Oi viajantes d’A Taverna! Eu sou a Jana; sou formada em engenharia de alimentos, mas hoje sou escritora de fantasia e ficção científica, cohostess dos podcasts Curta Ficção e Desafio Ex Machina, colaboradora do jornal satírico Tempos Fantásticos e editora da revista Mafagafo — ou seja, tudo menos engenheira (só de vez em quando que me dá uma recaída e eu presto um serviço pra indústria). Eu moro metade do tempo em Paulínia, interior de São Paulo, com meus pais, minha irmã e a Paçoca e a Pipoca, verdadeiras donas da casa. A outra metade eu passo na Galeria Creta, um estabelecimento sobrenatural no submundo de São Paulo em que a realização de qualquer desejo está sempre em estoque.

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Fale um pouco sobre a revista Mafagafo.

A Mafagafo é uma revista digital de fantasia e ficção científica que publica contos e noveletas de 4.000 a 17.500 palavras em formato seriado — ou seja, dividido em partes como um arco de quadrinhos ou um seriado de TV ou streaming. Na segunda edição, a atual, publicamos também ficções relâmpago — textos de 300 a 1.000 palavras. Todas as partes das duas primeiras edições estão (ou estarão, no caso da segunda edição) disponíveis pra download gratuito; a única coisa que a gente pede em troca é um compartilhamento em rede social.

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De onde surgiu a ideia de fazer a revista e seu formato diferente?

Então, o formato da Mafagafo é muito inusitado pros leitores brasileiros contemporâneos, mas lá fora esse modelo já existe (como por exemplo na revista Analog, uma das grandes revistas de ficção científica do mercado anglófono) e mesmo por aqui, no passado, a gente tinha esse formato nas revistas pulps e nos folhetins. É pouco difundido, mas uma das primeiras ficções científicas brasileiras foi publicada, justamente, em formato de folhetim — “Páginas da história do Brasil, escrita no ano 2000”, texto de Joaquim Felício dos Santos que saiu em capítulos entre 1868 e 1872 n’O Jequitinhonha, jornal republicano de Diamantina. Mas enfim, a ideia de resgatar esse formato surgiu como uma provocação que o Rodrigo van Kampen — editor da Trasgo, a mais relevante revista de fantasia e ficção científica que temos — fez nas redes sociais. Ele propôs a ideia, mas disse que estava sem tempo. Em adorei a ideia — especialmente porque acho que precisamos de mais espaço pra publicação de F&FC de qualidade, com curadoria —, e resolvi pegar parte do tempo que eu tinha pra fazer acontecer. Trabalhamos juntos pra desenvolver a ideia e assim surgiu a Mafagafo.

Quais os métodos de avaliação de vocês para a Mafagafo?

O principal critério é a qualidade e a maturidade do texto, mas a Mafagafo está à procura de novas visões, pontos de vistas, cenários e tramas. Não tem nada de errado com boas obras que seguem grandes tendências ou padrões, mas eu estou numa fase em que quero ler coisas diferentes. Se puder destacar um aspecto, que acho que não é muito surpreendente pra quem leu os textos já disponíveis na revista, prezamos muito por ambientações e conflitos que reflitam a nossa vivência como brasileiros. Além disso, tentamos fazer uma seleção heterogênea de autores com diferentes vivências e níveis de experiência — um parâmetro secundário, por assim dizer, já que geralmente isso reflete diretamente no texto.

Que tipo de histórias procuram?

Continuando a resposta anterior, procuramos histórias diferentes que só nós, autores brasileiros ou outros nativos da língua portuguesa, podemos contar. Também procuramos textos com um balanço interessante de forma e conteúdo — especialmente nas ficções relâmpago, onde cada palavra tem um peso especial. Acho que juntar uma história instigante e bem construída a um texto dinâmico, ao mesmo tempo que rico, é um grande desafio. Quem consegue fazer isso conquista o coração da mafagafo-chefe imediatamente.

E que tipo não publicariam?

Olha, praticamente qualquer texto que se encaixar na descrição acima tem espaço potencial na Mafagafo — contanto que esteja dentro do espectro da fantasia, ficção científica e terror. Por uma razão de linha editorial, porém, não temos tanto interesse em histórias de horror gore ou gráfico, histórias infantis ou estritamente eróticas. E, obviamente, por uma questão de princípios e humanidade, jamais publicaremos história nenhuma que propague discursos de ódio, estimule a violência ou reproduza esteriótipos.

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Quando se fala em cenário de literatura fantástica, existem os otimistas que acham que ele está crescendo e ganhando relevância e aqueles pessimistas que dizem que ainda estamos em bolhas, Qual sua opinião sobre o assunto?

