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Na virada do século, surgiu uma nova alternativa para os autores iniciantes lançarem seus trabalhos. Embora revistas de contos já existissem, eram fechadas para gêneros que se distanciavam da “literatura clássica”, mas as ficções de polpa aceitavam os trabalhos mais variados. Muitos dos contos eram Faroeste, Fantasia, Horror e, claro, Ficção Científica. Essa liberdade foi uma benção para escritores iniciantes cujas ideias ainda eram estranhas demais para o mercado editorial da época.

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Ficções de polpa variadas.

 As revistas eram feitas de polpa de celulose, um refugo da fabricação formal de livros. Apresentavam qualidade de impressão inferior, o que barateava a produção. Pelo seu menor custo e capas chocantes, as quais geralmente apresentavam donzelas seminuas nas garras de seres monstruosos, atraíram o público jovem.  Logo, a qualidade inferior e as capas apelativas tornaram senso comum de que o conteúdo dessas revistas seria igualmente fajuto. Não poderia ser mais errado.

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Capas apelativas. Foram muito fáceis de achar.

 Primeiro, elas foram pioneiras na criação de espaço para a interação com fãs, com suas sessões de “cartas ao editor”. Também proporcionaram comunicação entre leitores, escritores e os editores, criando um grupo de indivíduos com ideias em comum.

 Um dos autores do começo dessa era foi Edgar Rice Burroughs, conhecido pela criação de Tarzan. O seu início se teve nas histórias serializadas, depois foram convertidas em volume único, em Uma Princesa de Marte. Nela, Burroughs narra a história de John Carter, soldado, em suas aventuras por Marte. O foco das histórias ficava entre a aventura e a exploração, inspiradas pelos trabalhos de Verne, mas sem o mesmo foco tecnológico.

 Burroughs e seus contemporâneos usavam do pensamento expansionista estadunidense na época, junto com o formato de prosa europeia para contar histórias de heróis musculosos, desbravadores dos confins do espaço, que resgatavam donzelas indefesas de alienígenas que representavam estereótipos étnicos nem um pouco agradáveis para o leitor atual. Essa era a era do “romance planetário”, avô da Space Opera.

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Volume da Amazing Stories com John Carter na capa.

 As ficções de polpa encontraram nos Estados Unidos do início do séc. XX um terreno fértil, perfeito para o surgimento de novos gêneros literários. Alguns grupos de autores aproveitaram a deixa para seguir por caminhos mais sombrios.

WEIRD TALES

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Capa da Weird Tales ilustrando conto de Robert E. Howard.

 A maioria dos autores daquela época olhava para o céu noturno e imaginava as maravilhas que podiam se esconder entre as estrelas. Um olhou para a noite e só viu o Horror do abismo. Era H. P. Lovecraft.

 Howard Philips Lovecraft era um rapaz de poucos amigos que preferia os livros à vida atribulada do início do século XX. Uma leitura que chamou sua atenção foi a revista de polpa Weird Tales, que, em seu começo, publicava de tudo, de Faroeste e contos Policiais, aos contos de Horror — o foco da atenção dele.

 Acontece que o editor da época tinha boas intenções, e queria trazer as melhores histórias que não se encaixavam em outras revistas, mas pouco conhecia sobre ficção de polpa e o gosto do público.

 Certo dia, esse editor recebeu, por correio, um documento contendo cinco contos de Horror inéditos, por um autor que ele nunca havia ouvido falar, e uma carta explicando que as histórias deveriam ser publicadas exatamente da forma que apareciam ali, assim como chamando o Horror publicado pela revista até então de, no mínimo, fraco. (Conselho: nunca façam isso.)

 De alguma forma, o editor gostou do conto intitulado Dagon. Assim, o primeiro trabalho de Lovecraft foi publicado.

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Lovecraft e Chtulhu.

 Acontece que as histórias dele eram completamente diferentes da forma que a maioria dos escritores retratava o espaço até então. Primeiro, ele não cresceu lendo Verne e Wells, mas Edgar Allan Poe. Segundo, porque a ideia de existirem formas de vida desconhecidas no universo o perturbava.

 E se nós, pequenos seres habitantes de uma rocha que orbita uma estrela, estivermos considerando nossa posição no cosmos de forma totalmente errada? E se o espaço for lar de seres horríveis, colossais, cuja existência é incompreensível por nossas meras mentes, seres que nos consideram tão relevantes quanto micróbios em uma pedra?

 A ideia de que a realidade pode ser um acaso, uma mentira que nos protege da verdade nociva e brutal do que é externo, deu origem ao gênero do horror cósmico.

