Me chamo Lucas Rafael Ferraz, tenho 29 anos e moro em Sorocaba, interior de SP. Quando fui entrar na faculdade, fiquei em dúvida entre História e Engenharia de Computação, optei pela segunda e meu lado de humanas ficou dormente por vários anos, sendo desperto novamente pela literatura, através de podcasts. A partir daí, fui me infiltrando em diversos projetos, e retomei o contato com a escrita, que acabou se tornando algo muito importante pra mim. Hoje gravo podcasts, escrevo e edito diversos projetos, e sempre tenho que me conter para não me envolver em novos.

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Trasgo, Mitografias, Realidades Cabulosas. Como administra seu tempo para participar ativamente de tantos projetos literários? De onde vem tamanha disposição, e o que o motiva?

Arrumar tempo é a pior parte. Conciliar a vida diária, o trabalho e tantas outras coisas com essas atividades é sempre um desafio, e algumas vezes não conseguimos entregar as coisas nos prazos que queríamos, mas faz parte. No fim, sempre encontramos o tempo necessário e as coisas acontecem. Note que aqui eu uso o plural de propósito: nenhum desses projetos é trabalho de uma pessoa só.
Eu comecei me oferecendo para ajudar na Trasgo, e hoje somos quatro pessoas fazendo essa revista acontecer: eu, Rodrigo Van Kampen, Enrico Tuosto e Soraya Coelho. Rodrigo é um cara fantástico e de uma generosidade incrível, sou grato por ele ter me recebido nesse projeto. Aprendi muito com Enrico, e ainda aprendo, a cada conto que revisamos, e a Soraya chegou há pouco, apesar de eu a conhecer anteriormente, e já fez muita diferença na edição 18, ela é uma editora fenomenal.
Quanto ao Realidades Cabulosas, basta dizer que o projeto não existiria sem o Rodrigo Rahmati. Rahmati se tornou, com o passar dos anos, um grande amigo e parceiro de trabalhos editorais, tanto dos que se concretizaram quanto dos que nunca saíram do papel, e valorizo demais sua amizade e o quanto melhorei nessa coisa toda de escrever e editar por conta dele.
Já a Antologia Mitografias Vol. I: Mitos Modernos surgiu de forma despretensiosa e acabamos ganhando até prêmios. O livro foi organizado por mim, Leonardo Tremeschin, o mastermind do Mitografias, site do qual eu já fazia parte, e Andriolli Costa, pesquisador de folclore e dono do Colecionador de Sacis, com participação do Rahmati na edição. Nesse caso, foi a primeira antologia temática que organizei, e foi um super aprendizado. Receber os contos, avaliar, se reunir com a equipe para escolher os que entrariam, todo processo de edição, foi algo incrível. Contamos também com o Rahmati colaborando nesse livro, e esse time todo retorna para o Vol. II: Mitos de Origem, com o reforço da Jana Bianchi, que também é editora-chefe da Mafagafo, colaboradora do Tempos Fantásticos e mais um monte de coisa. Me sinto muito privilegiado de poder trabalhar com tanta gente bacana e competente. Isso é uma das coisas que me dá energia, que me faz não querer parar nunca de abraçar coisas novas. Estamos num dos melhores momentos para o fantasismo e é incrível fazer parte disso.
Outra motivação é que hoje, na minha vida, a escrita tomou um papel muito importante como ferramenta de resistência. É através dela, seja em contos meus ou em projetos que organizo, que almejo fazer alguma diferença num mundo cada vez mais extremo e que insiste em flertar com autoritarismo e fascismo. Fiz da palavra minha forma de lutar por um mundo melhor.

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O que você acha que está bom e o que pode melhorar dentro do cenário literário fantástico?

Muita coisa fantástica tem acontecido. Diversas iniciativas editoriais independentes tem surgido fazendo um trabalho muito profissional. Eu poderia citar editoras como a Dame Blanche e a Plutão e revistas como Mafagafo. Eventos estão pipocando para todos os lados, sendo que esse ano tivemos a histórica Casa Fantástica na FLIP, a FLIPOP em São Paulo, uma nova edição da Odisséia de Literatura Fantástica no RS, assim como muitos outros eventos regionais. Grupos como o Fantástika 451 e livros como o Fantástico Brasileiro, escrito por Eneias Tavares e Bruno Matangrano tem aproximado a literatura fantástica do mundo acadêmico, além de divulgarem a produção atual. Tudo isso, e muitas outras coisas que não citei nominalmente, contribuem muito para o fortalecimento e profissionalização cada vez maior da cena. Ainda sofremos com vanity press e ditas editoras que vivem de tirar dinheiro de autores iniciantes incautos fazendo trabalhos de baixa qualidade, mas tenho esperança que toda essa movimentação calcada no profissionalismo e seriedade, muitas vezes em projetos que ainda nem dão lucro financeiro, nos leve a um cenário cada vez mais fértil e vibrante para histórias de ficção científica e fantasia nacionais.

Você escreve também, certo? Quais são seus projetos literários? Há algo maior, ou apenas contos?

Escrevo, apesar de ultimamente estar muito mais envolvido com projetos de edição. Publiquei vários contos, e tenho me focado mais nesse tipo de produção. Esse ano eu pretendia lançar um romance fix-up, mas devido a imprevistos de ordem pessoal esse plano foi engavetado (talvez pra sempre, pois perdi o tesão pelo projeto). Mas a ideia de um romance fix-up ainda me é atrativa, de forma que pretendo encontrar uma nova ideia para desenvolver nesse formato.

