“Asas. Alrane nascera com asas”.

No lugar dos braços, havia articulações curvilíneas que se adaptavam ao redor do corpo. Estranho foi quando ganhara uma coloração cinza e depois negra. Os poucos antepassados que tiveram asas eram sempre em colorações mais comuns, sem tanto contraste com a pele. Mas, no fundo, não importava muito. Havia um novo integrante da família com uma das partes mais cobiçadas de um animal. Asas.

“De imaginação solta e asas abertas Alrane brincou”.

Gostava de cantar para os passarinhos e sorria quando eles se aproximavam. Batia as asas na chuva para sentir e ver as gotas se espalharem. Subia em pedras e ficava na ponta dos pés com os braços-asas abertos, sentindo o vento passar e desafiando-se a equilibrar-se. A melhor parte era quando o vento brincalhão a empurrava com um sopro e lhe fazia sair da pedra deixando-a por alguns instantes com os pés fora do chão antes de cair sentada. Ela gargalhava e pedia por mais.

“Alrane tinha coragem”.

Corria. Abria as asas, impulsionando-as contra o ar. Suspendia os pés. Entretanto, não ia longe nem alto. Não por falta de vontade. Ela apenas não sabia que podia.

Quando atingia o desconhecido, voltava ao chão. Algo triste de fazer. Ela imaginava se alcançaria os pássaros, mas a maioria das pessoas a advertia: “Não é hora”, “Fique perto do chão”, “Vai se machucar”, “Imagina se você não voltar?”

Não havia ninguém com asas por perto em quem Alrane pudesse espelhar-se.

“Alrane não entendeu quando descobriu que ter asas o tempo todo não era uma opção: seu sorriso recuou”.

Passado um tempo, seus pais começaram a se preocupar. Não por Alrane se manter no chão — isso era segurança —, mas porque ela não realizava a transformação de suas asas para braços novamente, como deveria. Afinal, a garota não era um pássaro. Apenas uma pessoa com asas, que precisava de seus dois lados; precisava aprender a conviver como os outros. Viver normalmente.

― Não voa nem se transforma? Ela deve ter algum problema, já a levou a um especialista?

A menina fingia não ver as expressões de seus pais.

― Algumas crianças demoram mais tempo, mesmo. Se a irmã dela teve facilidade, não significa que seria o mesmo para ela. Crianças são diferentes. Na mesma família e com a mesma criação, os resultados nunca são os mesmos.

“Alrane fingia que continuava a brincar como se não entendesse, mas a diversão lhe abandonava e ela dava um passo”.

Passado mais tempo, as frases começaram a se voltar diretamente para ela:

― Precisa crescer, Alrane. Precisa encolher as asas de vez em quando.

― Parece uma doença. Não consegue se livrar das coisas de criança…

― Tem que começar a ter ideias novas, diferentes.

― E os amigos? Por que não sai para se distrair e aprender com eles? Adolescentes da sua idade já têm outras coisas em mente.

Alrane tivera amigos, porém eles mudaram. Não mais queriam ver o riacho correr, subir em árvores por pura diversão, contar as folhas caindo nem dançar pelo puro prazer ao movimento… Seguiram o rumo do normal e Alrane não os acompanhara.

Ela ainda tinha sua parte animal consigo o tempo todo; não aprendera a controlá-la. Não se encaixava. Nem se importava. Não por si mesma.

“Mas precisava se importar com os outros. E, dentro de si, o coração se apertou; tentou esconder seu ritmo impróprio. Doeu. A dor lhe fez dar mais um passo”.

Quando atingiu certa idade, seus pais optaram por contratar uma Mestra para ensiná-la.

Mestra Inara tinha lindas asas, marrons como sua pele, e voava com tanta facilidade que parecia fazer parte do vento. Era lindo.

Já havia ensinado muitos outros, mas Alrane…

Alrane era difícil. Compreendia teoria, estudava, tentava. Tinha a estrutura perfeita para voar, mas desequilibrava quando os pés saiam do chão. Tentava transformar as asas em braços, mas parecia ter medo e travava.

Inara nunca a compreenderia. Aprendera a voar e se transformar com naturalidade. Ensinara a outros que tinham problemas visíveis: erro no bater de asas; força aplicada demais, de menos ou no lugar errado; medo de altura; traumas passados…

Alrane não ostentava problemas visíveis. Não se desequilibrava quando saia do chão: sentia-o puxá-la. Não tinha medo de transformar as asas em braços. O que sentia era bem pior.

Um vazio.

