Eu cresci com uma boca que não era minha.

Para com essa porra!, tentei gritar, mas o que saiu foi diferente.

— Por favor, não me faça mal.

Diogo tava com um pedaço de pau na mão, querendo me dar porrada. O cara era meu colega de classe.

Minha mente berrou: Vai tomar no cu! Sai de perto de mim! Vou te matar! Meus lábios falaram:

— Saia daqui, por favor.

Pensamentos roteados, filtrados e transformados pra que minha voz saísse dentro da Norma, pra obedecer os padrões linguísticos, pra ser alguém na sociedade.

Vai ter que colocar essa merda, Abá. Vamo, menina, mamãe falava, me levando de mão dada pro consultório do Dr. Edmilson. A merda era o implante. O tal Normalizador, palavra que só aprendi a falar depois dos dezesseis.

Coloquei a parada na cabeça, como ela queria. Senti dor pra cacete, fios e miolos se misturando. Desmaiei e o escambau. Mamãe ficou lá, de mão dada comigo, enquanto Dr. Edmilson abria minha cabeça. Horas depois, lembro da unha dela vermelha. Pensei que era esmalte gasto, mas hoje sei que era sangue dos meus miolos.

Tu quer limpar merda dos outros no Leblon?, ela repetiu umas vinte vezes antes de eu desmaiar. No final, deu tudo certo. Saí com visão embaçada, cabeça doendo pra cacete e chorando. Acho que nunca chorei tanto. Minha mãe chorou também, mas ela tava é feliz, porque eu ia ser alguém na vida.

E tava lá eu, vinte e seis anos de idade, sendo alguém na vida, chorando de novo e tentando xingar o desgraçado do Diogo que tava prestes a me meter uma paulada na cara.

Me deixa em paz, seu filhodaputa!, tentei gritar.

— Por favor, Diogo — implorei. Tava contra a parede. Era um beco fedido, perto da caixa de gordura de algum lugar que vendia podrão com preço de rico.

— Fala a verdade, sua vadia! — ele gritou, rodando o pedaço de madeira na mão. Tinha um prego numa ponta. — Suas frases são muito esquisitas. E você é velha demais pra cursar o Ensino Médio. Já não era pra estar na faculdade? Você usa o hack das favelas e eu odeio quem faz isso. Acha bonito ficar roubando vaga dos outros?

Se eu confessasse, o idiota, que ia sempre com uma camisa lavada diferente pra escola, com certeza ia me matar. Veja só, uma preta roubando vaga graças a um hack que algum favelado colocou na cabeça dela. Conhecia pelo menos duas histórias assim e não terminavam nada bem.

— Eu não uso. Deixe-me ir!

Posso fazer o que cê quiser, pensei. VOCÊ! Posso fazer o que VOCÊ quiser, corrigi pro mais formal que consegui. Isso eu queria falar. Precisava. A Rosana e o Marco tavam me esperando lá em cima. E, se eu quisesse matricular eles na escola um dia, ia precisar tá formada no Ensino Médio.

— Posso fazer o que você quiser. — Por sorte, o Normalizador não alterou a mensagem.

— O que eu quiser? — Diogo sorriu, deixando o pedaço de pau balançar na mão, afrouxando os dedos. Se distraindo.

Otário.

Chutei a mão dele. A arma voou pra trás. Ele tentou agarrar minha perna, mas eu já tinha caído fora. Corri. Corri pra caramba, como minha velha me ensinou. Corri quando fizeram a limpa da superpopulação lá na favela, pegando os excedentes pra encerar prédios do governo. Corri quando Seu Lenilson do Buteco da Roça me falou que mamãe tava morrendo espancada, porque tava dando aula sem ter o registro da Norma. E corri agora, fugindo do Diogo, que já tinha me emprestado um lápis duas vezes e colado em mim pra fazer um trabalho de Botânica, na aula de biologia.

Ouvi os passos dele, chapinhando na lama que pintava seu Nike branco. Mas eu era mais rápida e nem ligava do meu chinelo ficar sujo. Já tinha afogado os pés em muita porcaria antes.

