Tão comum quanto se deparar com pessoas atribuindo Star Wars à ficção científica, é encontrar quem defenda, com entusiasmo ainda maior, que o universo criado pelo diretor George Lucas não se enquadra nesse gênero. Mas como isso seria possível? E quanto a todas as coisas futuristas como as naves espaciais, armas lasers, e sabres de luz? Bem, talvez você não saiba, mas há até mesmo quem defenda que Guerra nas Estrelas não passa de uma fantasia.

Sendo assim, resolvi dar minha opinião sobre esse assunto. Você pode concordar ou não. Sem problemas. Minha intenção real é usar toda essa controvérsia para debater as sutilezas de cada tipo de gênero. Portanto, vamos começar com uma subcategoria do Sci-Fi, a chamada space opera.

O que é space opera?

Esse termo surgiu em 1941 e nessa época a ficção científica estava em alta, com muitas obras sendo largamente produzidas para a TV, rádio, livros e etc. O autor Wilson Tucker cunhou esse termo com o intuito de distinguir uma parte dessas obras recheadas de clichês e que tinham uma qualidade duvidosa. Assim sendo, a space opera surgiu com uma conotação pejorativa. A verdade é que esse subgênero durante muito tempo teve uma recepção negativa por parte dos críticos.

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Dois volumes da Amazing Stories com ambientações dramáticas comuns em space operas.

 

As obras nesse estilo costumam retratar viagens pelo espaço, batalhas entre naves espaciais, corporações poderosas como impérios que dominam galáxias inteiras, além de tecnologias e armas muito avançadas, capazes até mesmo de destruir planetas. Aqui a vida alienígena é quase sempre a regra e não a exceção. Os planetas habitáveis são bem comuns e fortemente baseados na Terra, apesar de possuir características exóticas. Também é comum serem habitados por alienígenas humanóides (é possível haver uma alienígena bonitona entre eles) que podem possuir tecnologias avançadas ou não, mas que, comumente, falam o mesmo idioma dos protagonistas.

Outras características bem comuns são os heróis de caráter incorruptível e bravura inabalável, os gênios do mal cujo passatempo é oprimir ou escravizar raças menos desenvolvidas, além de muita liberdade criativa, chegando até mesmo a incluir magia nos enredos.

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Uma das imagens conceituais de Guerra nas Estrelas!

É perceptível que a space opera surgiu da ficção científica. O fato da FC ser muitas vezes um exercício imaginativo de conceber a ciência e a vida das pessoas do amanhã, abriu as portas para que os autores começassem a pensar em épocas longínquas no futuro, quando a humanidade já se espalhou pelo espaço, descobrindo planetas habitáveis e vida alienígena. No entanto, se hoje em dia ainda não sabemos tanto sobre exoplanetas distantes e tudo mais, imagine naquela época, muito antes sequer do homem pisar na lua! É claro que esses autores preencheram essas lacunas com a própria imaginação ou muitas vezes não se preocuparam com algum rigor científico. Isso torna a space opera um estilo cheio de licenças poéticas, algumas que vão até contra as leis básicas da física como o fato de naves espaciais conseguirem viajar mais rápido do que a velocidade da luz ou de não precisarem passar pelo tedioso processo de desaceleração para estacionarem. E é exatamente graças a esse certo distanciamento científico, que aproxima muito mais a space opera da fantasia, que os críticos torcem o nariz para esse subgênero. Eles entendem que o Sci-Fi tem um cerne totalmente diferente, conferindo a ele um status muito mais intelectualizado que ao seu subgênero.

A Essência da Ficção Científica

A ficção científica, também conhecida como literatura das ideias, pode ser definida como um gênero que explora o avanço da ciência ou do conhecimento, além do impacto que isso causa a sociedade e ao comportamento dos indivíduos. É comum o Sci-Fi trazer intrinsecamente uma lição de moral ou reflexão em seu enredo como, por exemplo, uma crítica à uma nova tecnologia, aos seus efeitos nas pessoas ou ao uso dela de maneira irresponsável. As possibilidades são inúmeras. Desde distopias como Fahrenheit 451 que, entre seus temas, trata da alienação das pessoas com a destruição de livros e modernização das TVs até histórias cômicas como a do Guia do Mochileiro das Galáxias na qual a descoberta de um universo espacial muito além da Terra cheio de lugares e seres diferentes levam o leitor a refletir sobre a vida, o universo e tudo mais.

A FC pode tratar de tecnologias e ciências reais ou imaginárias e fazer uso da Suspensão de descrença, na qual o leitor ou telespectador aceita certas premissas, mesmo que elas sejam impossíveis ou contraditórias. Ainda assim, “Para ser ficção científica, e não fantasia, um esforço honesto de extrapolação profética do conhecido deve ser feito.” Assim, John W. Campbell, importante escritor do Sci-fi, diferenciou seu gênero favorito da Fantasia. Portanto, algo científico precisa estar ali, mesmo quando o enredo não faz uso de uma reflexão. Como dito, a história precisa depender de alguma extrapolação profética do conhecimento para existir.

