Beijo pouco, falo menos ainda

Mas invento palavras

Que traduzem a ternura mais funda

E mais cotidiana

Inventei, por exemplo, o verbo teadorar

Intransitivo:

Teadoro, Teodora

(Manuel Bandeira – A Morte)

 

 

1.  Namunyak.

 

Lá fora, em algum lugar, existia ainda aquele quarto ricamente decorado com temas africanos. Lanças, escudos e uma máscara tribal Masai nas paredes. Inúmeros lençóis coloridos, cobrindo o leito. Travesseiros com estampas de bichos e paisagens de savanas, empoeiradas na memória. Bolsas de soro, sondas, agulhas, aparelhos e frascos com pílulas estariam por lá também, contrastando com a decoração de cores fortes.

Lá dentro, contudo, havia um bosque espinhoso, de árvores retorcidas e pálidas, que cercava todo aquele universo com seu abraço tenaz. O céu parecia nunca esgotar sua cota de lágrimas frias, enlameando trilhas e esterilizando a terra com sal. Por todos os caminhos em direção ao centro, leõezinhos jaziam afogados em poças; baobás tombados, com raízes à mostra; guerreiros cobertos de varíola agonizando mortes desonrosas.

O vento uivava sem parar por entre os galhos finos: “Vá embora!”, “Deixe-me em paz!”, mas o nobre doutor Jorge Arenas nunca fora de dar ouvidos às vozes incorpóreas. Afinal, tinha uma missão a cumprir.

Depois de horas, dias ou meses — o tempo era sempre relativo em tais paisagens —, ele enfim alcançou um casebre de barro, esterco de vaca e galhos, em meio a uma clareira da floresta-labirinto. Sem pedir licença, afastou uma cortina de capim seco junto à porta e entrou. Estava escuro lá dentro, mas era possível discernir uma cama hospitalar no centro do único cômodo, onde algo jazia, quase inerte.

— Não é bem-vindo aqui, estrangeiro cor de fome e enfermidade — rosnou, sem cerimônia, uma criatura humanoide com cabeça de hiena. — Vá embora! Deixe-me em paz!

— Pois vim sem convite, mesmo. — O doutor sorriu. — Posso me sentar?

A coisa piscou os olhos escuros e cansados. Girou a cabeçorra, curiosa pela invasão e pelo atrevimento. Ergueu as costas do colchão de espuma de silicone — exótico àquela choupana primitiva — e expôs veias, nervos e tendões, que, como um rendado elástico, ligavam-na ao mundo ao redor.

— Seu tempo aqui acabou — sentenciou o homem. — Já a deu o suficiente de você mesma. É hora de ir embora, de seguir adiante.

Surpresa, a entidade jogou o pescoço para trás. O focinho se enrugou numa imitação ruim de gargalhada, esboçando dentes amarelos irregulares. O som de sua risada histérica parecia ecoar de todas as partes do local.

— Ora, mas se a morte dela ainda não chegou, se Enkai ainda não a quer de volta, ainda é cedo. Ninguém me dá ordens; eu sou aquela quem nivela covardes e heróis — ela disse. — E não há essa coisa de “suficiente”. Sempre posso dar mais. Muito mais.

Em resposta, a criatura agarrou parte do rendado de suas costas e torceu com violência, cerrando os dentes com prazer. O microverso inteiro tremeu. A chuva se intensificou lá fora. Espinhos da floresta ficaram mais agudos. Ventos sopraram desesperançados.

Jorge observou a coisa à frente com quase pena no olhar. Eles eram todos sempre assim: tão orgulhosos, tão poderosos em seus reinos mesquinhos. Discursavam, diziam bravatas, demonstravam poder. Seguiam um roteiro nunca lá muito criativo.

— Acho que não fui claro. — Jorge sacou uma faca do cinto. Num único golpe, rasgou o “rendado” das costas da mulher-hiena, que tentou mordê-lo, enquanto ele agilmente saltava de lado. — Não vim aqui pedir nada. Seu contrato é finito! Acabou, entendeu?

O mundo sacudiu outra vez. A choupana, de súbito, desapareceu junto à cama, floresta e céu chuvoso. O próprio solo infértil e encharcado sumiu sob os pés de ambos. Estavam, logo, rodeados por um breu sem substância, a entidade desorientada.

— Eu tenho esse poder, não muito útil pra mim, mas bem efetivo contra os de sua espécie — ele explicou, ao passo que limpava a lâmina na perna. — Você tem a opção de ficar aqui, sozinha e inofensiva na escuridão, até que seu deus Enkai venha buscar sua hospedeira, ou pode me acompanhar e viver com outros iguais. Se fosse você, eu aceitaria meu convite. O tempo aqui passa lentamente. Deve ser muito aborrecedor esperar… — Ele esticou o braço, oferecendo-a a mão.

