Às vezes, no meio da tarde, Menina Veneno brota na minha cabeça. Não é culpa minha. É culpa da Marina. Ela fica cantarolando mentalmente enquanto trabalha e eu, é óbvio, acabo captando. Podia ser qualquer outra música, qualquer outro cantor, mas é sempre — sempre! — o Ritchie. Tem hora que preciso pensar de volta para ela: Ô, muda o disco aí, por favor? Tenho que me concentrar aqui. E ela responde: Ih, desculpa! Hoje, eu tô distraída.

Bem-vindo à realidade de um casamento entre telepatas.

Eu conhecia a Marina antes de vê-la pessoalmente. Telepatas são tipo pinguins, sabe? Em geral, quando se juntam em um casal, é até que a morte os separe. Claro que eu conheci outras garotas (e outros caras) e ela saiu com outros caras (e outras garotas) — a gente é telepata, não celibatários. Não foi o primeiro amor da minha vida. Mas sabe aquela sensação esquisita de que “está faltando alguma coisa”?

No meu caso, a dúvida se transformava na vontade de descobrir por quê, do nada, eu começava a cantarolar Menina Veneno sem nem ser fã de Rock dos anos 1980. Ou saber de quem era aquela voz na minha cabeça com um sotaque gaúcho reclamando do preço da abobrinha na feira — Três reais o quilo por essa bicheira toda batida? — ou choramingando com som de musicais ao fundo. Não aguento choradeira — nem a minha, nem dos outros —, então imagine minha indignação quando começava o funga-funga na minha cabeça.

Respondendo à pergunta que sei que você está se fazendo: eu posso entrar na mente da maioria das pessoas, mas é difícil alguém conseguir entrar na minha sem que eu autorize. Uma vez que a pessoa entre, sou eu quem determino até aonde pode ir. Uma pessoa destreinada me revela até os segredos mais podres, os traumas de infância e todas taras sem perceber que está sendo lida como um livro. O oposto raramente acontece.

A chave da questão é que preciso querer ler a mente da pessoa: não sou radinho de pilha para ficar captando tudo o que aparece na frente (um dos grandes erros que as pessoas cometem ao falar desse dom, junto com a ideia de que nós manipulamos as pessoas — eu só leio os pensamentos; não posso controlar o que a  outra pessoa pensa, tampouco apagar memórias ruins ou reforçar comportamentos).

Como, então, eu estava ouvindo outra pessoa reclamar dos preços do supermercado ou dizendo como o Leonardo di Caprio era lindo quando eu estava sozinho dentro do meu quarto?

Matrimônio telepata, pensei. Logo em seguida, entrei em pânico. Eu era muito novo para esse tipo de “até que a morte nos separe”. Não queria saber de compromisso. Matrimônio telepata é pior que casamento no civil e no religioso — é para a vida inteira e para todas as vidas além desta; um elo que se estende pela eternidade. Eu não estava a fim disso na época. Solteiro, feliz da vida, procurando trabalho, contando moedinhas para sair sexta à noite com os amigos. Sério mesmo que havia chegado a hora dessa união mental? Justo agora? E quem era a azarada fadada a ficar grudada em mim até o Alzheimer e os vermes nos comerem?

Eu não queria saber. Não tinha poder para impedi-la de se fazer ouvir dentro do meu cérebro, mas podia aprender a ignorar. Foi o que fiz meses a fio, apesar das dificuldades. Pensa em uma ideia fixa: quanto mais você tenta não pensar, mais ela te aferrolha. Tratar aquela voz sulista como só mais um ruído de fundo, como músicos desafinados que se apresentam na Avenida Paulista nos fins de semana, era uma atitude infantil — para não dizer dolorida; nunca tomei tanto analgésico na minha vida quanto naqueles meses —, mas era o que eu achava que iria resolver.

Até que um dia escutei algo que não era Ritchie nem musical da Broadway. Uma trilha sonora pomposa, como não se fazem mais nos filmes de hoje. Lawrence da Arábia, no caso.

Marina nunca tinha assistido ao filme. Ficou admirada com tudo: as cenas de batalha, o deserto, a voz de Omar Sharif e, principalmente, os olhos azuis do Peter O’Toole. É, não fazem mais caras como esse, ela pensou. Mais bonito que isso, não tem.

