Esta é a última parte do artigo sobre a história da ficção científica. Você pode conferir as outras duas aqui e aqui.


 A Era Dourada foi o primeiro momento em que autores de ficção científica conseguiram viver integralmente da escrita. Como alguns títulos foram aceitos como “literatura de verdade” pelos críticos, e com a venda das polpas em alta, ter algo publicado numa Amazing Stories ou na Astounding Science Fiction era a chave para o sucesso. Tanto era, na verdade, que pequenas editoras especializadas passaram a publicar almanaques de histórias já publicadas de autores consagrados. Porém, houve um problema.

 Com tantos autores querendo o seu lugar ao sol, a qualidade das revistas de polpa variava muito, logo cada exemplar era uma caixinha de surpresas. Mas os almanaques com certeza seriam bons, afinal, eram as melhores histórias de nomes como Isaac Asimov e H. P. Lovecraft! Como resultado dos almanaques, as vendas das revistas de polpa caíram tanto que todos os títulos menores logo saíram do mercado.

 Com o advento da televisão, até mesmo as revistas famosas caíram na irrelevância, e assim, para a maioria dos estudiosos, a Era Dourada acabou.

 Mas a ficção científica era forte demais para desaparecer assim.

UMA NOVA ONDA

 Nos anos 60, uma nova leva de autores olhou para trás e viu que, entre os destaques e quebras de paradigma que alguns autores da era das ficções de polpa criaram, haviam também muitas histórias genéricas, clichês, e space operas pouco fundamentadas com as quais eles não se identificavam.

 Eles estavam ávidos de algo novo, que representasse melhor seu tempo.

01_Dune

 Abrindo a nova era, em 1965 Frank Herbert estreou seu romance intitulado Duna. Ele conta a história de um império intergaláctico, mas seu foco não era em aventuras espaciais, e sim nos desafios políticos e delicadezas que um império massivo todo sustentado pela mesma commodity teria de enfrentar.

 Outros autores seguiram o foco neste aspecto mais humano do sci fi, um soft muito mais detalhado. Muitos dos autores da era das ficções de polpa continuaram escrevendo, atualizando-se para o novo estilo. Alguns nomes que surgiram aqui além de Herbert foram Ursula K. Le Guin, Arthur C. Clarke e Philip K. Dick.

02_Le Guin

 Não conformada em mudar apenas a história da fantasia com O Feiticeiro de Terramar, Úrsula K. Le Guin também explorou a ficção científica com títulos como A Mão Esquerda da Escuridão e Os Despossuídos, partes do Ciclo de Hainish.

 Em suas histórias, Le Guin usou os gêneros de ficção científica e fantasia para explorar dimensões sociológicas e psicológicas amplas. Por exemplo, em A Mão Esquerda da Escuridão, leitores são confrontados com uma raça alienígena que não são claramente machos nem fêmeas. O conceito nos leva a repensar como relacionamos identidade com os gêneros.

Ainda são poucas as obras de Le Guin a chegarem ao Brasil, mas com tantos autores contemporâneos a citando como uma de suas maiores influências, não tardará para mais títulos aparecerem.

03_C Clarke

 Embora ativo desde a era das ficções de polpa, foi nos anos 60 que as ideias de Arthur C. Clarke começaram a se destacar.

 Clarke tinha uma visão otimista do futuro e encorajava a exploração espacial. Seu principal tema envolve a ideia que a evolução contínua de uma espécie inteligente seria capaz de eleva-la à posição de deuses, eventualmente. Seu livro O Fim da Infância explora tal tema a fundo, assim como sua obra mais conhecida: sua colaboração cinematográfica com Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço.

04_K Dick

 Da sua estranheza e inconstância, Philip K. Dick conseguiu extrair visões de mundo ainda não exploradas anteriormente. Drogas, androides e história alternativa foram algumas das ideias que ele usou para estruturar o surreal e quebrar o conceito de realidade.

 Os livros de K. Dick trazem a suposição de que não existe uma única realidade objetiva, e sim que tudo é uma questão de percepção. Por exemplo, em Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? (vulgo Blade Runner) ele trabalha a questão do que realmente faz um ser humano autêntico.

 Outras obras dele que podem ser citadas são O Homem do Castelo Alto e O Homem Duplo, a paranoia sempre presente.

 Mas as obras dele não eram tão reconhecidas quanto os nomes anteriores, pelo menos não ainda. Sua fama só veio depois…

 FICÇÃO CIENTÍFICA NA TV E NO CINEMA

 Como vimos antes, durante os anos 60, surgiram alguns marcos da ficção científica na televisão. Mas houve um que não podemos deixar de mencionar, tanto por sua importância cultural quanto histórica: Jornada nas Estrelas.

05_Star Trek 1

 A série original, lançada entre 1966 e 1969, foi idealizada por Gene Roddenberry como forma de discutir problemas sociais da época (racismo, preconceito, a tensão da Guerra Fria) sem ser agressivo, assim podendo abrir a mente das pessoas sem chocá-las.