Iria devastá-la se continuasse.

“Alrane queria se fechar em suas asas. Esconder-se nelas para sempre. Não o fazia porque as pessoas julgavam. E, nesses momentos, ela dava um passo”.

Então, o pior foi feito: mandaram-na para outro lugar, um de métodos rígidos e ideias retrógradas. Um lugar onde ensinavam — ou tentavam — várias pessoas diferentes ao mesmo tempo, com uma só fórmula, exigindo os mesmos resultados.

Gostando ou não, funcionou. Não pela rigidez ou gritos. Funcionou porque Alrane não queria mais ser julgada, pois desejava, acima de tudo, esconder-se de todos; não aguentava mais o que lhe diziam.

Foi o ato mais triste que Alrane cometeu. Mudou-a para sempre.

“Alrane nunca mais voou. Mas, neste instante, tinha braços como a maioria das pessoas. E ela deu mais um, dois, três, quatro passos”.

Agora, aos olhos alheios, Alrane era normal. Ia bem nos estudos. Sorria e cumprimentava as pessoas da família. Mergulhava nos pequenos prazeres descobertos. Um deles ainda era olhar os pássaros. No começo, fora triste fazê-lo. Sentia como se tivesse deixado para trás algo de que precisava. Algo grande e essencial, um pedaço que ainda sangrava. No entanto, foi se acostumando, lenta e silenciosamente. Logo, observar os pássaros se tornou mero passatempo.

“Deu mais um passo”.

Num dia de prova — coisa sem muito sentido —, Alrane descobriu que seriam feitas em duplas, por sorteio. Sentou-se numa das cadeiras e esperou. O relógio marcou o horário de início e quem faria com ela não havia chegado.

A porta se abriu. A cortina nela balançou com a passagem dos alunos. A turma da professora Lizi, Olhos de Águia. A única a ter uma turma de alunos fixa, porque todos eram camaleões. Ou melhor, tinham a pele de camaleões. Portanto, para se manterem na linha, era necessário o uso de olhos aguçados.

Um dos garotos da turma se sentou ao seu lado. Não lhe dirigiu o olhar. Somente pegou o lápis e fitou a folha sobre a mesa.

Foi a prova mais fácil que ambos fizeram. Concordavam nas respostas e o que um não sabia o outro respondia. Logo terminaram, porém só poderiam sair no horário.

Sem palavras a dizer, encontraram na visão além da janela a distração perfeita: pássaros. Sob a chuva fina, iam de um lado a outro, cruzando o céu.

― Quem são os mais livres? Pássaros ou camaleões? ― Alrane perguntou em tom baixo, sem tirar os olhos da janela.

A resposta não veio de imediato e Alrane teve medo de tê-lo ofendido, até escutar:

― Os não vigiados por olhos de águias.

Ela sorriu, voltando o olhar para o garoto, que fazia o mesmo.

― Faz parte de algum dos dois grupos? ― ele perguntou.

― Por educada nomeação social, faço parte dos pássaros.

― Educada nomeação social… ― ele repetiu, franzindo a testa, pensativo. ― E se fosse uma nomeação mal-educada?

Alrane achou graça.

― Ela diria que faço parte dos fracassos ― respondeu, sem pesar na voz.

― E todos aqui não fazemos? ― O garoto deu um meio sorriso. ― E se não fosse por nomeação social nenhuma, acha que faria parte de que grupo?

― Nenhum, eu espero. A sociedade me parece querer nos colocar em caixinhas.

Uma mão estendeu-se por cima da mesa. Alrane a apertou.

― Faruak.

― Alrane. Já li seu nome em um livro.

Segredo Severo ― ele completou, desanimado.

― Não gosta?

― Me parece exagerado o esforço do personagem para manter em segredo algo tão bobo.

― Era importante para ele.

― Sim, mas ele passou por situações horríveis para protegê-lo. No fim, era só um poema, que somente o próprio Faruak entendia. Ou seja: se alguém descobrisse, não mudaria nada.

Alrane maneou a cabeça num “talvez”.

― Acredito que era puro para ele. Faruak interpretava do modo que deveria ser interpretado. Se outra pessoa lesse o poema, poderia tê-lo criticado, distorcido, considerá-lo… bobo. ― Alrane viu a professora Olhos de Águia de soslaio e sua mente juntou uma coisa à outra. ― Pássaros e camaleões só são livres quando não vigiados por olhos de águias. Um poema, como o da história, só pode ser ele mesmo se não houver quem o distorça. Acredito que seja isso. Faruak queria mantê-lo livre.