Tem o Franco Nero em “Camelot”, eu me peguei respondendo.

E aí escutei uma sonoríssima gargalhada. Okay, voz da minha cabeça, ponto pra ti.

Literalmente caí da cama com o susto. Ela também está me ouvindo?

É, estou. Faz um tempão, já. Tava achando que tu não ias começar essa conversa nunca. Bah, tu odeias mesmo teu chefe, não? E tu conseguiste sair com a tal de Cláudia? A ruiva peituda? Tu devias botar uma tranca no teu cérebro. Não sou obrigada a ver tuas patifarias imaginárias!

Nem preciso dizer que, se não morri de constrangimento naquele instante, não morro nunca mais. E não, eu não consegui sair com a Cláudia. Mas isso é história para outro dia.

Ela não estava só me ouvindo, mas ouvindo coisas que ninguém tinha tido acesso antes. Uma completa desconhecida sabia detalhes da minha vida! Não dá para descrever o buraco dentro do meu estômago que cavei, o tamanho do meu medo. Você tem nome, pelo menos?, perguntei.

Tenho. Eu me chamo Marina. E tu?

Prazer, Edgar. Você se descobriu telepata há muito tempo?

Coisa duns cinco anos. Achava que era problema mental, antes. Demorou pra encontrar o tratamento correto.

É horrível quando acontece, respondi. Quantos de nós são mortos e dopados por causa disso, mesmo hoje! E você está me seguindo por quê?

Tu que estás me seguindo. Não pedi pra tu entrares aqui. Por que eu?

Não sei. Calhou da gente se enganchar. Me fala mais de você. Pode ser?

A partir daí, a gente começou a se conhecer. Marina: bibliotecária, porto-alegrense, filha única, mesma idade que a minha, Gêmeos ascendente Escorpião (óbvio, pensei depois: eu sou Sagitário ascendente Touro — matrimônio telepático sempre une duas pessoas com signos opostos no zodíaco). Além dos musicais chorões e do Ritchie em looping, ela gostava de Rock gaúcho e andar de bicicleta. Eu me apresentei para além do que ela já havia visto: geógrafo, paulista, também filho único, fã de Rock progressivo e de frango com polenta nos fins de semana.

A partir daí, estabelecemos uma ordem para a conexão. Já que não ia dar para a gente se livrar disso sem morrer no processo, pensei com meus botões, melhor organizar entradas e saídas para que ela não visse mais bandalheiras imaginadas da minha parte e eu não tivesse mais que aturar lágrimas por conta dos filmes dela.

Eis outra coisa que preciso esclarecer sobre matrimônios telepatas. Uma vez estabelecida a união, a gente não fica nem pode ficar ligado o tempo todo um no outro. É tipo sexo: bom, mas cansa. Tem limite para a atividade, senão você acaba no mínimo com a mãe de todas das enxaquecas, se tiver sorte. Sangramento nasal às vezes acompanha — é uma nojeira dos infernos; não recomendo. E, sim, AVC é o ponto final do abuso de poder, digamos assim.

O engraçado é que, às vezes, apesar do esforço para não abrir comunicação, calhava de me distrair no serviço, virar a chave sem perceber, e pronto: lá estava eu ouvindo a Marina repensando a escalação do Grêmio, enquanto lia o “Zero Hora”. Eu retrucava: A gente não tinha combinado de não se interromper durante o horário comercial?

O esforço contínuo para impedir a mente de deixá-la entrar era tão chato e cansativo que logo acabei desistindo, confesso. Acho até que, como em casamentos comuns, acabei acostumando com a presença dela no dia-a-dia. Eu repassava a lista mental de coisas para comprar no supermercado e ela assobiava: Ô, bagual, não vai esquecer o sabão em pó de novo, hein? Ela ia escolher um filme para alugar e eu soprava: “O Carteiro e o Poeta” de novo? Aconteceu algo ruim no trabalho essa semana?