Virei a esquina da escola. Uns professores saíam, uns outros colegas riam e dois seguranças bocejavam. Eu tinha aprendido há tempos que, quando você nasce correndo, dá merda se parar. Então, eu fui. Ninguém ali ia aliviar minha barra.

Varei o calçadão da escola, passei pelo chafariz com as tábuas que diziam “O governo oferece livros de português gratuitamente” e segui em direção à favela, rezando pra não chamar atenção. Só não chorei porque não tinha tempo, mas eu não ia poder mais voltar pra escola.

— Vou te denunciar! — Diogo berrou com a voz rouca.

***

Rosana me deu um abraço apertado quando entrei em casa. Prendi uns fios do cabelo dela atrás da orelha e sentei no sofá todo rasgado. Não falei sobre o Diogo. Minha menina não precisava saber como era o mundo lá embaixo, aquele que ela teria que encarar mais cedo ou mais tarde.

— Tudo bem com você e o Marco? — falei, percebendo que tava artificial. Na correria, tinha esquecido de desativar o Normalizador.

— Voz engraçada, mamãe. — Rosana riu.

Abri meu olho esquerdo, puxei a pálpebra e toquei nele com o dedão. Uma leve dor na cabeça indicou que o Normalizador foi desativado. Alívio.

— Lavei a louça procê — disse Rosana.

— Brigada. — Tentei sorrir, mas meu dia tinha sido um inferno. Sorrisos gastavam energia demais. — Aqui, Zana, tenho uma parada pra contar. Eu não vou mais pra escola que eu ia.

— Mas vovó dizia que é na escola que a gente vira pessoa.

— Vovó tava certa…

O que eu podia falar? Marco, irmão dela, tava lá fora, trabalhando sabe-se lá com o quê, pra trazer grana pra casa, sustentando a própria mãe. E ela tava ali, lavando a louça com dez anos, limpando o chão, sendo uma ninguém, enquanto a mãe tentava ser alguém pra poder colocar os filhos numa escola.

Eles vão precisar falar dentro da Norma. Só quem falava dentro da Norma tinha chance de ganhar uma bolsa lá pra baixo. Aquilo me rasgava há anos. Imaginar o Dr. Edmilson, com aquela barba suja e cigarro entre dentes, abrindo a cabeça dos meus filhos com bisturi, era pior que imaginar o Diogo me espancando. Eu tava encurralada. Diogo já devia ter me caguetado, e a palavra dele valia tanto quanto o seu nascimento. Se voltasse pra escola lá embaixo, iam querer fazer vistoria, enfiar detectores na minha cara.

Puxei o braço da Rosana e sentei ela do meu lado. Peguei suas mãozinhas. Tinham calos de trabalho doméstico. O que eu tava fazendo com ela, caceta? Educando pra servir os outros. Era ela que devia tá estudando, não eu, mas a porra da Norma proibia pais sem Ensino Médio de matricular filhos na escola. Por uma sociedade perfeita, as placas diziam.

— O que tu quer ser quando for maior, Zana?

Tu quer limpar merda dos outros no Leblon?

— O que eu posso ser?

— O que tu quiser.

— Mesmo? Por que num tem as pessoas que defendem os outros por aqui?

— Advogados?

Ela olhou pro teto, pensando. — Acho que sim.

— Eles vivem lá embaixo.

— Então num posso ser o que quiser, mamãe.

Fiquei em silêncio, olhando pra ela, esfregando os calos que pareciam pedaços de milho.

— Tu vai ser advogada. — Levantei antes que ela pudesse questionar. Meu estômago afundou e uma lágrima caiu do canto do meu olho.