Tocou-se o sino em frente à sala. O tempo acabou. Os dois se levantaram.

― Estou te devendo uma. Se precisar de algo, avise ― Faruak disse.

― Devendo por quê?

― Pela primeira vez, gostei do meu nome.

“Alrane recuou um passo”.

As avaliações terminariam na semana seguinte. Havia só uma delas que assustava a todos, sem exceções: a prova da professora Odette. Ninguém sabia do que se trataria.

O dia temido chegou. Alrane e Faruak se viram de novo na mesma sala. Entretanto, nervosos, só sorriram timidamente em cumprimento.

― Vamos direto ao ponto — Odette iniciou. — É simples. Venham ao centro da sala e transformem sua parte animal. Depois, retornem à forma humana. Sem rodeios. A ordem será por sorteio.

Assim, um a um foi sendo chamado, as partes animalescas aparecendo e desaparecendo. Orelhas e focinho de lobo. Garras de falcão. Guelras. Cascos e cauda de cavalo. Escamas. Olhos de aranha. Tronco de crocodilo. Pele de camaleão.

― Alrane.

Ninguém se moveu. Contudo, olhares acusaram a garota de cabelos negros, que se mantinha quieta, quase imóvel.

― Alrane, sua vez ― Odette chamou, paciente. — Venha.

― Não. ― A palavra veio parecendo roubar o ar dos presentes.

― Por quê?

― Não quero.

― Uma prova é uma prova. Não pode deixar de fazê-la

Alrane não se moveu, tampouco respondeu.

― Alrane. Última chance. Caso contrário, será reprovada.

― Tudo bem.

― Tudo bem? É o que devo dizer a seus pais? “Tudo bem”, ela foi reprovada, pois recusou fazer a prova?

Não houve resposta.

— Fará a prova aqui ou com o diretor. A escolha é sua. Acho bom lembrar que o diretor não é paciente como eu.

Ela não queria. Sua vontade era sair dali e não olhar para trás. Ir para o mais longe que conseguisse. Mas… para onde?

Alrane sorriu com amargor. Um ser alado que tinha receio de ir não merecia seu par asas.

Sem saber ao certo o que fazer, Alrane se levantou, tremendo. Caminhou sem sentir os pés no chão. Não era uma sensação boa como se algo que não fazia parte dela a arrastasse, de modo que ela não pudesse contrariar.

“Alrane deu mais dois passos”.

No meio da sala, ela fechou os olhos e respirou fundo. Não adiantou. O coração não acalmou e seu corpo não parecia querer responder. Estava distante…

Apesar disso, ela afastou os braços do corpo lentamente, concentrando-se neles, imaginando no que deveriam se tornar. E eles começaram a se transformar. Não de forma contínua, deslizante, como acontecia com a maioria, mas como peças desencaixadas, que não encontram seus devidos lugares. Forçavam em vão, batendo, apertando, virando, estalando. Até se aquietarem. Não por estarem encaixadas, mas por não terem aonde ir.

As asas não revelavam defeitos visíveis. Ainda assim, faziam Alrane sentir uma dor terrível, que ela tentou não expor. Suas mandíbulas aguentaram o suficiente para que não precisasse gritar; doeriam por semanas com aquele esforço. Joelhos tremeram e, se não atingiram o chão, foi por pura adrenalina.

Estava pálida. Seus olhos lacrimejaram. As asas não estavam lindamente abertas em exibição, mas caídas ao seu lado, arrastando suas penas negras e inertes.

“Alrane deu mais muitos… muitos passos”.

Voltar para os braços doía menos, mas roubava-lhe o que restava: a vontade. Vontade de qualquer coisa. Principalmente de continuar viva.

Sem saber como, Alrane voltou para seu lugar. Não sentia seu corpo. Não via ninguém. O tempo passou e não escutou o restante das pessoas que foram chamadas, tampouco prestou atenção às suas transformações.

― Ei, Alrane. Suas asas são lindas!

Ela sorriu em resposta.

Deu mais três passos.”

Asas lindas? De que adiantavam lindas asas se não conseguia usá-las para voar? Alrane as tornara inúteis.

Desde a primeira vez em que as obrigou a se transformarem em braços, suas asas nunca mais apareceram sem estraçalhar-lhe por dentro, como se o fato de um dia tê-las trocado fizesse com que não mais lhe pertencessem, portanto não poderia mais voar, nem mesmo se lembrava de como fazê-lo.

