadas na fantasia medieval.

 Somente após a Renascença, o Iluminismo e a Revolução Industrial que o mundo estaria pronto para colocar o pensamento científico dentro de suas ficções.

OS PIONEIROS

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Mary Shelley e sua criação

 Um verão chuvoso, um desafio entre amigos e uma conversa perturbadora nas altas horas da noite deram nascimento a uma ideia. Uma ideia que Mary Shelley tornou no primeiro livro pertencente à ficção científica: Frankenstein.

 Considerada primeiramente como uma obra de horror gótico, Frankenstein foi a novela que iniciou o uso de elementos do conhecimento científico da época para criar uma história fantástica, e então explorar suas consequências. Também criou a ideia do cientista louco, aquele que crê tanto no que pode fazer, que não se pergunta se deve fazer.

 Era um horror perfeito para o século IXX, onde o crescimento das indústrias e a urbanização levantavam uma série de questões: Afinal, até onde desejaríamos ir? O que conseguiríamos nas cidades cobertas de fuligem? Quais seriam os limites da ciência?

 Enquanto Frankenstein não oferece respostas, a obra expõe estas questões à luz.

 Shelley foi bem sucedida em seu primeiro livro, e trabalhou em alguns outros títulos de cunho sci-fi, como o apocalíptico The Last Man, mas ela nunca chegou a viver somente de sua escrita.

 O primeiro escritor de ficção científica em tempo integral gostava muito de viajar.

Science and Invention, Vol. VIII, No. 4, Aug. 1920
Júlio Verne e suas projeções do futuro (clique para ver imagem completa)

 Júlio Verne fez uso do gênero de viagens extraordinárias, já comum nas obras de fantasia, e, muitas vezes extrapolando a capacidade dos meios de transporte da sua época, escreveu sobre viagens incríveis com um toque de veracidade.

 Este toque é que Verne pesquisava sobre (e muitas vezes calculava a física por trás de) seus transportes. Do submarino elétrico Nautilus numa época em que submarinos eram pouca coisa mais que barris de chopp tripulados, até os cálculos do lançamento de uma nave em direção à lua, Verne criou o que hoje é considerado a hard science fiction, a ficção científica com foco na ciência por trás da história.

 Sendo assim, Verne colocava os personagens e a trama em serviço do conceito que ele explorava, e o avanço tecnológico era geralmente apresentado de forma positiva.

 Muitos o seguiram neste então novo gênero de “romance científico”, e até mesmo Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, escreveu O Mundo Perdido, romance sobre uma ilha isolada habitada por dinossauros.

 Mas não era tudo dinossauros e balões nos primórdios do sci-fi. Nem todos eram tão otimistas.

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H. G. Wells e suas obras

 H.G. Wells via os perigos do progresso imparável. Em A Máquina do Tempo, ele conta a história sobre um inventor, que após criar tal máquina, viaja para o futuro, vendo o mundo ficar gradativamente mais e mais alienígena e hostil, até o próprio planeta morrer. Não era comum, até então, representar o fim do mundo de forma não religiosa.

 Wells também subverteu as ideias de outros autores de sci-fi da época. Geralmente, quando seres de outros planetas apareciam nas histórias, eles eram pacíficos e extremamente avançados, um ideal a ser seguido pela sociedade progressista de então. Mas Wells lembrava-se da conquista das Américas, e como ocorreu o contato entre índios e europeus. Em A Guerra dos Mundos, ele mostrou aliens de uma raça cruel e conquistadora, que se achavam no direito de dizimar a humanidade.

 Mas há de se notar que H. G. Wells não dava explicações além das necessárias sobre sua máquina do tempo, nem para o equipamento bélico alienígena. O foco de suas histórias eram a situação e os personagens.

 Para Wells, a interpretação humana das situações vividas era mais importante que a tecnologia em si. Este pensamento deu início à outra vertente do sci-fi, a soft science fiction.

 Pouquíssimos autores de ficção científica conseguiam se sustentar apenas com a escrita, nesta época. E mesmo os mais conhecidos, que conseguiam ter publicações traduzidas para outras línguas, não eram vistos com muito respeito. O trabalho de Júlio Verne era convertido em livros infantis, nas traduções.

 O que a ficção científica precisava era de uma forma de se conectar ao público leitor, um caminho que a publicação tradicional não estava percorrendo.

 Na próxima parte, exploraremos a era em que isto se tornou realidade. A era das Ficções de Polpa!

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