Mas botei aquilo na cabeça. Como ia fazer aquilo eu não tinha ideia, mas minha pequena ia defender os outros. Tudo que eu precisava, tudo que eu queria era a porcaria do grau do Ensino Médio. Podia descolar grana pra comprar um falso, mas esses acabavam sendo descobertos uns dois, três anos depois. Ia dar merda. Podia arriscar voltar lá pra baixo, pra escola que minha mãe tinha conseguido pra mim com muito sufoco, aquele antro de camisas de marca e línguas afiadas. O Normalizador me fazia falar tipo madame, mas sempre duvidavam de mim. Quando não era algum filhodaputa da sala, tipo o Diogo, eram os professores ou os olhos gigantes dos seguranças que me acompanhavam até a validação do cartão na entrada.

Era uma barra aquilo, mas, pelo menos, eu tava sendo alguém. Tinha estudado e lido os livros gratuitos do governo, sabia ler e escrever a língua de baixo, mas falar era mais complicado. Eu era nativa de cima, sabia a língua do Seu Lenilson do Boteco da Roça; da Dona Zefa, que consertava minha TV; do Seu Irineu, que catava latinhas; da mamãe. Se eu soltasse algum “tu”, ia ser denunciada. A Norma não funcionava pra gente do alto, não. Ela era só o muro invisível pra deixar a gente sempre quietinha lá, descendo só pra limpar merda dos outros e apertar botão de elevador.

Mas Rosana ia defender pessoas.

Saí da minha casa. Fui descendo, seguindo o caminho do esgoto que escorria por uma calha e levava pra casa do Dr. Edmilson. Em algum lugar perto, um baile funk vibrava. Dona Nalva acenou com a cabeça quando passei, a coluna curvada de enxaguar e torcer toalha. Dela e dos outros.

Dentro de uma casa, um homem escrevia fórmulas matemáticas num quadro negro rachado.

— Fecha essa janela — falei, lembrando da mamãe. — Se a polícia sobe aqui, tu tá ferrado.

— Tá quente pra porra! — Ele riu.

Puxei a janela pelo lado de fora e fechei. Era foda, mas a gente tinha que seguir nossa própria norma.

A calha que levava o esgoto pra baixo estava rompida desde sempre na junção que fazia com uma escadaria. Isso e o cheiro de comida podre eram os sinais que eu precisava. Virei à direita e lá tava a casa do Dr. Edmilson, o mesmo que tinha rasgado minha cabeça pra botar o Normalizador. Era um sobrado de alvenaria com vários buracos na parede. O primeiro andar era um boteco que costumava vender a cerva mais barata da comunidade e todos os remédios que o Dr. Edmilson receitava. Só que tava fechado há uns meses.

Subi a escadinha no escuro, tateando na parede, e bati na porta. O cheiro forte de cigarro saía pelo basculante na parte de cima.

— Quem é? — disse a voz arranhada do doutor.

— Abá.

Ele abriu a porta bem rápido.

— Alguém te descobriu?

— Um playboy da escola tá querendo me caguetar. Vim tirar minha parada pra se alguém me revistar.

— Porra, cês tem que tomar mais cuidado. — Ele passou a mão pela testa suada cheia de pequenas cicatrizes. Lábio todo rachado e cabelo parecendo mais branco, mas aquele puto não envelhecia fácil. — Toda hora alguém é descoberto lá embaixo. Daqui a pouco vão subir pra varrer a gente.

— Mas num é isso que quero falar. — Sentei na cadeira do lado da mesa que ele usava pra organizar as ideias. Não era mais a mesma que minha mãe tinha sentado, falando horas com ele, enquanto eu olhava as imagens de algum gibi comido por traças, sem prestar atenção em porra nenhuma que falavam. Tinha nem ideia do que ia ter que passar pra ser alguém.

Mamãe apertava a borda da mesa, nervosa pra caceta. E ele lá, inquieto, olhando pro nada, bufando nicotina e andando de um lado pro outro, que nem barata tonta.

O doutor era cheio de manias. Pendurava fotos de experimentos nas paredes. Tinha tesouras, tubos de ensaio e pen drives espalhados pela mesa. Uma corrente enferrujada lacrava a porta que dava pra sala de consulta, lá onde arregacei minha cabeça. O computador dele era cheio de adesivo esquisito com caveiras, cobras e o coisa-ruim, mas Jesus tava lá também, do lado de uma foto amarelada do doutor abraçando uma menininha numa laje, presa com um ímã de São Jorge e outro de Ogum.

