“O céu sobre o porto tinha cor de televisão num canal fora do ar.”

  Neuromancer se trata do primeiro livro da Trilogia do Sprawl, seguido por Count Zero e Mona Lisa Overdrive. Também é o primeiro livro que William Gibson publicou.

  Antes dele, Gibson publicou diversos contos de ficção científica em revistas, incluindo Jhonny Mnemônico, Hotel New Rose e Queimando Cromo, que fazem parte do mesmo universo da Trilogia.

 Este livro é um clássico do cyberpunk, e influenciou muita, MUITA, coisa dentro do tema. Alguns exemplos de sua influência são o manga e anime Ghost In a Shell e, o provavelmente mais famoso, Matrix (…que também foi inspirado por Ghost In a Shell). A palavra “ciberespaço” também tem sua origem nos trabalhos de Gibson.

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Gibson temia que as pessoas achassem seu trabalho uma cópia de Blade Runner, lançado dois anos antes. O mundo da trilogia havia sido criado antes da estreia do filme.

 A história se passa num futuro distante do 1984 em que o livro foi publicado. Embora eventos históricos não sejam detalhados no decorrer da obra, dá para perceber que os países e governos perderam a força após uma grande guerra, e quem manda no mundo são as megacorporações. Pela costa leste do antigo Estados Unidos, formou-se uma megacidade conhecida formalmente como o Eixo Metropolitano Boston-Atlanta, e informalmente como Sprawl (algo como “expansão incontrolada”, em português).

 Quem protagoniza a história é Case, um cowboy do ciberespaço (vulgo hacker), que usava seus dons de infiltração em trabalhos criminosos para quem pagasse mais. Porém, quando ele foi pego roubando dinheiro do patrão, foi castigado com uma dose altíssima de drogas alucinógenas que danificaram parte de seu sistema nervoso. O estrago o impedia de acessar o ciberespaço e realizar qualquer outro trabalho.

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 Gastando todo o dinheiro que conseguiu com os roubos, Case foi ao Japão em busca de uma cura, sem sucesso. O livro começa assim, com ele afundado nas drogas e na bebida, cometendo roubos comuns por qualquer trocado, correndo pelas ruas japonesas de Night City, entre as mais diversas pessoas que habitam o lugar. E, se o hacker continuasse no mesmo ritmo, a história acabaria dali a uma semana, no máximo. Mas a intervenção de Molly o salvou.

 A mulher, uma “samurai das ruas” com diversos implantes cibernéticos, disse que seu empregador tinha interesse em Case. A proposta é que ele teria a sua cura, contanto que cumprisse uma missão de infiltração extremamente difícil.

 Neuromancer é a história de um roubo do século, de uma missão impossível. O time unido pelo ex-militar Armitage é todo tão estranho e desequilibrado quanto o hacker, e a seleção é no mínimo curiosa. Por que Case, com quem teriam que gastar uma pequena fortuna em despesas médicas, quando existem tantos “cowboys do ciberespaço” com o mesmo nível de habilidade por todo o Sprawl? Afinal, para que eles estão fazendo tudo isso? E quem manda em Armitage? Essas e outras perguntas mantém a tensão por toda a obra.

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Da esquerda para a direita: Case, Molly e Armitage. Representação do artista Nathan Anderson.

 A equipe constitui de Case, o hacker; Molly, a “Razorgirl” com implantes que aumentam seus reflexos e lâminas afiadas debaixo das unhas; Armitage, o misterioso ex-militar americano que não dá explicações sobre a missão além do necessário; e Riviera, um criminoso internacional com implantes que o permite projetar alucinações coletivas.

A construção dos personagens não é muito profunda (com exceção da de Molly), mas o suficiente para se ter uma ideia sobre a personalidade de cada um. Dentro da equipe, existe receio entre os integrantes, até porque eles não são inteiramente informados sobre a missão dos outros, que gera um conflito interessante, mas não há muito trabalho em equipe.