Minha opinião é um misto das duas, pode? Hahaha… Eu acho que o cenário está crescendo e ganhando relevância, sim, mas também acho que ainda estamos em bolhas e ainda há muito, muito, muito espaço pra mais crescimento. Ou seja, ainda temos que batalhar muito pra alcançar a relevância que a fantasia e ficção científica têm em outros mercado, especialmente o anglófono. Mas acho que parte desse espaço pra crescimento está dentro do campo do crescimento do mercado leitor como um todo — por isso defendo tanto a formação de novos leitores, que (informação exclusiva!) deve ser uma preocupação da Mafagafo nos próximos tempos.

E seus projetos literários, quais os planos futuros?

Quase todo o meu foco pessoal está no meu romance, que está passando por uma etapa de reformulação, reescrita e edição. Minha vontade é ter esse livro terminado e destinado ainda em 2019. Também tenho alguns outros contos planejados; espero produzir e publicar mais algumas coisinhas ao longo do ano que vem também — em português e em inglês, quem sabe. Esse ano ainda tem conto meu saindo na antologia da Plutão Livros, Aqui Quem Fala é da Terra, e no segundo volume das coletâneas do Mitografias, Mitos de Origem.

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Qual sua dica para um escritor conseguir autocriticar-se, e trabalhar melhor em seu texto?

Vai parecer auto-ajuda barata, mas acho que o princípio é sempre assumir que sempre tem o que melhorar em um texto. A escrita é uma arte complexa, cheia de nuances e técnicas. Como escritor iniciante, achar que sabe tudo e que o que escreveu é perfeito é de uma pretensão e megalomania inacreditáveis. Partindo desse princípio básico, o instinto vai levar o escritor pro lado certo: ele vai sentir a necessidade natural de passar o texto por um leitor beta ou, na hipótese mais adequada, por uma leitura crítica, edição ou copidesque feita por um profissional antes da publicação séria (sempre que possível, é claro). Claro que, nesse caso, é importante também que o autor saiba tirar da frente o orgulho e o amor pela própria obra e saiba quando aceitar as críticas e sugestões.

Que tipo de história te encanta? E que tipo não gosta? Por que?

Eu gosto muito de histórias sobre o que nos faz humanos, interdependente do gênero. Gosto mais do que vai pro lado do fantástico, porém, justamente porque acho que é uma forma ao mesmo tempo delicada e forte de falar sobre a realidade. Dentro dessa grande categoria, gosto de histórias que têm conflitos simples e protagonistas reais e falhos. Ultimamente, gosto também de histórias que me tiram da zona de conforto e mostram visões do mundo que eu não conhecia. E, nessa onda, acho natural que o tipo de história que menos me encante, no momento atual, é aquela mesma história de sempre do escritor de meia-idade branco e rico que sofre com uma crise de identidade, criativa e/ou conjugal. Queria que essa categoria fosse muito específica, mas na realidade ela é mais ampla do que deveria.

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Quais suas inspirações (livros, séries, filmes, ou qualquer outra coisa)

O universo da Galeria é inspirado em toda a fantasia urbana com a qual me formei: História Sem Fim, Fronteiras do Universo, Harry Potter, Castelo Rá-Tim-Bum (que é influência direta pro romance), histórias do Stephen King e toda a obra do Eric Novello, que foi quem me mostrou que fantasia urbana no Brasil não só era possível como, também, incrível e rica.

Autor(a) ou autores prediletos?

Stephen King, Ursula K. Le Guin, J. K. Rowling (apesar de todos os pesares), Neil Gaiman, Phillip Pullman, Becky Chambers, Eric Novello, Jim Anotsu. Esses são alguns dos meus auto-compra: se soubesse que ia sair uma lista de compras de qualquer um deles, compraria na mesma hora.

Deixe uma mensagem aos novos autores que querem participar das novas edições da Mafagafo 🙂

Tratem o texto de vocês com carinho, sem pressa e sem correria. Passem o texto por leitores de confiança, escutem e aceitem as sugestões e as críticas, façam uma revisão cuidadosa do texto antes de enviar. E quando abrirmos pra submissão, leia com muito carinho todas as orientações pra envio. Não tem nada mais frustrante do que receber um material totalmente fora das especificações. Além de parecer um descaso sem tamanho, é um desperdício de esforço do autor e da equipe da Mafagafo. De resto, mostrem pra gente o quão criativos e competentes os autores brasileiros podem ser!

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Links:

Todas as minhas redes, links e informações estão no meu site, www.janabianchi.com.br, mas eu estou sempre mais ativa no meu Twitter, @janapbianchi. A Mafagafo também tem um site, www.mafagaforevista.com.br, onde você pode baixar as edições e encontrar nossas redes, endereço pra assinar a newsletter e outras informações. Mesma coisa com o Curta Ficção e com o Tempos Fantásticos, que podem ser encontrados respectivamente em www.curtaficcao.com.br e www.temposfantasticos.com.

Obrigado pela participação

Em que agradeço, queridos! 🙂


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