— O que tu quer?

— Quanto tu tá cobrando pra fazer mais Normalizador?

— Teus filhos, é?

— É. Mais a Rosana. O moleque se vira bem.

Ele parou, puxou a cadeira de escritório sem uma roda, e sentou. Nunca tinha visto aquele homem sentado.

— Tu acha que a vida lá embaixo é liberdade? — disse ele, com uma seriedade que me deixou com comichão. Abriu uma gaveta e pegou um maço de cigarro. Estendeu um pra mim e eu peguei.

— A Zana quer ser advogada — falei, enquanto ele acendia nossos cigarros. — Ela nunca vai ser aqui, porra. Mamãe lutou pra eu descer, pra ser alguém na vida, mas tô vendo que vai dar merda. Quero, pelo menos, me formar na escola pra poder matricular minha garota.

— Tu já viu favelado de sucesso? — Dr. Edmilson deu uma tragada no cigarro. — Meu pai encheu a cabeça de uma porrada de gente com Normalizador e o cacete. Mandou uma porrada de nego lá pra baixo pra ser alguém. Nunca vi nenhum deles virar nada.

— Por quê?

— Sei lá, porra. Existe barreira pra caralho pra gente. A Norma é só uma. Como sua mãe falava, a gente nasceu pra limpar merda.

Aquilo me fez sentir um lixo, como se tivesse perdendo meu tempo me importando com a Zana. Melhor ensinar ela a obedecer pra poder limpar direito a casa dos outros. Eu valorizava a opinião do doutor, porque minha mãe adorava ele, mas ela acreditava que existia uma chance.

— Tá ajudando muito, doutor. Tu quer que eu veja minha menina se escravizando por um punhado de moeda?

— Olha só, dona Abá. — Edmilson levantou, dando uma última pitada no cigarro antes de amassar a ponta dele num cinzeiro. — Tu tem que pensar sobre isso. Os gringos vêm pra cá e falam cheio de sotaque. Tem Norma nenhuma pra eles. Mas nossa língua daqui de cima ofende. Tem sotaque agressivo. Num é uma língua branca, sacou? Pra eles, é suja. De pano de chão. Língua de quem vende relógio falso. De quem pega coisa dos outros. — Ele se ajeitou na cadeira. — Não tô querendo colocar mais Normalizador em ninguém. Isso vai dar merda e acho que não leva pra lugar nenhum.

Faz as pessoas serem alguém, pensei, mas não tinha forças pra falar. Ser questionada pelo Dr. Edmilson era doloroso por vários motivos. Primeiro, porque mamãe achava o desgraçado um santo. Segundo, porque ele era a minha ponte com a realidade lá de baixo. A única pessoa que podia levar a gente pra tentar a dignidade.

— Bora tirar isso aí logo, pra não dar merda — disse o doutor, levantando.

Minutos depois, meteu bisturi na minha cabeça, girou e fez sei lá mais o que pra remover o Normalizador. Depois, passou uma água esquisita pra fechar a cicatriz completamente. Não dava pra ver nada no espelho. Só um tiquinho de cabeça raspada.

Quase não senti dor, mas meu foco tava em outro lugar, no futuro da Rosana. O Marco sabia se virar, esperto pra porra, nem um pouco inocente, mas ela precisava de uma educação que eu não podia dar ainda. Marco tinha pés rápidos, a ginga dele, sabia fazer qualquer serviço, desde lavar pratos até construir puxadinho. E curtia a parada. Crescia rápido e tava com os pés num caminho que não tinha mais volta. Mas a Zana, porra, tinha aquilo que ninguém ali em cima podia ter. Sonhos. E sonho de filha é sonho de mãe. Então, eu tinha que me formar na escola e arranjar um jeito da língua dela encher de pompa pra falar tudo dentro da Norma, mesmo que o Dr. Edmilson recusasse a colocar um Normalizador nela. Não ia ver minha menina raspando os sonhos dela da sola dos outros.