Impotente, a criatura começou a chorar baixinho. Aproximou-se e deitou a pata peluda sobre a palma de Jorge. Em meio a soluços, comentou:

— Ela sempre teve muito medo de hienas, sabia? Nunca gostou também de beber leite com sangue ou comer carne crua. Era malvista por causa disso, nos tempos antigos da tribo em Ngorongoro. Mas, mas… fiz daqui o meu lar. Ora, isso não é justo… Não é!

Jorge colocou o outro braço por sobre os ombros da criatura. Não havia necessidade de ser cruel, de pisar quem já estava derrotada. A mulher-hiena devolveu-lhe um olhar agradecido no semblante feioso.

— Não é. Nunca foi. — Ele suspirou, antes de ambos desaparecerem dali.

***

— Mamãe está curada? — perguntou, aflita, uma moça magra e alta, quando Jorge despertou do transe. Ao fundo, uma idosa calva e de pele escuríssima agora dormia tranquila, expressão serena. Os aparelhos registravam pressão arterial normal e batimentos cardíacos sem oscilações.

— Não — ele respondeu. — Minha secretária não lhe explicou a natureza de meus serviços? Não curo ninguém. Apenas removo dores. Podem suspender a morfina, mas o tratamento para o câncer deve continuar. Você tem meus dados bancários para o pagamento combinado?

— Tenho, sim.

— Ótimo! — Jorge procurou onde deixara os óculos e o paletó. — Ah, diga à senhora Namunyak, quando acordar, que ela não precisará mais ter medo de hienas.

***

2. Theodora.

 

Anos se passaram e sua vida era boa. Cada cliente desesperado pagava uma média de cem mil dólares por seus serviços, depositados em sua conta em Luxemburgo, ou em Genebra, ou nas Cayman, sempre no sentido oposto dos ventos em que navegavam os auditores fiscais. Os clientes recomendavam-no também, avidamente, uns aos outros, em uma espécie de propaganda secreta boca a boca. “Jorge Arenas: o guru extirpador da dor.”

O doutor acumulara patrimônio de alguns milhões, não se sentindo mais compelido a usar seu poder com frequência. Às vezes, apenas, em raras demonstrações de altruísmo, visitava hospitais públicos e aliviava setores inteiros de suas dores, secretamente. Divertia-se depois, ao observar médicos sem explicações para o “milagre”.

Fora isso, vivia de festa em festa, recuperando-se do jet lag constante, de ressacas curadas sobre ressacas anteriores, alimentando-se de canapés e queijos finos, ou daquelas porções minúsculas e espumas de restaurantes estrelados.

Então, nalgum banquete meio cafona de um conhecido de um conhecido, festa daquelas cheias de subcelebridades, com cascata gigante de camarões com molho rosé e Jazz Lounge tocando num maldito loop infinito, que viu Théo pela primeira vez.

A mulher duns trinta e poucos fumava sozinha na varanda escura, em tempos nos quais ninguém com menos de cinquenta e mais de dezoito fumava. Trajava um vestido negro cintilante, de costas nuas, embora a temperatura lá fora beirasse zero grau. Não tremia nem parecia se importar. Sequer parecia ter conhecimento do frio. Apenas soprava anéis de fumaça, mesclados ao vapor da própria respiração, e acompanhava com olhar enfadado o desvanecer de suas criações no céu sem estrelas.

— Não. Eu não me importo com a droga da minha saúde. Não faço questão de entregar um cadáver saudável aos legistas quando eu virar comida de verme — ela resmungou quando notou o estranho se aproximando.

— Há, há, há. Desculpa. Não, eu não ia comentar sobre o cigarro. Não fumo, mas não é problema meu.

Ela se virou e acendeu outro. Quando Jorge encarou seu rosto iluminado pelas chamas do isqueiro, sentiu-se subitamente perdido e pequeno. Paralisia-fascínio de presa que, de repente, esbarra com um robusto felino na mata. Blake teria recitado Tyger, Tyger!

Os olhos dela tinham um tom verde-escuro raro, as pupilas raiadas de outras nuances esmeraldinas. Passaram-lhe a sensação — não de todo agradável — que se tem ao se observar dentro de um poço antigo, com um tapete de musgo e samambaias, ou um mar de sargaços, com monstros espreitando sob a superfície imprecisa. Cabelos escuros cascateavam até os ombros nus leitosos, que completavam o visual de diva de filmes noir.

— Não fuma? Quel est alors ton poison? — Ela sorriu. Embora tivesse belos dentes, aparentou ser um sorriso social, mera convenção, um entreabrir de lábios, sem real alegria nem calor.