“(…) Fique quieto. Não se mexa.
 E Ratz estava ali, e Linda Lee, Wage e Lonny Zone também, mil rostos da floresta de neon, marinheiros e marginais e putas, onde o céu é de prata envenenada, além das grades de metal e da prisão do crânio.
 Não se mexa o cacete.
  Onde o céu desaparecia passando de estática sibilante para a não cor da matrix, e ele vislumbrou num relance o shuriken, suas estrelas. (…)”

 O ambiente também pode ser considerado um personagem – A história não seria a mesma sem as tribos urbanas, suas linguagens e gírias, a claustrofobia das metrópoles lotadas, e o contraste delas com Freeside, uma Las Vegas em forma de estação espacial. Muito pouco da história parece acontecer em ambientes externos, como se houvesse uma cúpula acima de todas as ruas do Sprawl, em seu confinamento urbano escondendo qualquer resquício do horizonte.

 Outro local a ser mencionado é a realidade virtual do ciberespaço, um ambiente bem mais subjetivo, visualizado por Case por meio de equipamentos especiais durante suas infiltrações. Tem similaridades com os primeiros videogames e simulações 3D. Ali, o hacker está quase que completamente aquém do mundo real, mas confortável dentro de seu espaço e habilidade.

 Uma qualidade das cenas passadas ali é que torna o progresso do trabalho de Case mais fácil de visualizar. O trabalho de Molly é simples de entender, com as lutas e fugas, mas um hacker sentado na frente do um pc o tempo todo pode parecer não estar fazendo muita coisa. Mas quando ele literalmente quebra paredes de firewall dispostas na frente de seu campo de visão, percebe-se o seu trabalho.

O ciberespaço também é o local onde as cenas mais alucinadas da história ocorrem. Porém, em certos momentos, a sua interpretação é complicada pelo estilo dinâmico da escrita de Gibson, que em passagens foca em demonstrar diversas imagens estáticas, como que numa apresentação de slides.

“ ‘Ciberespaço. Uma alucinação consensual vivenciada diariamente por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças que estão aprendendo conceitos matemáticos… Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas no não-espaço da mente, aglomerados e constelações de dados. Como luzes de cidade, se afastando…’
– O que é isso? – Perguntou Molly quando ele girou o seletor de canais.
– Um showzinho para crianças. (…) ”

O dinamismo de Gibson cria muitas cenas fantásticas no início da obra – o passo acelerado de um filme de ação. Mas na mesma forma que nos “slides”, existem momentos que poderiam ser mais detalhados. O início do livro é fantástico, e se os capítulos finais tivessem mantido a qualidade dos primeiros, certamente seria um de meus livros favoritos. Porém o clímax deixa a desejar, e o desfecho é uma confusão.

 Claro, existem razões para isso. Até Neuromancer, William Gibson havia escrito apenas contos, e como o próprio disse em entrevista durante os anos 90, “sentia que faltavam uns quatro ou cinco anos para escrever um livro.” (tradução livre, referência abaixo). Outro ponto, também tomado na entrevista, é que Neuromancer foi uma comissão de uma revista de sci-fi, que o deu um ano para completar a história. O que o levou a terminá-la a tempo foi “pânico cego de um animal”. Ele revisou os primeiros dois terços uma dúzia de vezes, mas não teve tanto tempo para o fim. Porém, até mesmo este pânico de última hora dá uma nota especial à trama.

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 A edição da editora Aleph também conta com uma bela diagramação e ilustrações de capa e contracapa pelo artista espanhol Josan Gonzalez. Ele é especialista em um estilo cyberpunk próprio, como o da imagem acima.

 Enfim, para qualquer pessoa interessada em cyberpunk ou ficção científica em geral, Neuromancer é uma leitura obrigatória. Para qualquer outro gosto, ainda é uma ótima pedida para expandir os horizontes.

Referência:
McCaffery, Larry. An Interview with William Gibson. McCaffery 1991, pp. 263–285 Site: http://project.cyberpunk.ru/idb/gibson_interview.html

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