***

Tava na aula de matemática, minha favorita, coçando a cabeça onde o doutor tinha mexido.

— Alguém sabe o seno de 60 graus? — perguntou Dona Mariana, caneta preparada pra escrever no quadro branco. Acima dela, numa faixa, letras grandes lembravam que a língua culta é a porta de entrada para o mundo.

Sabia a resposta, mas preferi não falar. Sem o Normalizador, eu podia falar alguma palavra esquisita. Dona Mariana me olhou por um tempo, sabendo que eu normalmente respondia, mas só fixei meu olhar no caderno em branco.

Era o final do meu segundo ano. Mais um ano inteiro e eu correria dali com o pedaço de papel que garantiria o futuro de Rosana. Existe barreira pra caralho pra gente. A Norma é só uma. Eu só precisava ficar quieta, na minha, falando pouco, medindo cada palavra. Eu era o grande exemplo da escola. O diretor falava que eu provava que bastava esforçar pra ser alguém. Parecia que, ali embaixo, as pessoas cresciam ouvindo isso.

Era um papo diferente do que falavam lá em cima. Mamãe era de uma época antes da Norma, quando ainda tinham armas demais circulando pela favela. Depois, desarmaram geral, legalizaram drogas, deram livros de graça, mas enfiaram a Norma na gente. Tira um muro, monta outro. É sempre assim. Mamãe se esforçou pra cacete, desafiando tudo e todos, até que perdeu a vida de tanto esforço. Nunca conseguiu o que merecia.

— Abá? — A voz da Dona Mariana me despertou. O papo de senos tinha acabado. Todo mundo me encarava. Parecia até a primeira semana de aula.

— Sim? — falei, tremendo um pouco com o som da minha própria voz. Nada podia sair errado.

— É verdade? — ela perguntou, franzindo a testa. Diogo tava curvado na carteira da frente, sussurrando alguma porcaria pra Dona Mariana. — Diogo está dizendo que você transgrede as regras da Norma e utiliza aparatos tecnológicos para alterações neurais.

— Eu não…

Engasguei. Meu coração parecia um tambor.

— Ela usa o hack das favelas — Diogo disse, coluna ereta, sorriso zombeteiro na cara. Todos me encaravam. — Tem um médico clandestino perto dela que instala o hack.

— São acusações fortes — Dona Mariana disse, mordendo os lábios e olhando pro Diogo. — Precisaremos que ela se dirija à sala de um Revisor. Você sabe que seus pais podem responder por isso, caso sejam acusações falsas, certo?

— Sei, professora — ele falou. — Estou convicto do que digo.

Dona Mariana me adorava. Eu era uma das alunas favoritas. Mas, acima de tudo, ela respeitava a Norma.

Ela se aproximou e falou: — A Revisão deixará você em paz, Abá. Vá lá. Faça. Traga o certificado. Peço desculpas, mas precisamos seguir as regras.

— Nunca precisei fazer Revisão.

— Não há problema — ela disse, apertando um botão no celular. — O Revisor apenas fará algumas perguntinhas.

— Professora. — Diogo levantou a mão. — Lembre-a que ela pode perder a guarda dos filhos.

Eu sabia. Dr. Edmilson já tinha me explicado as consequências do que mamãe tinha feito. Mas não precisava ser lembrada. Bati na mesa e levantei. Dona Mariana segurou firme meu ombro, me direcionando pra porta. Eu fui. Quando passei pela mesa do Diogo, me curvei e cochichei o que tava entalado:

— Filhodaputa!

Um segurança entrou na sala.

***

A sala do Revisor era maior que minha casinha, onde Rosana devia tá me esperando ansiosa, esfregando o chão e a louça, sem saber por que a mãe demorava tanto. As paredes do lugar eram brilhosas pra cacete, enceradas, cheias de quadros com frases.

Minha pátria é a norma culta.