— Não falo bem francês…

— Qual é, então, o seu veneno? — ela traduziu. — Meu francês é também uma boa porcaria, mas costuma causar boa impressão quando estou menos bêbada. Poderia ser cavalheiro e me trazer outro Manhattan, hã… qual seu nome, senhor “cachinhos castanhos”?

— Jorge. — Saiu da varanda, foi ao bar e retornou com a bebida.

— Essa era a preferida de Al Capone — ela comentou, ao bebericar do drink. — Prazer, sou a Théo — Theodora —, mas não ouse me chamar assim! Então, ficará até mais tarde pra provar da ayahuasca do Bertrand?

— Quem?

— O anfitrião, careca aniversariante de pulôver xadrez ali no meio da sala, ô cacete! É penetra, Jorge?

— Não.

— De qualquer forma, é provável que tudo seja falso, coisa “ai-ai-olha-só-como-sou-descolado”. Acho difícil ele ter a coisa real, aqui em Bruxelas. Sabe, talvez seja só um panelão de chá verde com gengibre ralado e gelatina de abacaxi, pra ficar amarelo e viscoso, mas os gringos otários vão alucinar da mesma forma. Humm, uma vez bebi café descafeinado à noite e não consegui dormir por ser café, e nunca durmo se o faço depois das oito, mas, se era descafeinado, era meio placebo, não? Dormi quando racionalizei que era inofensivo, mas despertei outra vez quando lembrei que placebos funcionam se você crê neles. Talvez, agora, café descafeinado lhe causará insônia, Jorge, se você se recordar de nosso “encontro às escuras”. — Théo piscou um olho.

A conversa fluiu aleatória, em associações curiosas. Ela soava inteligentíssima e inquieta. Parecia conhecer de tudo, ter interesses díspares e opiniões originais. Nascera no interior do Rio de Janeiro, fora professora de matemática em Oxford e era viúva de um empresário húngaro do setor de perfumaria.

Deitado mais tarde no hotel, Jorge enumerou na cabeça alguns dos assuntos levantados por Théo, em ávida sequência: idiomas urálicos e a importância do “de que forma?” e não do “quando?”, e sua influência na alma húngara; ruivos teriam certamente mais DNA neandertal; religião e o Zeitgeist da Idade Média, centrado no pós-vida; seriam as revistas de fofocas disseminadoras de mensagens criptografadas ou mecanismos de um plano nefasto de idiotização das massas?

O importante, pensou o doutor Arenas, é que tinham trocado contatos. Ele sabia que sua vida não seria mais a mesma.

***

Por sete dias seguidos, Jorge apenas conseguiu deixar recados que nunca foram retornados. Passada a semana, quando já havia parado de insistir, ela enfim ligou.

— Me desculpe, Jorge. De repente, tudo ficou… escuro. Nada mais fazia sentido. Eu não tinha ânimo nem sequer pra levantar ou ter pena de mim… Hoje, finalmente, comi algo e tomei banho. Isso vem e vai. Meus remédios não funcionam mais.

— Depressão? — ele perguntou.

— Em parte. Transtorno bipolar… — Suspirou. — Dói até na alma, às vezes. E eu poderia, em outros dias, devorar o mundo…

— Podemos nos encontrar, Théo? Acho que posso ajudar.

— Você é terapeuta? Ou só tá querendo me comer?

— Não sou. Sim, mas não é só isso que quero. — Ele riu.

— Então vem. Anota meu endereço.

***

Jorge alugou um carro esportivo para impressionar. Conduziu até o destino, orientado pelo GPS. Era uma propriedade antiga meio decadente, numa vila próxima, enormes jardins relvados e bons hectares de extensão. Uma governanta veio recebê-lo e ele subiu até o terceiro andar do casarão num elevador com porta pantográfica. Uma enfermeira o esperava; conduziu-o até o quarto.

Deitada, numa cama com dossel, Theodora estava bastante abatida. Seus olhos se assemelhavam a pedras baças. O cômodo cheirava a noites insones.

Por quase hora, Jorge explicou como descobriu seu poder, quando, com quinze anos, por acidente, viu-se transportado para dentro de uma cidade em chamas, ao segurar a mão de sua mãe durante uma crise de terríveis enxaquecas em salvas. Numa terceira incursão, semanas depois, esbarrou com o Avatar da Dor dela, escondido numa torre no centro da cidade.

— Era uma aranha flamejante, grande como um hipopótamo e com o rosto de mamãe. Martelava a cabeça sem parar contra as paredes. Ela sempre odiou aranhas, sabe? Cada pessoa tem um ou mais. Criações do inconsciente do hospedeiro. Vivem da dor que produzem. Com o passar dos anos, desenvolvi procedimentos e armas mentais. Precisei de dez sessões até remover o Avatar de minha mãe. Hoje em dia, faço tudo em menos de duas horas, em tempo real. Você não tem dor física, mas… eu poderia tentar contigo?

