A casa pareceu virar o inferno quando Venâncio adoeceu. Tudo passou a ser feito em sua razão: no almoço, a família toda havia de se dispor a comer as gororobas que seu estômago não empurrava orifícios afora; no banho, cada dia um deles havia de se sentar na tina com Venâncio nos braços, que na fraqueza febril de sua moléstia, não punha os pés no chão sem esperar a queda; nas madrugadas de alvoroço das dores de seu corpo enfermo, não havia quem não se levantasse para ver o demônio de suas entranhas que reinava adiantando o café da manhã.

Faziam-no de bom grado. Afinal, era filho, irmão, cunhado querido e sempre bem-aventurado, mas os desgostos de Venâncio para com os amparos incessantes em seus incontáveis dias de cama desencorajavam a família e pronunciavam a aura escura de seus espíritos.

Acontecera do nada o desaire de Venâncio. Acordara certa manhã com a ardência de um sol a despontar em os intestinos. Revirou-se agitado na cama como se um peixe fora d´água, até a consciência de seu corpo avisar sobre a urgência do derrame. Na necessidade da latrina, tentou se prostrar em pé, ao que foi enganado pelos joelhos desencaixados que o entregavam ao chão de tábuas a cada tentativa. Acordou todos na casa com os brados revoltosos, um pouco pela força que lhe faltava, um tanto pelas dores do interior. Foi a mãe Eva quem, alçando-o do chão — como tantas vezes na infância —, tomou-o nos braços e o carregou ao destino querido, orando que os músculos dormentes voltassem e que seus venenos intestinais fossem desaguados.

Coisa que não ocorreu naquele dia nem nos próximos.

Desde então, a casa pareceu virar o inferno, cujo diabo reinante se achava nos buchos de Venâncio. Todos deviam ajuda no que fosse possível, no beber e alimentar, no banho e nas idas à latrina, até no descerrar das janelas a cada nova manhã. Ainda mais depois que Diana, a moça com quem tencionava breve casamento, acabou com qualquer esperança no vindouro ao vê-lo naquele estado, anunciando que não poderia estabelecer matrimônio com sujeito tão estropiado.

Não bastassem as penas cotidianas, o nomear de sua condição ferveu seus brios e fez os de todos se alarmarem. Antes jovem de futuro certeiro, fruto da pose atlética a lhe trazer sorte das paixões e a ligeireza de mente e corpo a lhe render amizades e melhores trabalhos na carpintaria, agora se destinava a encontrar recursos que mitigassem as dores, as quais se espalhavam ventre abaixo e traziam de volta a força escoada das pernas.

No desespero de vê-lo nessas condições, Eva chamou os médicos da vila. Examinaram-no cada palmo: cutucaram seus joelhos, receitaram supositórios e chás calmantes; nada que se converteu no efeito quisto no corpo ou nos ódios de Venâncio numa semana de tratamento.

Saturada dos reclames do irmão, Verônica chamou padre que viesse dar bênção, clamar a santos e interceder no físico e alma, o que ainda mais exaltou o acamado. Em defesa da mulher, Pacheco trouxe amigos, matou um ganso velho, assou-o com ervas e batatas doces, serviu-o na cama como um banquete ao cunhado, mas nada que não o tenha ainda mais entristecido de encontrar naquela situação, já que qualquer carne servida lhe provocava ânsias de vomições.

Com o tempo passado e o mistério dos males não resolvido por ninguém que se conhecesse, conformaram-se: tanto Eva, Verônica e Pacheco quanto o próprio Venâncio, a par de seu perpétuo encargo de sobreviver à custa dos outros. O que lhe acalorava e corava suas faces eram as alegrias pequenas de seu presente mesquinho, como os banhos em que descansava o corpo doído, a chuva fria que caía contra a janela num ímpeto folgazão, e a água com açúcar que a mãe lhe servia para serenar o estômago. E assim prosseguiram na tarefa de criar Venâncio, penosa, porém bem feita, pois era filho e irmão, cunhado querido e sempre bem-aventurado.

Volta e meia se davam ao luxo do descanso. Venâncio não tragava nada que não brotasse com raízes, e era preciso toda manhã cozer cenouras e batatas, lavar alfaces e couves, açucarar figos e maçãs. Eva, por vezes, permitia-se matar uma galinha ou assar um peixe fresco da feira, desde que bem fechadas as portas do quarto de Venâncio, para que o refluxo não começasse e se estendesse por toda noite. Na ânsia calmosa de compreender o mal que se lançava sobre o filho, comentava com Verônica e Pacheco acerca da mazela caída na casa sem motivo nem explicação, enquanto revirava o peixe na boca e ouvia clamores de Venâncio por mais água-doce.