A boca que fala palavrão é a mesma que rouba sua vida.

O filho do seu vizinho fala errado e frequenta a escola do seu filho? Denuncie!

Também parecia ter olho em todo canto. Nas paredes. No teto alto. Nas portas. Até no monitor em cima da mesa, a única coisa em cima dela, iluminado por uma luz forte cor de gelo, vinda do teto.

O segurança tinha trancado a porta quando me largou ali. Eu num ia conseguir fugir, então era bom preparar a língua. Era hora de ser culta pra cacete, de botar em prática tudo que meu cérebro transformado me obrigou a falar durante anos. Se não fizesse aquilo, meus filhos tavam condenados.

Tu quer limpar merda dos outros no Leblon?

A maçaneta fez um clique.

Entrou um cara magrelo, barba aparadinha, cabelo ensebado, fedendo a loção chique. Usava camisa social com o símbolo do Governo, abotoada até o último botão. Sorria. Sorria como se eu fosse uma velha amiga. Me tremi toda.

Zana, querida, mamãe logo vai tá em casa.

— Chamo-me Roberval. Sente-se. — Ele deu a volta e sentou do outro lado. Os quadros bizarros atrás dele eram como lembretes, a luz forte batendo nos vidros e jorrando no sebo de seu cabelo.

Sentei e a cadeira guinchou. Dei um pulo.

Merda. Quase falei e me condenei logo de cara. Por sorte, tudo que saiu foi um gemido.

— Bem-vinda à Revisão, Abá — disse Roberval, olho pregado em mim, sem esconder os dentes retos. — A Revisão é um procedimento necessário para que indivíduos não infrinjam a Norma. A Revisão é apenas um dos passos para uma sociedade perfeita, livre de problemas.

Ele virou o monitor pra mim.

— Preciso exibir o vídeo sobre a Norma? — Era a merda que precisei ver quando mamãe me matriculou na escola.

Fiz que não. Vou tá em casa logo, Zana.

— Você conhece suas acusações?

— São falsas — falei, respirando fundo.

— Responda à pergunta.

— Sim.

— Você já utilizou linguajar não adequado ou vulgar dentro de instituições governamentais tais como escolas, universidades, tribunais, fábricas?

Ele vai saber quando eu mentir. É treinado pra essa porra.

— Sim, porém fui advertida.

— Você utiliza procedimentos ilegais para que sua voz se adeque à Norma?

— Não. — Torci pra que o desgraçado não pegasse essa mentira.

— Você conhece pessoas que trabalham com procedimentos ilegais relativos à Norma?

Dr. Edmilson.

— Não.

— Você educa sua família perante as regras da Norma, fornecidas gratuitamente a todos os cidadãos brasileiros?

— Sim.

— Você está ciente das regras da Norma neste momento e sabe que deve utilizar apenas a Norma dentro desta escola?

— Sim.

— Fale-me sobre você e as pessoas que vivem com você.

Era agora que os babacas iam trincar minha língua.

— Eu… — hesitei. Era difícil falar certo e, ao mesmo tempo, lembrar que Rosana tava me esperando, pensar que ela ia acabar passando pela mesma merda quando fosse mais velha. Minha cabeça fervia. Eu tava prestes a me ferrar. — Moro com minha filha. Ela se chama Rosana. Eu também moro com meu filho. Ele se chama Marco. Eles trabalham na casa. Eu assisto às aulas.

Roberval mexeu a cabeça, sorriso murchando em lábios finos e tensos. Me pegou. Descobriu. Ele levantou, devagar pra caceta. Abriu uma gaveta. Pegou um treco de ferro, com uma ponta que parecia agulha. Eu tava suando, as gotas coçando no pescoço. Putaquepariu, Zana, vai dar tudo certo. Tem que dar.

Ele deu a volta na mesa e parou do meu lado.

— Você entende que sua progenitora infringiu a Norma?

Tossi com a pergunta. Ele meteu as mãos na minha cabeça, alisando, tipo dedos em busca de piolho.