Era confortável. Acolhedor, até. Incômodo, também, é claro. Porque, antes de a gente se apresentar direito um para o outro, a gente saía com outras pessoas — era aí que a linha cruzada chegava aos limites do absurdo. Imagine você olhando para uma pessoa e tendo um comitê avaliador externo dentro da sua cabeça julgando o candidato nos quesitos beleza, inteligência e higiene pessoal: Ô, tem imposto pelo uso de desodorante aí em São Paulo? Porque essa guria tá sonegando feio, viu? Um dia, devo ter pensado alguma coisa sobre um cara alto demais, porque logo em seguida apareceu a voz dela: Ah, tu é bi, então?

Achei que soubesse, respondi. Te incomoda?

Não. Nem é da minha conta. É que nunca te vi pensando isso de um guri. Fiquei até chocada. Tu gosta dele?

Mais ou menos. Gostar até gosto, mas ele ainda não saiu do armário. E não sou Cristóvão Colombo. Aí fica difícil.

Que tem o Colombo a ver com isso, meu Deus?

Não vou ficar desbravando território desconhecido.

Marina teve uma crise de risos tamanha que, juro, acho que deu para ouvir até do lado de fora da minha cabeça. Acabei rindo junto, porque era impossível de impedir. Sabe aquelas risadas que dão vontade de engarrafar e vender como antidepressivo? Desse tipo.

Só tu mesmo para florear a ideia de desvirginar um mocinho inocente, Edgar. Ela ria e ria, pegando fôlego, e, depois, rindo mais. Tu não vales o sal que comes.

Ah, bem. Você já viu o suficiente para concluir isso.

Sabe de uma coisa? A gente precisa se encontrar pessoalmente. Isso, sim, ela disse, quando recuperou o fôlego. Tu vens para Porto Alegre ou eu vou até São Paulo, ou a gente se encontra no meio do caminho. Tu que escolhes. Mas precisa ser logo.

Meio do caminho, então: Rio de Janeiro, cidade que um nem outro conhecia. Marcamos a viagem para o feriado de Sete de Setembro e lá fui eu dentro do ônibus rezando — em circuito fechado, obviamente! — para não dar problema. Se desse errado, se ela fosse uma chata ou se ela me achasse um monstro, pelo menos a gente faria um pouco de turismo.

Sim, foi um choque ver a voz da minha cabeça na minha frente, dentro do corpo de uma estranha. Não, não nos ocorreu de pedir para o outro mandar foto. Em tempos pré-Google, não tinha dessas de rastrear redes sociais. Se a gente praticamente mora na cabeça um do outro, para que foto? Era só pensar em voz alta: Ó, estou aqui. Sou o cara com a camisa da seleção da Holanda. E pronto.

— Bah, mas tu é de causar torcicolo. — Ela deu risada quando me viu de perto, nas escadarias da Biblioteca Nacional.

— Os genes holandeses tinham que aparecer em algum lugar — respondi. Ela sabia, porque já tinha lido na minha mente, que eu era uma mistura estranha de batavos cansados de frio, instalados no meio do estado de São Paulo, e de italianos anarquistas cansados de greve, enfiados no meio da capital paulista. E ela, bem, ela dizia que ela era a tataraneta da Ana Terra, cabelo preto e pele trigueira, só que telepata.

Final feliz, você diria.

Claro que não.

***

O problema de matrimônios telepatas é que, em geral, as mentes se entendem à perfeição, mas é raro que o resto do corpo siga junto. O encontro pessoalmente foi divertidíssimo, mas não rolou a menor atração física na hora. Dava para ouvir isso enquanto a gente conversava na Confeitaria Colombo — por mais que tivéssemos combinado de antemão em não deixar circuitos ligados para aproveitarmos o encontro como pessoas ditas “normais”.

Gente, mas ele come que nem um porquinho, ela pensou uma hora. Olhei para o prato com muita vergonha. É, eu havia exagerado um pouco, mas a comida estava tão boa! E teve uma hora que ela olhou para mim de braços cruzados e cenho franzido.

— Ô, se tu vais ficar mesmo comparando meus peitos com o da sua ex, dá para desligar a rádio mental antes?

— Mas eu… — Ela apontou o meio da testa, com cara de brava. — Desculpa. Vai meio que no automático. É que não consigo controlar tudo que penso.

— Tu nunca precisastes controlar. É bem diferente, né? — Marina deu outra daquelas gargalhadas ensurdecedoras.