Apesar de ter feito a prova, no dia seguinte estava sentada na sala de espera do diretor, seus pais lá dentro, ouvindo as reclamações sobre sua “falta de esforço”, sobre sua ousadia de dizer “não” a uma professora.

“Alrane deu mais um passo”.

Faruak chegou pouco depois. Mal-humorado, sentou-se. Demorou a percebê-la.

― Ei! Você aqui?

― É.

― Pelo quê?

― Pela recusa de fazer a prova ontem.

― Mas você fez!

Alrane deu ombros. Pelo visto, tê-la feito não importava muito depois de recusar.

― E por que você está aqui?

― Por andar me camuflando por aí.

A garota balançou a cabeça.

― Que sem sentido.

― Eu me camuflar por aí? — Faruak franziu a testa.

 ― Te proibirem disso. Deveria ser aceito como parte de você.

― Exato! As pessoas são doentes. Querem um camaleão que esteja sempre visível e um pássaro que só bata asas com os pés no chão. A não ser que a pele do camaleão ou as asas do pássaro sirvam a eles. Daí, tudo muda… ―Balançou a cabeça, indignado.

“Ela recuou dois passos”.

Alrane sorriu para ele, mas sorriso sumiu assim que a porta do diretor se abriu. Ela entrou.

― Uma aluna tão boa. Por que isso agora?

― Sempre tão educada. Nunca nos deu problemas com comportamento.

― Dizer “não” a uma professora? Que tipo de rebeldia tola é essa?

― Com quem está andando? Más companhias, aposto.

― Por que fez a prova daquele jeito? Tão estudiosa, exemplar…

A única coisa que Alrane aprendeu é que não importa quantas boas ações você faça, elas não serão levadas em conta quando te julgarem por algo que consideram um erro.

Seus pais deveriam entender, não?

“Alrane deu mais passos”.

Ela não tinha mais motivos para continuar. Não tinha há muito tempo.

“Ela parou a um passo de cair”.

Ali estava. À beira do buraco que cavaram para ela. O buraco para o qual a fizeram caminhar; às vezes, correr. Um buraco feito para seus pés, para que ali fincassem e criassem raízes, para que não houvesse mais necessidade nem possibilidade de voar. Seria seguro, confortável, socialmente aceito. Ficaria ali para sempre. Onde morreria. Não necessariamente quando parasse de respirar.

Era o que deveria fazer, não é? Podia ter asas, desde que com raízes bem profundas. Um pássaro que só batesse asas com os pés no chão.

“Alrane recuou um passo”.

Não por coragem ou desejo. Havia outras opções, outras formas de morrer.

Deu as costas para o buraco e recuou, correndo, sentindo os olhares de reprovação, que recebeu durante toda a vida, arranharem cada pedaço seu, as palavras duras espetarem, a falta de compreensão e o julgamento lhe queimarem.

O medo tentava detê-la, fazendo os pés vacilarem e pisarem em falso, ralando seus joelhos e mãos. Mas ela prosseguiu. Caminhar de volta não era uma posição que ela quis se dar. Afinal, ela conhecia bem a dor.

Deparou-se com um precipício à frente. Alrane acelerou o passo, o coração batendo rápido, olhos lacrimejantes pelo frio.

“Alrane pulou. Como na infância, quando pulava de pedras. Dessa vez, não havia chão”.

A liberdade se fez presente. Forte, imensa, doce, veloz, leve.

Sem medos, dores, expectativas, julgamentos.

Alrane seguiu, experimentando o vento contra si, sentindo si mesma pela primeira vez. E só a si mesma. Sem padrões, rótulos, ninguém para apontar.

Pela primeira vez, desde a infância, em “si mesma” era um lugar onde ela queria estar. Um lugar que ela própria podia transformar por e para ela. Um lugar sem dor nem medo. Um lugar livre.

“Asas. Alrane (re)nascera com asas”.

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Daniela

Daniela Almeida é bailarina, escritora e professora de ballet e educação física. Começou a estudar dança com oito anos de idade e escrever com treze, mas desde sempre é apaixonada por livros e artes do corpo.

Como escritora, participou da coletânea O humor nas pequenas coisas do dia-a-dia (Editora Rosa Rosé), da antologia O infame clube vitoriano das mulheres livres (Editora Wish) e Enquanto as luzes não se apagam (Editora Pendragon).

Mantém um perfil no Instagram, dedicado à postagem de seus escritos e fotos artísticas.

Para a escritora, poder criar é como estar envolto por algo maior que a própria vida.