— Sim — falei, contra minha vontade. Eu também posso rotear meus pensamentos. Não preciso do Normalizador.

— Você entende que sua progenitora mereceu o que lhe foi dado no fim?

Apertei os braços da cadeira. Queria derrubar o magrelo. Ele ia cair com um empurrão só. Podia roubar a chave que devia tá no bolso dele e fugir pra longe. Vou te matar, desgraçado!

Ele espetou o treco de ferro na minha cabeça. Foi só uma picada. Agora, ele ia achar a porcaria da cicatriz ou sei lá o que sobrou dentro da cabeça. Dr. Edmilson tinha feito tudo pra esconder com o líquido esquisito, mas o cacete do Revisor era treinado.

— Responda à pergunta.

— Sim — falei, chorando. Meus olhos embaçaram.

— Por que ela mereceu falecer? — O aparato se remexia dentro de mim. Parecia que cabelo crescia pra dentro, rápido.

Tu quer limpar merda dos outros no Leblon?

Tu acha que a vida lá embaixo é liberdade?

— Por que ela… — Ela não merecia. — Ela ofereceu ensino gratuito a crianças que não tinham nada em suas vidas, porém não respeitou as regras da Norma.

— E o ensino fora das regras é…

— É proibido.

— Você concorda com a afirmação?

— Sim.

— Pessoas da… região onde você mora não costumam apreciar as regras da Norma. O que a motiva a segui-las?

— Minha filha será advogada.

Silêncio. O pior de todos. Aquele silêncio que dá vontade de quebrar tudo, porque tu sabe que, no fundo, só existe barulho e caos.

O sorriso voltou a preencher o rosto de Roberval. Agora ele ia me ferrar. Ia falar que descobriu tudo, que eu usava equipamento pra ficar dentro da Norma.

Eu ia ser expulsa da escola.

Zana nunca ia ser advogada.

Vai limpar merda dos outros no Leblon.

— Abá, você está dentro dos padrões da Norma. — Roberval removeu o treco de ferro da minha cabeça. Todos meus pelos arrepiaram. — Agradecido pela colaboração. Lembre-se que revisar é questionar a própria cidadania. Imprimirei seu certificado.

Vai te danar!

Levantei e saí da sala sem pegar papel nenhum.

Tô indo pra casa, Zana. Tô chegando.

***

Seu Lenilson do Buteco da Roça era o cara mais gente boa que eu conhecia. Magrinho, com bigode ralo, carregava sozinho caixas e mais caixas de cerveja pra abastecer os sambas do povo. Mas, pra mim, também era a cara da tragédia. Ele que tinha me contado da limpa da superpopulação, ele que tinha me contado que mamãe tava morrendo por causa da Norma. Dono do primeiro bar, logo na subida da favela. Porteiro das notícias.

— Dona Abá. — Passou um pano pela cabeça careca. — Um moleque subiu aí procurando a senhora. Disse que tinha uma mensagem.

— Moleque? Quem? — Eu já sabia a resposta.

— Camisa arrumadinha. Cabelo com gel. Falou que estuda com a senhora.

Diogo.

Corri como minha velha ensinou, subindo mais rápida que nunca, jogando as pernas o mais longe que podia. Sempre pensava que, nessas corridas, eu tava fugindo da vida, mas era o contrário. Tava sempre correndo pra encarar de frente as merdas que a vida jogava na minha cara.

O Dr. Edmilson tava estirado no chão, uma bala no peito, perto da minha casa. Um fuzuê de vozes se espalhava pelo ar.

— Um maluco armado, Abá — seu Irineu me contou, desesperado. — Parou o carro numa rua aqui perto, subiu e entrou na tua casa. O doutor tentou barrar ele, mas não deu certo, não.

Engoli seco, corpo tremendo. As duas horas que passei esmagada no trânsito pra voltar pra casa devia ter sido o tempo pro Revisor abrir um processo pelo erro do Diogo.

— Não entra lá, não. Ele pode atirar.