— Assim como você, provavelmente, nunca percebeu o pessoal olhando em volta quando você ri desse jeito…

Sim, todo mundo ao redor tinha começado a olhar para a gente quando ela começou a rir. E foi a vez dela ficar bem constrangida como nunca, as maçãs do rosto rubras como brasas. Ponto para mim, pensei em circuito aberto. Ficou ainda mais vermelha. Ela sabia como me irritar e eu sabia como deixá-la constrangida — nisso, éramos velhinhos casados há cinquenta anos; não dois jovens de vinte e poucos mal saídos da faculdade.

— Para responder sua pergunta, nunca achei alguém que me ouvisse. O serviço sempre foi via de mão única, afinal.

— Tu usas isso a seu favor?

— Em que sentido? Chantagem? Não. Não gosto. E você?

— Não profissionalmente. Quer dizer… escrevo umas fanfics com histórias que capto. Nada que renda grana. Sabe como é: dizem que, se a gente lucra com o dom, ele some.

Bobagem, pensei, fechando a comunicação para que não me escutasse. Eu já havia conhecido vários telepatas. Todos tiraram vantagem do dom em algum momento da vida. Os mais canalhas se especializavam em extorsões; os menos faziam espionagem industrial.

Eu não tinha uso para telepatia sendo um mero geógrafo a serviço do IBGE. Só ouvia mesmo as vozes dos outros para afinar qual seria minha cantada ou, então, usava como forma de espantar o tédio em viagens de ônibus ou metrô. Nunca pensei em usar como fonte de inspiração para textos — até porque não sou dos mais talentosos para escrever ou desenhar nada além de relatórios e mapas.

— Sempre quis me livrar disso — eu disse, batendo os dedos na minha cabeça. — Não gosto de ser assim.

— Não é algo que se escolhe, né? — Marina respondeu. — O jeito é ir levando.

— Não te incomoda? Quero dizer, eu e você… o que a gente tem. Essa união.

— No começo, incomodava bastante. Eu não sabia quem você era. Não gostava da ideia de não poder ter escolhido com quem ter esse troço. Mas, sei lá, acho que acostumei. Não discuto com o destino. Se tem que ser, pelo menos… pelo menos que seja de uma maneira clara. Melhor que a gente já saiba os termos do contrato.

— Quais termos?

— Nada de se intrometer na vida um do outro? — Ela sorriu. — Eu sei que chamam o que a gente tem de “matrimônio”, mas não gosto do termo. Não sou tua patroa nem quero ser. Tu pode seguir sendo Cristóvão Colombo em São Paulo. Só não quero ver isso na minha mente. Cada um com sua bandalheira. De acordo?

— De acordo. Nada de entrar na mente do outro sem pedir licença.

—  Vamos ter que trabalhar isso. — Ela riu. Bem baixo, desta vez.  Sim, bem baixo.

Foi isso: nós nos despedimos no aeroporto no final do dia com a certeza de que tínhamos, cada um, encontrado um amigo para toda a vida. Consegui aceitar um pouco melhor a ideia de aquela era minha esposa telepática depois de ver que não havia atração física. Sei, agora, que eu estava apenas me iludindo, mas, na época, fiquei feliz. Apesar de nossas arestas, apesar de ela achar que eu comia que nem um porquinho e eu não gostar dos comentários cáusticos dela de maneira geral, a gente se entendeu bem. Isso é essencial nesse tipo de relacionamento. Satisfação física, diriam os mais velhos, a gente arranjaria com outras pessoas, em vários outros momentos da vida: o importante era garantir que a conexão mental se mantivesse sempre livre de turbulências, que o resto se arranjaria.

Parecia perfeito.

Sei o que você está pensando. É claro que deu zica.

***

Eu deveria saber que ia acontecer, em algum momento. Afinal, conhecia a mente da Marina melhor do que minha própria. Tinha visto tudo o que não deveria ter visto — toda vontade que ela tinha de constituir família, ter filhos; essas coisas. Eu sabia e não falei nada. Não era da minha conta.

Estávamos unidos, mas nossas vidas eram nossas para administrar. E só nossas. Esse era o combinado.

