Saudações, viajantes!

Não nos vemos há bom tempo, não? Pois é. Minha vida se tornou uma correria maluca neste segundo semestre de 2018. De qualquer modo, como diria o eterno Freddie Mercury, “o show deve continuar!”.

A resenha de hoje é a obra Prince of Thorns, de Mark Lawrence. Livro primeiro da Trilogia dos Espinhos. Publicado, no Brasil, pela Darkside.

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Preâmbulo.

Caso conheça o formato de minhas resenhas, sinta-se livre para pular para o próximo tópico; se não, leia os apontamentos seguintes e entenda a essência de meus textos:

i) Sou “spoilerfóbico”. Por isso, redigir resenhas livres de spoilers é um mandamento que imponho a mim com desmedida seriedade. Penso que não há nada mais devastador do que a ruína da experiência de uma leitura. Não só de leituras, mas da absorção de obras de ficção em geral, eu diria;

ii) Costumo seguir uma estrutura. Consiste, em regra, na análise de voz narrativa (primeira, segunda ou terceira pessoa); enredo (plot); mundo (setting/milieu), seja ele fictício ou não; personagens e seus arcos; sistema de magia; linguagem; e quão sinérgicos são os elementos citados. A ordem e o modo como faço varia. Cada livro é único. Natural é, portanto, que a maneira de exposição de cada um também seja única;

iii) Ora ou outra, teço considerações que vão além da obra. Técnicas literárias, reflexões filosóficas, nuances sobre o autor e afins;

iv) Ao final, há um tópico com as notas que dou aos elementos expostos em “ii”, além de uma média entre elas, a nota final. Lembrando que se trata nada mais do que minha singela opinião acerca da obra. Assim sendo, são números concebidos a partir de minha subjetividade e, sem dúvidas, inteiramente passíveis de questionamentos e objeções de todas as sortes — inclusive, será um prazer debater sobre isso na seção de comentários.

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A voz narrativa.

A voz narrativa de Prince of Thorns é a boa e velha primeira pessoa. Não lhes falarei, no entanto, qual espécie de primeira pessoa se trata (Tempo Real, Estória Dentro da Estória ou Epistolar). Explico o porquê: há duas ou três passagens bem discretas, em momentos pontuais do livro, as quais me deram a entender que descobrir o formato de primeira pessoa é um dos segredos da trilogia. Sim, sei que isso parece confuso, mas acreditem em mim. Leiam o livro e entendam. Caso venha a ler e não capte essa nuance que aqui menciono e não se importar com spoilers, pode me contactar e eu lhe explicarei o que é.

Pois muito bem. Antes de dar sequência à resenha propriamente dita, sinto que lhes devo a explicação dessas três espécies de primeira pessoa. Para ser bem honesto, não há nada que mais me irrite do que pessoas que vão jogando conceitos na minha cara, partindo do pressuposto que conheço seus significados. Assim sendo, caso não saiba e tenha interesse, seguem breves explicações sobre os formatos existentes (os que conheço, pelo menos) de primeira pessoa:

a) Primeira pessoa em tempo real: como o próprio nome já indica, é aquela voz narrativa em que o personagem experimenta os acontecimentos que estamos lendo em tempo real. É como se entrássemos dentro da cabeça do personagem e, assim, temos acesso a tudo que ele está vendo, ouvindo, respirando e sentindo.

Este formato é o que mais tenta emular a realidade, tentando fazer com que o leitor vivencie o enredo de forma visceral. Isso se faz possível pois a proximidade que o leitor e o personagem têm é extremamente estreita.

O tempo verbal nessa espécie pode variar em pretérito (passado) ou presente. Não há uma regra rígida que explique qual dos dois tempos é o mais adequado. Há bons autores adotando tanto um quanto o outro. Assim como também há péssimos autores adotando ambos.

b) Estória dentro da estória: aqui, há um personagem que relata a alguém um acontecimento que vivenciou. Este ouvinte pode ser uma pessoa definida (um outro personagem dentro do mundo da estória, por exemplo) ou pode ser um sujeito indefinido (um exemplo seria o caso de o narrador estar escrevendo um livro ou diário para si próprio, mas que é encontrado no fundo do baú por um parente ou amigo anos após o falecimento do narrador).

Em regra, o narrador costuma ser o protagonista. No entanto, ele também pode ser apenas um observador da estória de outro indivíduo.