— O que preciso fazer?

— Feche os olhos e relaxe. Me dê sua mão.

***

Um conjunto de escadas de Escher, que subiam, retorciam-se em ângulos impossíveis e não levavam a nenhum lugar, deu-lhe boas-vindas. Curvas desenhadas por complexas equações polares se entrelaçavam.

Ao encontrar uma passagem numa porta escondida, Jorge penetrou uma subcamada de paradoxos e becos sem saída. “Poderia Deus criar uma pedra tão pesada que nem mesmo Ele poderia erguer? Se não pode criar, não é onipotente. Se pode e não consegue levantá-la, não é onipotente”, alguém recitava com voz monocórdia. Dúvidas existenciais e dogmas eclodiam sob forma de serpentes, a partir de ovos cinzentos, e se enrolaram em suas pernas.

— Ah, não! Cobras não! — ele gritou, enquanto pisoteava os répteis.

Arrastou-se por um pântano de pensamentos suicidas. Cruzou um oceano de lágrimas fractais. Subiu uma montanha de amores não correspondidos. Baixou até um vale de gargalhadas desesperadas.

Rompeu outra camada e, além, só havia escuridão, espessa e enlouquecedora. Por teimosia, seguiu — talvez por eras.

Encontrou um casebre decorado por azulejos hidráulicos, de aspecto familiar. Casa de mamãe? Como?, pensou. Jorge adentrou a porta entreaberta.

— Olá. Seja bem-vindo — cumprimentou-lhe uma naja de duas cabeças, de cujo corpo brotavam milhares de filhotes. — Esperávamos por você.

Jorge ia começar o discurso de expulsão, quando notou que a coisa tinha, além do rosto de Théo, seu próprio rosto também.

— Confuso, doutor? Uma das escadas Escher levava de volta à sua própria mente. Foi por onde entramos e nos fundimos a seu próprio Avatar. Você também saiu de Théo e acho que nunca o notou. Estamos, agora, em casa — ela explicou, como se abrisse braços invisíveis. — Ordenamos que liberte todos nossos irmãos e que passe a nos servir.

— Mas a Théo, eu tenho que…

— Ela entregou você, em troca de a abandonarmos para sempre. Não foi óbvio? Há muitos anos que a consumimos e escurecemos suas pequenas alegrias com apatia; para, depois, entregarmos overdoses de falsas felicidades. E outra vez, e outra vez! Ah, podemos ser bastante convincentes! Houve um acordo, um negócio: você foi moeda de troca.

Jorge sacudiu a cabeça em negação e gritou. Avançou com a faca em punho e atingiu o abdome da criatura, que se partiu em dois e cresceu outra vez, rapidamente.

— Não! Como você costumava dizer aos nossos irmãos, “é hora de se seguir adiante”. — disseram as duas a uma só voz, com um sorriso cheio de presas. — Ansiamos que nos leve a conhecer o mundo para fazer as pessoas entenderem que sempre é possível cavar um poço no fundo do poço, a nos ajudar a semear nossos bebês em cada mente. Vamos, nosso próprio Arauto da Dor! Dá-nos tua mão. Não apreciamos violência desnecessária, mas não hesitaremos em usá-la com vigor!

— Isso, isso não é justo — disse ele, desorientado.

— Não. Nunca é. Nunca foi. E essa sempre foi a graça das mudanças!

***

A lateral da cama, onde ele sentara, ainda estava quente. Através das cortinas, Théo viu Jorge, caminhando como um condenado até o cadafalso, o peso do mundo sobre os ombros. Entrou no carro parado no pátio, deu a partida e saiu. Quando chegou ao portão, chamou o porteiro, apertou sua mão e deixou o pobre homem contorcendo no chão.

Se não notasse com alívio o fim da escuridão que sempre a atormentou, Théo até sentiria uma pontada de tristeza pelo destino do doutor. No entanto, era hora de seguir adiante. Seu novo futuro brilhava como o sol fazia lá fora, alegre.

E, agora, real outra vez.

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Rubem

Rubem Cabral é Engenheiro de Software, nascido no Rio de Janeiro e radicado desde 2018 em Portugal, onde vive em uma propriedade rural aprendendo a ser fazendeiro. É autor da coletânea de contos fantásticos A Linha Tênue (Editora Caligo), e participante de várias antologias: Erótica Fantástica (Draco Editora), Caminhos do Fantástico (Editora Terracota), Boys Love (Draco Editora), Livros Apócrifos (Editora Caligo), dentre outros.

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