Se você quiser saber mais a respeito da ficção científica, temos uma série de artigos só sobre esse tema aqui!

Voltando à Guerra nas Estrelas

Tendo todos esses conceitos em mente, é fácil perceber que Star Wars se trata de uma space opera. Mas será que isso também inclui seus longas na categoria de Sci-fi? Os filmes da família Skywalker não têm a menor pretensão de tratar de ciência ou refletir sobre questões relacionadas ao avanço tecnológico ou do conhecimento.

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Apesar da roupagem futurista e espacial, recheada de dróides e aliens, a história de Guerra nas Estrelas se relaciona superficialmente com eles, de modo que a sua existência não parece importante para a trama. No mais, algo estético. Não há qualquer fator científico que gere um conflito ou seja fundamental para o enredo acontecer de verdade.

O mesmo não pode ser dito, por exemplo, de Guerra dos Mundos, pois aqui os marcianos usam sua tecnologia mais avançada para dizimar os humanos. Guerra dos Mundos soou como um alerta real em sua época sobre o perigo do que pode vir lá de cima. E por que seria diferente? Uma raça alienígena mais desenvolvida facilmente tenderia a ter a mesma atitude hostil com uma mais atrasada que os povos humanos tecnologicamente mais fortes tiveram ao longo da história contra os povos mais fracos. E, além disso, Guerra dos Mundos leva a batalha para uma escala imunológica na qual as bactérias exercem o papel de defender a Terra com muito mais êxito do que nós. Aqui, a ciência é fundamental para a trama.

Outro exemplo é Blade Runner. Um grupo de replicantes, que são indivíduos artificiais criados para servir os humanos, buscam uma forma de aumentar suas breves vidas e evitar a morte iminente, e, em sua jornada, levam o telespectador a se questionar sobre o que faz um ser humano ser o que é. O que diferencia essencialmente uma pessoa natural de uma artificial se ambas pensam e sentem?  E qual a responsabilidade dos criadores para com suas criaturas? Mas uma vez, a ciência é fundamental aqui e outa vez a trama nos traz questionamentos e reflexões acerca do que somos agora ou de como estaremos no futuro.

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Como já dito, a roupagem futurística e espacial dos filmes de George Lucas servem mais como algo estético do que essencial para a obra. Bem diferente dos dois exemplos acima, cujos enredos não seriam possíveis sem a ciência. Os que defendem que exista mais relação entre Star Wars e a fantasia do que com o Sci-Fi, costumam se apegar a isso. E, como exemplo, eles dizem que os filmes poderiam se passar em um mundo medieval sem grandes perdas. A Força, por exemplo, já é na prática uma forma de magia com a qual os cavaleiros jedi e os sith podem controlar mentes fracas, mover objetos no ar, e no caso dos sith, desferir raios com mãos. Haveria também o lorde das trevas e Darth Vader, seu cavaleiro negro, espadas mágicas que seriam os sabres de luz, a estrela da morte que poderia ser substituída por uma criatura ou artefato mágico com poderes de destruição descomunais e até as naves espaciais poderiam ser substituídas por outro meio de transporte em outro cenário. Trocado todas essas coisas, ainda teríamos a história do jovem idílico cujo destino é se tornar um cavaleiro jedi, ajudar a derrotar o poderoso Império e enfrentar o próprio pai que caiu para o lado negro da Força. E falando em lado negro, temos ainda o conflito central maniqueísta entre a luz e as trevas tão comum no gênero da fantasia como último exemplo.

Conclusão

Apesar de tudo isso, na minha opinião, Guerra nas Estrelas não pode ser considerada somente como uma Fantasia. Mesmo não tendo a essência da ficção científica, as principais características da space opera compõem indiscutivelmente os filmes de Vader e companhia. Considero que a franquia se enquadram muito bem nesse subgênero e que não há o que discutir aqui.

Por fim, não acho que Star Wars precise ser um Sci-Fi, ter uma lição de moral ou uma reflexão filosófica para ser admitido como uma boa história. Basta entreter e ser divertido. Até hoje, a tentativa dos prequels de criar uma explicação científica para o poder dos jedi é tema de enorme descontentamento entre os fãs. Os midi-chlorians, organismos microscópicos que vivem nas células e, ao serem aferidos, indicavam a sensibilidade do indivíduo com a Força, serviram apenas para tirar um pouco do encanto sobre o poder jedi criado na trilogia clássica. No fim das contas, Star Wars é maravilhoso por ser exatamente o que é e isso basta.

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Que a Força esteja com você!

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