Uma das características mais interessantes desta espécie é o fato de que o narrador nunca será alguém confiável, seja porque ele está deliberadamente mentindo ao relatar, seja porque ele — como qualquer ser humano — é incapaz de lembrar-se de todos os detalhes do evento e acaba sendo obrigado a enxertar uma coisinha aqui e outra ali, fazendo com que o fato que ele conta seja um pouco diferente do que realmente aconteceu. Eu sempre me divirto ao ler estórias assim, pois fico tentando — a partir de uma análise da personalidade do narrador — descobrir o que ele diz que é verdade e o que não é. Há até uns leitores mais hardcore que fazem anotações detalhadas da narração e tentam cruzar dados, a fim de encontrar contradições.

c) Epistolar: neste tipo de primeira pessoa, temos acesso a documentos do mundo do livro, produzidos por personagens. Diários, cartas, jornais, e-mails, SMS’s, gravações e qualquer outra mídia com a habilidade de registrar.

A partir da interpretação das informações constantes de cada um desses documentos, usamos nossa imaginação para preencher as lacunas.

Muitos podem acabar confundindo esta espécie com a apresentada no sub-tópico anterior. De fato, é inegável que o formato epistolar (“c”) não deixa de ser um tipo de estória dentro da estória (“b”). No entanto, ele tem umas peculiaridades específicas.

Em “b”, o narrador deliberadamente está desejando contar uma estória. Portanto, o texto que ele está produzindo tem por finalidade primordial contar tal estória. Em “c”, o texto ao qual temos acesso não passa de um artefato pertencente ao mundo do livro, que encontramos ao acaso, de modo colateral.

Em “b”, há um fluxo narrativo que o narrador adota conscientemente. Ele escolhe os fatos que relata e os que omite. Em “c”, muitas vezes não temos acesso a certos eventos, pois eles simplesmente não foram registrados.

Explico.

Exemplo: em um enredo epistolar em que conhecemos a estória a partir da leitura de jornais, passamos a ter o conhecimento daquilo que o jornalista colocou na matéria — o mesmo conhecimento que qualquer leitor assíduo do jornal teria. É diferente de um enredo “b”, no qual o narrador, embora não relate todos os detalhes do acontecimento, ele teve, de algum modo, acesso a eles e, assim, organiza-os para o leitor da maneira que julga mais pertinente.

A título conclusivo, vale apontar uma característica bem clássica do texto epistolar: os documentos costumam ser datados. A razão disso é para que o leitor consiga situar-se e, justamente, possa usar a imaginação para preencher as lacunas deixadas entre o registro de um documento e outro.

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Caos.

Uma nuance interessantíssima de Prince of Thorns é que a narrativa se figura, na maioria do tempo, bem caótica. Descrições recheadas de metáforas, explanações indiretas e termos ambíguos. Isso é genial, haja vista que o narrador-protagonista, Jorg de Ancrath, é um completo maluco. Dessa forma, temos acesso à mesma visão deturpada do mundo que a mente psicopata, megalomaníaca e assassina dele tem.

Na minha opinião, esse fator torna a experiência de leitura incrível. Aliás, uma das questões que mais me motivam a ler livros é exatamente poder viver outras vidas. Conhecer, com profundidade, pessoas que nada têm a ver comigo. Desbravar visões de mundo diferentes. Experimentar felicidades e angústias alheias a mim. Visitar locais que eu jamais iria. Testemunhar eventos improváveis, impossíveis em nosso mundo, mas críveis dentro da lógica interna da obra.

Enfim — andando bem contra a correnteza do vejo por aí —, quanto mais diferente de mim for o personagem, melhor. Considero bem sem graça me identificar com um personagem que passa por experiências semelhantes às minhas. Para mim, a diversão reside em me identificar com alguém diferente a partir somente de pequenos traços em comum — aqueles inerentes à nossa humanidade.

Para colocar em termos bem simples, gosto mesmo é de me aventurar em experiências nas quais exerço com mais intensidade minha empatia. Ora, já tenho a minha própria companhia em tempo integral, desde que nasci. Há momentos que fico com saco cheio de mim. Vocês não ficam, ora ou outra, com saco cheio de vocês próprios?

Nessa lógica, fica o questionamento: qual é a graça de ler sobre um personagem igual a mim? A propósito, penso que aprendermos a estimular nossa empatia por pessoas diferentes é um ato que nos torna melhores pessoas, pois, com isso, passamos a ter uma maior habilidade de entender os outros e, assim, tornamo-nos mais compreensíveis e sensíveis às causas daqueles ao nosso redor.

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Dark Fantasy.

Que fique avisado desde já: esta é uma trilogia do gênero Dark Fantasy. Ou seja: pode esperar por uma escrita crua e isenta de pudores. Sempre tenha em mente que censura e Dark Fantasy são como dois corpos para a Física: não podem ocupar o mesmo lugar no espaço.