 A vendendo como um faroeste espacial, Roddenberry conseguiu coloca-la no ar, mas o primeiro ano do show não surpreendeu em audiência. Quando o canal ameaçou cancelar a série, algo inesperado aconteceu: milhares de correspondências, cartas do fã clube organizado de Jornada nas Estrelas, pedindo para que a série continuasse.

 Essa adoração dos fãs não era comum até então, e o “fandom” de Star Trek criou muito do que hoje é comum dentro de comunidades nerd. Por exemplo, já existia a comunicação entre fãs e autor, e inclusive trabalhos de colaboração, como as que Lovecraft fazia, expandindo o seu Mythos junto de ávidos leitores, mas é só na época de Jornada nas Estrelas que começam a aparecer as fanfictions, trabalhos escritos por fãs usando o universo da franquia, que naquela época costumavam ser publicados em zines.

 Mesmo após o cancelamento da série original em 69, a comunidade criada ao redor somente se fortaleceu com as reprises durante os anos 70, e o interesse deu fôlego para nova iterações e spin offs da série, incluindo muitos filmes, e o fandom continua se mantendo firme e forte.

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 Enquanto no cinema… Bem, os anos 70 foram um pouco lentos. Alguns filmes bons foram lançados aqui, na maioria adaptados de trabalhos anteriores, como Laranja Mecânica e as sequências de Planeta dos Macacos. O foco da época estava nas distopias. Alguns outros títulos foram Fuga no Século 23 (Logan’s Run), No mundo de 2020 (Soylent Green), A Última Esperança da Terra (The Omega Man), e um pequeno filme experimental chamado THX 1138.

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Da esquerda para a direita: Fuga no Século 23 (Logan’s Run), No mundo de 2020 (Soylent Green), A Última Esperança da Terra (The Omega Man) e THX 1138.

 O diretor deste último sempre quis trazer a ficção científica para as telonas, mas suas ideias eram sempre rejeitadas pelos estúdios. Com os anos 80 chegando junto com os lançamentos de Spielberg, criou-se a expectativa de filmes blockbusters serem lançados no verão. Com isso, ele pode finalmente levar a saga de seus sonhos para as telas: Star Wars.

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 Guerra nas Estrelas é a curiosa concentração de todo o sci fi produzido antes dele próprio. Adicione também faroeste e filmes de samurai, e George Lucas encontrou o equilíbrio entre todos os seus interesses em formato de filme.

 O mais interessante da franquia é que ela trouxe a ficção científica para as massas e para o público infantil.  Sempre houve espaço para o sci fi, um nicho com público fiel, mas para o geral, ainda era visto como algo muito imaturo para adultos e muito vulgar para crianças, caindo no rótulo de ficção para adolescentes.  Pode se dizer que essa abertura e valorização do universo nerd que vivemos hoje começou com Star Wars lá nos anos 80. Lucas provou que o sci fi era capaz de criar blockbusters.

 Mas havia ainda uma peça sombria faltando para completar a presença cinematográfica da ficção científica. Um filme com a simples premissa de entregadores espaciais que respondem à um pedido de ajuda, e acabam nas garras de um alienígena terrível. Alien deve muito às ideias do artista H. R. Giger, responsável pelo monstro e pela maioria dos visuais do primeiro filme. O estilo orgânico assombroso permeou os anos 80, e tornou o horror cósmico relevante novamente.

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 Considerando tudo isso, vemos o sci fi conquistar o cinema e o seu lugar no pensamento coletivo. Mas o que acontecia no universo literário dos anos 70 e 80?

CYBERPUNK

 A nova onda ainda era forte durante este período, mas havia um pequeno grupo de autores que liam tais textos e não se identificavam com aquilo. Eram sempre tão distantes, séculos no futuro ou em outros planetas. Esses autores queriam saber o que iria acontecer dali a cinquenta anos, ou até menos.

 Há de se lembrar que é durante as décadas de 70 e 80 em que os computadores deixaram de ser equipamentos militares ou de laboratório e a possibilidade de ter um computador pessoal surgiu. Um salto enorme para a tecnologia, a qual poucas pessoas compreendiam o funcionamento e ninguém seria capaz de prever as mudanças que traria nas próximas décadas. De repente, para questionar as relações entre homem e máquina, ciência e ética, não era necessário criar situações hipotéticas num futuro distante, apenas extrapolar um pouco a tecnologia do agora.

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Exemplo de cenário cyberpunk. Não fui capaz de encontrar o autor da imagem.

 Usando de elementos noir e finalmente resgatando as alucinações elétricas de Philip K. Dick, autores como William Gibson e Bruce Sterling criaram cenários de “vida baixa, alta tecnologia”, com personagens marginalizados pela sociedade usando os recursos tecnológicos disponíveis para sobreviverem. Este era o mundo dos cyberpunks.

 Com seu romance de estreia Neuromancer, Gibson criou um novo cenário para a ficção científica, algo que já havia sido explorado anteriormente, mas nunca de forma tão profunda: as megalópoles lotadas, onde é possível viver como um rei ou morrer nas ruas; a mistura das culturas orientais e ocidentais; o consumo de drogas e modificações corporais; e o ambiente do ciberespaço. Na verdade, essa última palavra também foi criada por Gibson.