Mas aí aquele sujeito começou a aparecer aqui e ali. Uma palavra, depois outra, e outra, até que a goteira se transformou em um imenso dilúvio e não havia jeito de fechar o canal de comunicação sozinho: ela precisava, pelo amor de Deus, fazer algo a respeito. Eu não estava dando conta de me impedir de pensar em um homem que nem conhecia e não queria conhecer.

Afinal de contas, quem é esse fulano, Marina?

O Pedro Henrique é livreiro. Amigo de uma amiga minha. É colorado, mas até aí todo mundo tem defeito.

Nada de risada chamativa. Ela concordava com o que eu disse sem fazer nem um comentariozinho sardônico nem nada. Meu alarme interno soou feito sirene de ambulância.

Devo me preocupar?

É só um encontro, Edgar. Por que o estresse? Não te lembras do combinado?

Lembro, claro. Só espero que o tal de Pedro Henrique não se importe.

Não te preocupas. Não vou contar para ele. Não sou maluca!

Claro que ela não iria contar. É por isso que você, provavelmente, nunca vai conhecer um telepata. Não costumamos revelar o segredo para outras pessoas, porque teríamos que ser honestos até demais — o tipo de honestidade que faz pessoas menos corajosas saírem correndo ou chamarem a ambulância para nos levar ao hospital psiquiátrico mais próximo.

E, bem, pensa por outro ângulo. Quem, quando se apaixona, realmente gostaria de saber que está dividindo a pessoa amada com outro ou outra, ainda que não fisicamente? Não existe divórcio em um matrimônio telepata. Ou o companheiro físico se acostuma com a ideia, ou…

Ou ele não fica sabendo.

Por um bom tempo, foi o que aconteceu. Pedro Henrique se estabeleceu como namorado da Marina e ela não contou sobre mim. No princípio, levei numa boa; se ela estava feliz, tudo bem.

Eu estava fisicamente solteiro — o garoto da piada do Cristóvão Colombo decidiu permanecer no armário e, em seguida, noivou de uma garota com quem conviveu a vida toda. Parei de ouvir o que passava pela cabeça dele de tanta pena que senti por causa da confusão de pensamentos, de tudo que ele tentava afogar dentro de si e não conseguia. Tem limite para o que eu possa fazer por alguém.

No meio da confusão, também parei de ouvir a Marina. Antes, ela, às vezes, costumava deixar a chave mental ligada e era constrangedor ser espectador involuntário da ansiedade dela antes dos encontros, da dificuldade de achar roupa bonita e todos os “será que essa maquiagem tá boa?” que mulheres podem processar em menos de cinco minutos. Eu até dava pitacos — nada bem-vindos, a julgar pela reação dela. Apesar disso, ainda falávamos.

Após um tempo, nem isso acontecia mais. Por mais que me esforçasse, nenhum sinal, voz, lampejo. Precisei, imagine você, mandar um e-mail! Ela respondeu, também dando risada da ironia da coisa: telepatas usando meios de mensagem comuns, como se fôssemos pessoas “normais”. Mas eu estava varado de preocupação. Nunca precisei conferir se meus poderes funcionavam antes, caramba. E justo com ela…

Estava tudo bem. Ela respondeu dez minutos depois. Não por telepatia. Por escrito. Marina só vinha trabalhando demais; precisava concentrar todas as forças na reforma da biblioteca e, por isso, havia fechado os canais de comunicação interna, para não se distrair. Além disso — ela sublinhou no texto —, não queria plateia para o namoro dela. O namorado não entenderia que existia outro na jogada.

Claro que concordei — eu ficaria bastante incomodado em ouvi-la na cama com outro cara, obviamente. Seria como abrir a porta de um quarto e dar de cara com um casal em plena atividade, sabe? Ou até pior, porque as coisas que a gente pensa na hora são ainda mais íntimas do que o ato em si, convenhamos.

Mas, ao mesmo tempo, fiquei meio mordido, mesmo que conscientemente dissesse para mim mesmo que não havia nada de errado. A gente tinha uma ligação que só se encerrava com a morte. O sujeito tinha que entender esse lado. Quem esse fiasco desse livreiro achava que era para bagunçar tudo?