Logo, prepare-se por cenas e temas pesados.

E sangue. Muito sangue.

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Personagens.

É um livro com poucos personagens.  Ainda assim, no meu entender, sinto que Mark Lawrence trabalhou seu curto elenco com precariedade. Quando concluí a leitura, eu tinha a sensação de que conhecia de verdade apenas o protagonista. Sei que vários podem apontar este como um problema típico de livros em primeira pessoa.

Bem, eu hei de concordar. É indiscutível que construir (bem) personagens é uma árdua e hercúlea tarefa, sobretudo quando não se tem ponto de vista. Talvez, creio, seja esta a razão de vermos uma maior popularização de livros em terceira pessoa.

Mas, porém, contudo, no entanto, entretanto, todavia… isso não é desculpa. Quando o autor é competente nesse aspecto de construção de personagem, ele conseguirá caracterizar todo (ou parte) do elenco de apoio com maestria, tornando vários personagens (e não apenas o protagonista) tridimensionais. Robin Hobb seria um bom exemplo de autora detentora de tal habilidade.

Por favor, não me entendam mal. Com isso, não estou dizendo que Lawrence é um escritor incompetente. Não. Não. Mil vezes não. Ao contrário: é um excelente escritor! (Falando nisso, sigam-no no Instagram! Ele é um camarada bem legal, haha.) O problema é que ele (pelo menos neste livro) não teve a expertise de lidar bem com o desenvolvimento do elenco como um todo, concentrando todos os seus esforços em construir (com sucesso) Jorg.

Para encerrar esta sessão, imagino que seja importante deixar claro que Jorg não é um herói. Afirmo isto categoricamente. É um sujeito terrível. Terrível. Agora, o mais interessante nisso é que não é fácil classificar onde ele se encontraria no espectro herói-vilão: mesmo após concluir o livro, não sei dizer (e, provavelmente, não diria se soubesse, para evitar passar spoilers, rs) se ele é um anti-herói, anti-vilão ou vilão. Minha única certeza, frisa-se, é que ele não tem nada de herói. Em termos de RPG, ele está bem longe do alinhamento Lawful Good. Bem longe.

Toda essa questão apenas evidencia a complexidade dele. É, em suma, um personagem fascinante. Deveras.

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Mundo.

Preciso admitir que é um dos elementos que mais me impressionou no livro. Os segredos revelados paulatinamente são de cair o queixo. Recomendo, inclusive, que, se pretende ler o livro, não procure outras resenhas nem quaisquer outras fontes de informações sobre a trilogia internet afora, porque o que tem de cidadão sem noção (passando spoilers seríssimos sobre o mundo) não é brincadeira.

Portanto, viajantes, fiquem espertos com esses vacilões espalhados internet afora. Não deixem que eles destruam sua experiência de leitura.

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Sistema de magia.

Arrisco dizer ser o ponto mais nebuloso da obra. Pouco se mostra e nada se explica. Creio que será temática melhor abordada nos livros subsequentes.

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Trama e considerações finais.

A trama não é complexa. Entrega, no decorrer da narrativa, umas surpresas. Possui um ou dois plot twists. Mas não é nada mais do que isso. Até porque é um livro curto.

Entendam: o enredo não é ruim, contudo está longe de ser fenomenal. Levando em consideração o grande escritor que Lawrence provou ser nessas poucas páginas, acredito que ele está, em Prince of Thorns, apenas nos preparando para algo maior nos livros posteriores.  Tenho bastante fé nisso.

De qualquer forma, não se acanhem. Busquem a leitura. Sem embaraço. É uma obra séria, com bela prosa, mundo intrigante e descrições únicas. Uma ótima diversão e interessantíssimo estudo de personagem.

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As notas.

(Escala: 0 a 5.)

  • Enredo (plot): 2,5
  • Mundo (setting/milieu): 4
  • Personagens e seus Arcos: 3
  • Sistema de Magia: 2
  • Linguagem: 5
  • Diversão: 4
  • Nota Final (média): 3,41

Sei que podem estranhar essa nota 3 para personagens e seus arcos, uma vez que elogiei tanto o Jorg. Mas há um problema: a categoria se chama “PersonagenS e seuS arcoS“. Nesse sentido, precisei, infelizmente, levar em consideração a defasada construção dos coadjuvantes para dar a nota.

No mais, é isso.

Pretendo, sim, ler as sequências da obra. No entanto, não o farei tão cedo. Estou com outras prioridades na minha fila.

Aliás, fiquem ligados! Em breve, trarei resenhas de obras magistrais!

 

Até breve, caríssimos viajantes!

 


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