 Lovecraft tornou-se um nome regular nas edições da Weird Tales, e passou a se comunicar com outros autores e fãs da revista, espalhando suas entidades malignas por todo o imaginário da época. Por fim, ele conectaria muitos de seus contos dentro do mesmo universo, dando origem ao Cthulhu Mythos, nomeado a partir de seu conto O Chamado de Cthulhu.

 Claro, para o leitor contemporâneo, a prosa de Lovecraft pode parecer monótona ou entediante, além de o autor, em seus momentos mais racistas, chegar a ser doloroso de ler, mas muito do Horror de hoje e dos alienígenas não-humanoides do Sci-Fi posterior devem inspiração aos trabalhos dele.

 Ao mesmo tempo que mais e mais tentáculos apareciam nas capas da Weird Tales, outro escritor trouxe uma visão diferente à revista. Robert E. Howard levaria a aventura de outrora à caminhos mais viscerais.

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 Depressivo e com uma mãe doente para cuidar, vivendo numa cidadezinha decadente no interior do Texas, Howard escrevia como forma de escape e para complementar a renda. Num curto período de tempo, ele deixou uma herança que influencia Fantasia, Sci-Fi e aventura em geral até hoje, especialmente com o título de Conan, o Bárbaro.

 Ele trouxe a ação e a violência do combate corpo-a-corpo de forma que ainda não havia sido explorada antes. Retratava seus protagonistas não só como hábeis guerreiros, mas  como indivíduos capazes de usar a inteligência e a argúcia para sair de situações difíceis. Seu trabalho foi o começo do gênero de espada e feitiçaria, um dos principais veios da Fantasia atual.

 Infelizmente, com a recessão causada pela Quebra da Bolsa de Nova York e as mortes prematuras de ambos autores, Weird Tales perdeu seu pódio entre as ficções de polpa. Entretanto, a era das revistas estava longe do fim.

ENQUANTO ISSO, NO CINEMA…

 Com o advento do surgimento dos cinemas, filmes capazes de mostrar os efeitos especiais mais fantásticos lotavam salas de exibição. Assim, a Ficção Científica virou um gênero popular logo no começo. O primeiro filme Sci-Fi que se tem notícia foi Viagem à Lua, de 1902, e continua muito presente na mente de estudiosos da sétima arte.

 Por volta dos anos 20, os efeitos se tornaram ainda melhores. Dessa forma, o livro de Sir Arthur Conan Doyle foi adaptado no filme O Mundo Perdido em 1925, usando a técnica de animação stop motion, para trazer os dinossauros à vida.

 Mas um marco deste período foi Metropolis (1927), de Fritz Lang. O filme trazia para as telas não somente uma interpretação surpreendente de uma cidade futurista, a qual depois influenciaria filmes como Blade Runner, mas uma  história complexa sobre a disparidade entre a classe operária e os magnatas no poder, sendo uma Ficção Distópica antes de seu tempo. Outro marco de Metropolis foi o de ser um dos primeiros filmes a representar um robô humanoide capaz de pensar e conspirar. Mas não era o que as audiências queriam. As idas ao cinema na época eram para ser divertidas, sendo dinossauros e naves preferidos, ao invés de críticas sobre a sociedade. Metropolis só foi redescoberto tempos depois; devido ao esquecimento, parte do filme perdeu-se para sempre.

 

A ERA DOURADA DA FICÇÃO CIENTÍFICA

 No final dos anos 30, John W. Campbell (aquele que podia dizer o que era ou não era Sci-Fi) tornou-se editor da revista de polpa Astounding Science Fiction. Formado em física, Campbell levava a Ficção Científica muito a sério. Só publicava histórias de qualidade, que explorassem não somente a ciência da época, mas, sobretudo, a psicologia humana.

 Seu preciosismo deu frutos, já que a Astounding Science Fiction tornou-se referência entre as ficções de polpa. Também é atribuída a ele a criação do termo “Scientifiction”, que depois foi transformado em Science Fiction. Eis que, finalmente, o gênero ganha um nome.

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Astounding Science Fiction trazendo conto de Asimov na capa.

 Ao fim da Segunda Guerra Mundial, houve um boom de novos autores de ficção científica ansiosos para alcançar o público das revistas de polpa. Esta leva trouxe os nomes de Robert Heinlein, A. E. Van Vogt, Theodore Sturgeon e, claro, de Isaac Asimov.

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Isaac Asimov.

 É difícil dizer tudo que Isaac Asimov fez pela Ficção Científica e pelas projeções futuristas. Apesar disso, segue um breve resumo.