Hoje em dia, há muitos escritores, mas quantidade não é sinônimo de qualidade. Quais são os maiores erros dos escritores iniciantes que você vê?

Hoje temos muita informação de qualidade disponível. Mas muita mesmo. Temos podcasts como Curta Ficção e 12 Trabalhos do Escritor, muitos autores e autoras talentosas fazendo ótimas newsletters, sites como Viver de Escrita, até mesmo oficinas online gratuitas como o Bestiário Criativo. Na minha visão, o maior erro de alguém começando a escrever é não buscar esse tipo de informação, não estudar. Não acredito que existam regras escritas em pedra no que se refere à escrita criativa, mas há técnicas, há dicas, há meios já testados e aprovados por muita gente que são um ótimo ponto de partida. Revisão também é muito importante. E pontuação de diálogos. Pelo amor dos deuses, pontuem direitinho seus diálogos.

Qual sua dica para um escritor conseguir autocriticar-se, e trabalhar melhor em seu texto?

Primeiro escreva e termine de escrever. Sem ficar voltando para refazer uma frase, nem nada disso. Termine o texto. Depois gaveta. Uns dias de gaveta fazem com que, na releitura, você tenha uma visão mais distante do seu texto, e consiga enxergar melhor seus erros e acertos. E tenha betas. Amigos que curtam ler suas coisas e que não tenham papas na língua para dizer que algo está ruim. Acredito que aquela coisa do escritor solitário que despeja no papel sua obra prima de primeira é uma romantização que já não cabe nos nossos tempos. Escrever sem compartilhar e trocar experiências com colegas perde muito da graça.

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Qual sua metodologia de avaliação de histórias?

Um conto precisa ser interessante logo no primeiro parágrafo, então nada de histórias que começam com longas descrições, especialmente se for sobre o clima. Recebemos muitas histórias que começam de verdade no terceiro ou quarto parágrafos, então é legal pensar bem no começo do seu conto de forma que ele chame a atenção do avaliador logo de cara. Outro ponto que valorizo muito é desenvolvimento de personagens. Um conto com um trama incrível e personagens rasos perde muito da magia. Acredito que o elemento humano, mesmo que seu protagonista seja uma gosma alienígena ou um troll das cavernas, é o que há de mais importante para criar identificação com o que está sendo contado.

Trasgo 18 - Capa

E de escrita?

Eu sou muito mais jardineiro do que arquiteto. Eu vejo, leio ou escuto coisas interessantes e fico armazenando na cabeça, até que umas duas ou três delas se juntem e dali comece a germinar uma história. Não costumo estruturar muito o que vou escrever, o que tem seus prós e contras. Há textos para os que nunca consegui um final satisfatório, e há outros que foram por caminhos muitos mais legais do que eu imaginei no começo.

Que tipo de história te encanta? E que tipo não gosta? Por que?

Gosto de histórias nas quais eu me importe com os personagens. Nas quais eu consiga empatizar com as situações pelas quais eles passam. Nas quais eu torça por alguém, me angustie com alguma situação, me alegre com outra. Gosto de histórias que conversem comigo e façam com que eu me envolva. Não gosto de histórias que são excessivamente guiadas pela trama, que não deixem espaço para eu entender quem são aquelas pessoas, que não consiga me fazer entender porque eu deveria me importar com elas.

Para você, o que é a criatividade?

Criatividade é estar atento a tudo ao seu redor e receptivo às ideias e sensações que se pode absorver dessas coisas. Uma história, ou o embrião de uma história, podem aparecer numa notícia estranha que pulou no feed de uma rede social, numa história que um colega de trabalho te contou, numa conversa que você ouviu no transporte público, em praticamente qualquer coisa que aconteça ao seu redor. Basta prestar atenção no que fala com você, no que você consegue relacionar com suas próprias experiências de vida e influências para transformar aquilo em uma história nova e vibrante.

Quais suas inspirações (livros, séries, filmes, ou qualquer outra coisa)

Olha, eu poderia responder um monte de conteúdo pop aqui, ou autores mais obscuros pra parecer cult, mas pensando sobre essa pergunta, não são esses que realmente me inspiram. Correndo o risco de me repetir, o que de fato me inspira é o conteúdo nacional, das publicações independentes, que são produzida com muita qualidade e profissionalismo mesmo dando pouco ou nenhum lucro, por amor à arte e à palavra escrita. Esse movimento orgânico e bastante integrado de várias de publicações de citei acima é algo maravilhoso de ver acontecendo e imensamente prazeroso de fazer parte. É esse povo que me inspira. São essas pessoas que incentivam a continuar.

Autor(a) ou autores prediletos?

Eric Novello. Jana Bianchi. Isa Prospero. Michel Peres. Felipe Castilho. Só pra citar alguns nomes. Eu poderia ficar a tarde toda escrevendo nomes aqui, hahaha.

Deixe uma mensagem aos novos autores 🙂

Escrevam. Terminem suas histórias. Mandem para pessoas e publicações que vão cuidar delas com dedicação e carinho. Se for rejeitado ou rejeitada, escreva outra história. Repita o ciclo.

Links:
Trasgo: http://www.trasgo.com.br
Leitor Cabuloso: http://www.leitorcabuloso.com.br
Mitografias: http://www.mitografias.com.br
Twitter: @ferraz_lucas


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