Confesso que o silêncio me incomodava não por causa do fulaninho em si, mas porque eu não estava acostumado com o silêncio. Nunca havia sido deixado sozinho dentro da minha própria cabeça antes.

Odiei cada mísero segundo da experiência.

Comecei a procurar outros contatos, a agir como uma antena de rádio para ver se conseguia tapar o buraco. Eu me lembrava de que Marina me achava um porquinho, que ela havia deixado claro que não sentia atração por mim, que tínhamos combinado justamente ficar longe da vida um do outro.

Vê se adiantou alguma coisa.

Passou-se um semestre. O cara da piada do Cristóvão Colombo rompeu o noivado e veio direto falar comigo. E foi ficando. Quando a Marina entrou na minha mente, ela me encontrou xingando os pais dele por todas as ofensas que eles nos disseram, aos berros, na frente do meu prédio, para os vizinhos ouvirem.

Ah, então conseguiu conquistar a América, ela disse. Ou Américo, no caso.

Acho que foi um tratado de exploração mútua. Como está o livreiro?

Ela não respondeu na hora. Você gosta do Américo?

Gosto. Gosto muito. Fui honesto. Nem precisava dizer; bastava olhar dentro de mim para descobrir. Pela primeira vez, eu estava apaixonado por alguém que me amava de volta com a mesma intensidade.

E tu vais contar pra ele da gente?

Você já contou para o Pedro?

Não te faz de salame. Eu perguntei primeiro. Tu vais?

Olhei para o Américo, dormindo na cama, sem saber que o diálogo acontecia. Sem saber que existia uma Marina. Sem saber que eu era um bígamo e que não havia jeito de explicar a situação sem parecer um louco. Eu amo o sujeito, Marina. Se eu contar, ele vai embora. E eu não quero que ele vá.

Silêncio do outro lado.

Foi a última vez que a ouvi até aquele dia em fevereiro. Fechei os canais de comunicação. Também queria viver a minha vida sem platéia, por uma vez que fosse.

***

Fevereiro foi um mês quente como um forno, sem haver ventilador que desse conta. Estava na cama, tentando dormir, meio bêbado, completamente irritado, porque Américo, que nunca sentia calor, roncava. Fazia tremer os lustres. Como ele conseguia, cara?

Foi quando aconteceu. Sem aviso. Ele se deitou de bruços na cama e começou a cantarolar Menina Veneno.

Algo dentro de mim sabia o que era. Quase coloquei o coração para fora de nervoso.

— Preciso de ajuda. — Era a voz dela. Aquele sotaque porto-alegrense, dentro do corpo magro de Américo.

— Por que está falando pelo Américo? Usa minha cabeça!

— Não consigo. Estou desacordada. Tô entrando onde dá. Ele tá pensando em você e eu tô pegando carona.

— Marina, o que houve?

— Vou te dar um endereço. Chama a brigada. O Pedro está tentando me matar.

Ela ditou um endereço. Mal terminou de falar e Américo acordou, sem fôlego, suando frio. Saiu correndo da cama para vomitar. Disse que teve um pesadelo com uma mulher que dizia ser minha esposa.

— Imagina isso! Você casado com uma mulher — disse, revirando os olhos. — Estava toda ensanguentada, berrando por socorro, porque eu não conseguia ouvi-la de tão longe que eu estava.

Não me pergunta como foi que eu, em São Paulo, consegui acionar a Brigada Militar em Porto Alegre. Não me pergunta como foi que a Brigada em Porto Alegre conseguiu chegar em Atlântida — uma praia onde os porto-alegrenses costumam passar férias de verão — e encontrar o Pedro Henrique com a roupa suja de sangue depois de ter socado a namorada até quebrar quatro dentes, três ossos e quase causar um rompimento no fígado.

Só sei que a história foi parar nos jornais de todo o Brasil: “O livreiro gaúcho que trancou a namorada em cárcere privado, porque acreditava que ela fosse telepata e precisava ser exorcizada em nome do Senhor Jesus.” O escândalo foi daqueles de tremer o chão e queimar tudo.