 O advento do cyberpunk mudou tanto nossa percepção do futuro quanto nossas expectativas para com ele. O que deveríamos fazer para não acabarmos todos vivendo em lugares feito Cidade Murada de Kowloon?

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Não era um lugar bom de morar.

 Japoneses logo aderiram à temática, e diversos trabalhos orientais tornaram-se marcos do gênero, com alguns destaques como Akira e Ghost In a Shell.

 Mas os autores ainda tinham outros caminhos a explorar. Gibson e Sterling colaboraram na escrita de um livro intitulado A Máquina Diferencial, em que usava o cenário do século IXX para discutir temas similares aos explorados no cyberpunk. Com muita pesquisa histórica e alguma inspiração nos pioneiros da ficção científica, eles desenvolveram uma das primeiras histórias do que acabou se chamando de steampunk.

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Que virou um gênero por si só.

 O cyberpunk continuou se expandindo, e nos anos 90 Matrix trouxe seus conceitos à luz do mainstream.

 O CONTEMPORÂNEO

 Nos dias de hoje, é possível encontrar sci fi nos estilos mais diversos, que fazem referências à todos os períodos anteriores. Ainda assim, distopias e críticas à nossa realidade são alguns dos temas favoritos, vendo que as obras de Orwell e Huxley retomam popularidade, e a série Black Mirror faz as piores extrapolações possíveis das nossas tecnologias atuais. O cyberpunk, afinal, conseguiu fazer as pessoas se interessarem no que está próximo.

  Os filmes “sérios” de sci fi ainda assemelham-se aos trabalhos da nova onda, com a exploração espacial e as consequências humanas e sociológicas ainda em alta, representada em filmes como Perdido em Marte, A Chegada e Interestelar.

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Da esquerda para direita: Perdido em Marte (The Martian), A Chegada (Arrival) e Interestelar (Interstellar).

 Mas o melhor de nosso momento atual é que não há limites para a informação: Dos precursores e pioneiros à nova onda e o cyberpunk, todas as obras estão ao nosso alcance para ler e desfrutar.

 Esta foi uma breve história da ficção científica. Cada era tem muito mais a oferecer e a ser explorado do que foi documentado aqui, então se você se interessa por sci fi, aprofunde-se no que mais te fascina!

 Já para aqueles que não eram familiares com a ficção científica, espero que tenham encontrado aqui algumas dicas legais de filmes e leituras.

 Encerro esta minha jornada deixando para vocês um mapa das influências da ficção científica (em inglês). Espero que gostem e até a próxima!

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HistSciFi2
Infográfico pelo artista Ward Shelley. Clique na imagem para ampliar.

REFERÊNCIAS:

COOPER, Quentin. Why is Science Fiction so hard to define? BBC Future, 30/07/2014. Mais informações: http://www.bbc.com/future/story/20140729-what-is-and-isnt-sci-fi Último acesso em 09/08/18.

EDWARDS, Caroline. Writing the future: A timeline of science fiction literature. BBC, 2013. Mais informações: https://www.bbc.com/timelines/zp7dwmn Último acesso em 09/08/18.

GRAMUGLIA, Anthony. History of Science Fiction Part I. Futurism, Julho de 2017. Mais informações: https://futurism.media/history-of-science-fiction-part-i Último acesso em 09/08/18.

GRAMUGLIA, Anthony. History of Science Fiction Part II. Futurism, Julho de 2017. Mais informações: https://futurism.media/history-of-science-fiction-part-ii Último acesso em 09/08/18.

GRAMUGLIA, Anthony. History of Science Fiction Part III. Futurism, Julho de 2017. Mais informações: https://futurism.media/history-of-science-fiction-part-iii Último acesso em 09/08/18.

FUSCO, Cláudia. “A Verdadeira História Da Ficção Científica”, de Adam Roberts: a FC como um mapa para a humanidade. MEDIUM, Grupo Editorial Pensamento, 21/05/2018. Mais informações: https://medium.com/@grupopensamento/a-verdadeira-hist%C3%B3ria-da-fic%C3%A7%C3%A3o-cient%C3%ADfica-de-adam-roberts-a-fc-como-um-mapa-para-a-humanidade-13dd792635e0 Último acesso em 09/08/18.

OLDER, Malka. Optimism and Access: The Line Between Cyberpunk and Post-Cyberpunk. Tor.com, 08/06/2016. Mais informações: https://www.tor.com/2016/06/08/optimism-and-access-the-line-between-cyberpunk-and-post-cyberpunk/ Último acesso em 09/08/18.

STERLING, Bruce. Science Fiction | Definiton, Examples, & Characteristics. Encyclopedia Britannica. Mais informações: https://www.britannica.com/art/science-fiction Último acesso em 09/08/18.

WHEELER, Isaac L. Cyberpunk, Post-Cyberpunk, And The Maturing Of A Genre. Neon Dystopia, 11/04/2016. Mais informações: https://www.neondystopia.com/cyberpunk-politics-philosophy/cyberpunk-post-cyberpunk-and-the-maturing-of-a-genre/ Último acesso em 09/08/18.


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