Mas eu fui, porque não tinha outra opção a não ser correr. Escancarei a porta de casa e o filhodaputa tava na cozinha, arma apontada na cara da minha menina. Ela chorava, encolhida num canto perto da nossa mesa bamba.

— Tua mãe hacker me processou, bebezinha — Diogo falou. Nem ele respeitava a Norma, mas era à prova da lei. Não precisava gastar a sola do Nike pra correr.

— Não foi culpa minha, Diogo — falei. — Deixa ela.

— Eu livrei o Brasil daquele doutor corrupto — Diogo riu. Tava nervoso pra caramba também. — E, agora, vou livrar o país de gente que nem você.

Veio na minha direção, tremendo. Levantou o braço e apontou a arma.

— Mamãe! — Rosana gritou.

— Diogo, vamos conversar — falei, da forma mais culta que consegui, roteando meus pensamentos, buscando o caminho mais sensato pra sair daquela situação. Mas tem vezes que não tem como ser sensata. Tem vezes que a vida vem com tudo e você só pode dar porrada de volta. E bater, bater, bater, bater.

Estiquei o braço pra pia, peguei uma faca e me abaixei. Diogo disparou. Uma, duas, três vezes. Errou todas.

Cravei a faca no braço dele.

A arma caiu. Ele gritou.

É assim que se grita, filhodaputa!

Eu tava cheia de nojo e medo. Correndo. Correndo de cara pra vida. Levantei a faca mais uma vez, quando o desgraçado caiu de joelhos.

Por um segundo, esqueci que Zana tava ali. Eu era toda lágrimas, a tinta usada pra escrever as normas ali de cima.

— Mamãe! Não!

Minhas mãos tremeram. A faca caiu. A Zana defendeu ele. Minha menina defendeu alguém. Minhas unhas tavam vermelhas, mas não era esmalte.

O pessoal lá fora abriu a porta e entrou, prensando Diogo no chão, envolvendo eu e Zana pra proteger a gente, catando a faca.

Peguei Rosana nos braços, mas tentei não encostar as mãos sujas de sangue nela. O pavor passou quando senti a bochecha quentinha da Zana no meu ombro. Depois veio o alívio, quando vi aquele bando de gente me ajudando, a casa enchendo, mãos que não tremiam botando as coisas no lugar.

Mamãe tava lá também. Em mim; na Zana; na Dona Zefa, que tinha aprendido a multiplicar com ela; no Seu Irineu, que contava as fofocas da novela pra ela; nos filhos dos dois, que tinham aprendido uma coisa ou outra. Ela tava um pouco em todo mundo.

Dona Zefa pegou meu braço e esfregou com álcool. Seu Irineu ofereceu um copo d’água pra mim e Zana. Minutos depois, Marco chegou e foi abraçar a gente. Os dois ajudantes do Dr. Edmilson levaram o Diogo pra fora, pra entregar pra polícia. Até Seu Lenilson veio, arrumou as coisas derrubadas e esfregou as últimas gotas vermelhas do chão.

  Mamãe tava certa de muitas coisas, mas tinha uma que você só consegue descobrir depois que sai pra correr. Quando se nasce ninguém, é difícil pra cacete ser alguém, mas a gente não corre sozinha.

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Renan

Renan Bernardo é escritor de ficção científica e fantasia. Transforma o calor do Rio de Janeiro em palavras. Em 2016, lançou A Sala do Tempo, seu primeiro livro, um terror paranormal que ganhou o “Wattys 2014”. Também tem contos publicados nas antologias Fogo de Prometeu e Vilões. Desde o fim de 2016, tem se aventurado na escrita em inglês.

Quando não está escrevendo, Renan trabalha com um supercomputador em um projeto de física de altas energias, que ele jura não ter a ver com buracos negros e dimensões extras. Visita menos do que promete sua newsletter, onde fala sobre escrita e suas aventuras escrevendo em um outro idioma. Por outro lado, está sempre caminhando pelas ruas lotadas do Twitter, o melhor lugar para encontrá-lo, tomando um mate com menta bem gelado e comendo queijo.