Fui até Porto Alegre, Américo a tiracolo, e apresentado como “um amigo” para os pais e os colegas dela — o paulista que ela tinha conseguido acionar com os últimos três por cento da bateria do celular, porque era o último contato com o qual ela havia falado. Sim, a gente precisou inventar essa história para explicar minha participação na trama.

— Como ele descobriu sobre a telepatia? — Foi a primeira coisa que perguntei assim eu e ela nos vimos sozinhos no apartamento dela em Menino Deus, quando recebeu alta do hospital.

— Ele viu os e-mails que trocamos — Marina respondeu. — A gente menciona telepatia. Eu falei que era brincadeira, mas ele não acreditou. E quando eu chamei por você no meu sono… Eu não tenho como controlar a minha mente quando durmo!

— É por isso que nunca se deve confiar na palavra escrita — bufei, tentando não rir da ironia. Aposto que os telepatas de antes não tinham esse tipo de problema. Bem, os telepatas de antes eram queimados na fogueira ou torturados na roda. — Por que não me alertou antes?

— Porque tu fechaste a porta. Eu não tinha como arrombar. A mente quer o que a mente quer. — Ela deu de ombros.

— Mas eu e você…

— É, eu sei. Tu querias distância. Mas não dá. A mente quer o que a mente quer. É pra sempre. — Marina fitou Américo. — Tu dormes com ele, mas eu cheguei primeiro. Pode ficar sossegado. O corpo dele é teu. E o amor dele, também. Mas a mente é minha.

— E eu vou ter que aceitar isso? — Américo não estava mais chocado; não havia espaço dentro dele para isso.

— Tu tens uma ponta da corda e eu tenho outra. Mas eu sei que ele te ama. E tu amas ele, sei também. Se não amasse, não tinha conseguido usar tua mente pra alcançar ele!

Américo morreu de ciúmes. Esperei pelo momento que ele diria “ela ou eu”, em que ele iria gritar que não saiu do armário para isso. Mas, depois de uma semana em Porto Alegre, vendo como eu e Marina interagíamos, vendo que o humor ácido dela combinava com o dele (dois geminianos! Claro que eles iam tagarelar até a língua cair da boca), ele entendeu a situação. Américo era o amor da minha vida, mas minha vida vinha com umas notas de rodapé meio complicadas.

— Não vai dar pra gente ficar aqui eternamente — Américo disse. — E você vai ficar todo preocupado achando que o fulano lá vai voltar atrás dela.

— Você aprendeu o truque de telepatia bem rápido.

— Deixa de brincadeira. Tô falando sério. Vamos resolver racionalmente. Por que ela não vem morar com a gente por uns tempos?

— Ficou maluco? — eu engasguei.

— Não. Pelo contrário. Ela precisa de um lugar onde possa deixar a poeira baixar um pouco. — Ele deu de ombros. — Não me importo de dividir meus brinquedos, Ed. Pelo menos, até a hora de dormir. Aí é cada um com o seu, okay?

Nunca pensei que a Marina fosse concordar com a ideia. Para você ver como telepata também se engana: ela concordou. Era só por uns tempos, mas ela foi ficando até que se casou fisicamente com um primo do Américo e foi morar no apartamento em frente ao nosso. O pessoal fala que ela é Dona Flor e Seus Três Maridos, porque acabou administrando dois lares. Américo a chama de Patroa Cerebral e os dois se adoram até hoje.

Eu a chamo só de Marina. E ela, quando precisa chamar minha atenção, assobia Menina Veneno. Ela sabe que isso me irrita profundamente mas, ei, é desse tipo de coisas que são feitas um casamento, afinal.

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Ana

Anna Fagundes Martino nasceu em São Paulo, em 1981. Jornalista, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de East Anglia (Reino Unido), lançou-se como escritora ficcional no Brasil em 2016, com a noveleta A Casa de Vidro. A história teve duas continuações: Um Berço de Heras, publicado em 2017, e Os Filhos do Pôr-do-Sol, com publicação prevista para 2019. Co-fundadora e editora da editora Dame Blanche, especializada em literatura especulativa e focada no mercado eletrônico, ela teve textos lidos na rádio BBC World Service e participação em coletâneas como Mitografias — Mitos de Origem e revistas como Trasgo e Mafagafo.

Seu portfólio completo pode ser encontrado no site http://www.annamartino.com.