 Asimov estava cansado dos clichês e tramas pouco criativas que lotavam as montanhas de ficções de polpa que haviam aparecido nos últimos anos. Dessa maneira, escolheu subvertê-las sempre que pôde. Por exemplo, até ali, robôs e autômatos costumavam ser representados como um marco da ciência indo longe demais, humanóides frios e calculistas que matavam humanos sem demonstrar remorso. Essa tendência provavelmente começou lá atrás, com a criatura de Frankenstein.

 Em resposta, Asimov escreve Eu, Robô, uma coleção de histórias curtas sobre robôs. Neste livro, ele formulou, com ajuda de Campbell, “As Três Leis da Robótica”, as quais impediriam uma máquina de se revoltar contra humanos. Elas são:

  1. Um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal;
  2. Os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei;
  3. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

 Tais leis tornavam a existência de um “robô assassino” impossível, o que obrigou Asimov a buscar outras possibilidades narrativas das máquinas inteligentes.

Também é de Asimov a série A Fundação, em que um império intergaláctico, preparando-se para uma crise iminente, toma as precauções necessárias para manter a civilização em dois pontos distintos da galáxia. Sua resolução de problemas favorece a lógica e a inteligência acima da força física, tornando os resultados mais impressionantes e realistas.

 Mas, ao mesmo tempo que Asimov trazia suas histórias interplanetárias, outra ideia se espalhou pelo mundo: o espelho negro que reflete o que há de mal na humanidade.

 DISTOPIAS

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 Em 1931, Aldous Huxley escreveu Admirável Mundo Novo, obra que apresenta uma sociedade tão automatizada, que pessoas são pouco mais que engrenagens na máquina do progresso. Elas não protestam: são controladas por drogas, TV e sexo; mantêm-se confortáveis.

Huxley baseou sua obra nas linhas industriais fordistas, em que cada funcionário desempenha apenas uma função. É incrível que, embora com quase noventa anos, o livro continua atual. Porém, na sua época, ainda era um pouco distante. Outro autor trouxe a Distopia bem mais perto do imaginário então vigente.

 George Orwell escreveu, em 1948, a obra intitulada de 1984, o romance distópico mais presente no imaginário popular até hoje. O Estado Absoluto é vigiado 24 horas pelo Grande Irmão, em que não se pode sequer pensar em algo contra o governo, nem se lembrar do que havia antes de sua instauração. Até mesmo a língua falada é alterada para dificultar a comunicação. Este cenário ressonava com as pessoas que sobreviveram ao Fascismo e também com as que fugiam da então continental União Soviética.

 Outra consequência do Fascismo foi a queima de obras de arte e livros históricos. Ray Bradbury não teve medo de explorá-la com a sua obra Fahrenheit 451. O governo opressivo está determinado a destruir todo material escrito, como forma de repressão ao livre pensamento. A maneira através da qual as pessoas tentam resgatar esses conhecimentos e os riscos que elas correm é a trama central do livro.

 Assim, para uma era de horrores contra a humanidade, futuros sombrios se projetam nas páginas.

ENQUANTO ISSO, NO CINEMA…

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 Da mesma forma que histórias das mais variadas qualidades lotaram o mercado das ficções de polpa, com os cinemas dos anos 50 não foi diferente.

 Filmes de monstros, alienígenas e monstros versus alienígenas atacaram as salas de exibição. Muitos ruins, esquecíveis ou ruins a ponto de serem bons.  Os efeitos especiais ainda ganhavam mais espaço do que as histórias de qualidade, mas, felizmente, essa era também trouxe suas joias.

 Alguns filmes que podem ser citados são O Dia em que a Terra Parou (1957), sobre um alienígena vindo à Terra para alertar que armas nucleares deveriam parar de ser produzidas, somente para o governo o atacar no momento em que ele pisa em terra firme; Os Invasores de Corpos (1956), sobre aliens substituindo humanos no subúrbio americano, numa lenta invasão satirizando o pânico comunista da Guerra Fria; a versão cinematográfica de Guerra dos Mundos (1953); O Planeta Proibido (1956); e Godzilla (1954). Quê? Mas filmes de monstros não eram os ruins da década? Bem, quando se considera que o monstro crido pela radiação, de um filme japonês, destrói cidades inteiras e é impossível de ser parado por armas convencionais, fica um pouco curioso seu lançamento ser meros anos após o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki.

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 Durante o final dos anos 50 e começo dos 60, as televisões pegaram fôlego nos EUA, bem como a seleção de programas no ar. Aqui, começaram as séries de Sci-Fi, dentre as quais podemos destacar Além da Imaginação (1959 – 1964), Perdidos no Espaço (1965 – 1968) e Doctor Who (1963 – 1989, filme de 1996, 2005 – atualmente).

 Continuem ligados na história da Ficção Científica. Na próxima parte exploraremos a queda da Era Dourada e suas consequências!

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