Se de súbito aberta aos sussurros da luz divina ou fantasiosa na aflição desesperada de ver o filho em melhores dias, Eva aos poucos atentava às coincidências que passavam diante seus olhos desatentos. Não fossem apenas os sintomas de Venâncio, seu melhor tratamento se deu no paliativo aguado, que gostava de ver a chuva e desejava maiores dilúvios, acalmava-se com os banhos na tina ou com os que fazia jorrar goela abaixo, além de desgostar como a morte o cheiro dos assados, os quais voltavam ao prato, mastigados e banhados de bile. Sentada à mesa do jantar, com o peixe revolvendo na boca, ouvindo os pedidos de água do filho, conseguia ter por certo seu diagnóstico: já não ficava em pé, porque não tinha as pernas. Naquele momento, foi que deu a sentença à filha e ao genro: “Venâncio tá virando peixe.”

Aquilo que, a princípio, pareceu troça da matriarca, acabou por se tornar a verdade que buscavam: o laço que, enfim, atavia o nó mal feito.

Passaram a deixar Venâncio por mais tempo aboiando na água do banho, esperando que qualquer dia nascessem guelras ou pele por entre dedos. Deixavam-no durante as tardes não mais à cama, mas ao pé da janela, para que observasse a chuva que, por sorte, caía mais rotineira nessa época do ano. Também espalhavam copos de água-doce perto de qualquer dos lugares que Venâncio fosse se achegar, a fim de que tivesse mais conforto na metamorfose de sua natureza. E mesmo que não o explanasse em voz, acreditavam que parecia mais sereno, bebendo e se banhando o quanto apetecesse seu âmago písceo. Porém, tinha quase sempre os olhos baixos, brilhantes como se prestes a marear a tristeza de não poder ser o que se é.

Não tarde, as vindicações de Venâncio cessaram por completo. Não só era incapaz de movimentar seus inferiores e se alimentar como pretendido, como já não mexia a língua na articulação das palavras comuns, trazendo mais infelicidade. Tentou de toda forma arrancar palavras da garganta, mas estas só a arranhavam feito um miar de gato novo e morriam num resmungo de suspiros. Eva, vendo os pesares do filho, bem como Verônica e Pacheco, deu a ideia: “Temos de largar o menino no rio. Peixe não vive fora d’água”. Apesar de absurdo, o tempo não dava outra opção senão deixar Venâncio definhando em sua cadeira à luz da janela, olhando a chuva como se desejoso de se banhar dela, escondendo seu corpo na tina como se no eterno leito. Uma lástima.

Assentiam nos dias seguintes de contendas, mas era inevitável a tentativa. Aproveitavam as aquiescências para acalentar as próprias hesitações, deixando combinado que iriam vê-lo todos os dias, jogar pão e pedaços de frutas para seu bom provimento enquanto o rabo de peixe desenvolvia; o que acreditavam que iria acontecer assim que liberto em sua natureza.

Escolheram o dia e ele veio. Apesar da chuva insistente que acinzentava as casas vizinhas, não se cobriram para cumprir o encargo. Puseram Venâncio sentado na cadeira que usava ao pé da janela e o carregaram porta afora. Levaram-no pela ruela em que moravam e nas próximas: uma procissão de despedida àquele que nunca mais poderia andar sobre a terra outra vez. Marcharam segurando cadeira e Venâncio, no desconhecimento do plano, contentando-se em sentir a chuva batendo na pele. Foram de encontro ao rio a correr fundo e rápido, serelepe no receber da chuva. Deram adeus a Venâncio, mas só por hoje, pois no dia seguinte tornariam a encontrá-lo.

Pensou que seria sua sina piedosa: permanecer ao pé do rio, banhado pela chuva, acariciado pela água que lhe era a única alegria nos dias de infortúnio. Não fez nenhum resmungo enquanto pensou que o haviam deixado ali para quedar sozinho e imóvel em suas observações. Também não esboçou sentimentos quando sentiu as mãos de Pacheco o pegar no colo e carregar para a beirada do rio. Não fez nada que não fosse esperar pelo certeiro, assim como faziam Eva e Verônica.

O estrondo de seu encontro com as águas podia ser o adeus ou o obrigado, a súplica ou a gratidão. A mortalha ou a vida. Não sabiam.

A chuva caía acinzentando as casas vizinhas, a cadeira vazia e o rio serelepe. À sua beira, três vultos banhados esperavam para ver se Venâncio um dia retornaria.

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Leticia

 

Letícia Copatti Dogenski é gaúcha, dentista e autora das novelas Onde as Nuvens Fazem Sombra (2015), A Última Rosa do Verão (2017) e do livro de contos Previsões de Mau Signo (2017), além de já ter contribuído com diversas antologias e revistas literárias.

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